sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 3, Mais palavras para quê? é o Estado Português...

[1] As guerras de África terminaram há mais de duas décadas e os seus ecos só muito esporadicamente se fazem ouvir na comunicação social. Essas referências adquiriram um tom quase litúrgico por ocasião das comemorações do 25 de Abril e do 10 de Junho, a primeira destas datas mais cara à esquerda, a segunda eleita pela direita.

Com a criação do monumento aos combatentes do Ultramar, rodeado de controvérsia desde o início do projecto e com a inauguração marcada por uma monumental vaia ao então presidente Soares, o 10 de Junho ganhou um palco para uma comemoração extra oficial. Tem o seu quê de pitoresco, concentrando velhos guerreiros a passar da meia idade, em que preponderam comandos, páras e fuzos, com as suas boinas, as suas medalhas os seus crachás.

Os discursos são belicosos, eivados de saudade dos tempos em que, segundo eles, a Pátria não fora ainda traída e vendida a retalho. Alguns oradores reafirmam a sua disponibilidade para se baterem pela Pátria, se a Pátria o exigir (“ainda podemos pegar numa canhota, porra!”, dizem).

Depois, bebem-se uns copos, canta-se a Portuguesa e... vai-se para casa. No próximo ano há mais.

Aparentemente, as feridas da guerra estão saradas (ou, pelo menos, cicatrizadas), e há que recordar apenas os momentos bons (a camaradagem, as cervejolas, as lavadeiras-que-lavavam-o-quico), recordar os amigos que por lá ficaram, dar e receber notícias dos ausentes e ... esquecer tudo o mais.

E no entanto, as feridas da guerra permanecem abertas para muitos combatentes a quem deixou marcas subtis, que não só tardam a sarar, como se vêm a agravar à falta de tratamento apropriado. Para além do sofrimento de que padecem, são muitas vezes confrontados com atitudes de incompreensão e repúdio por parte do Estado sob cuja bandeira serviram, por parte do Exército em cujas fileiras foram mobilizados e combateram, por parte de médicos tacanhos, insolentes e ignorantes que não encontram o vírus da PTSD nas análises que prescrevem, nem a sua sombra nas radiografias tiradas aos doentes.

É no mínimo bizarro que numa sociedade responsável que se proclama regida por valores da Solidariedade, da Justiça, da Liberdade e do respeito pelos Direitos Humanos, os cidadãos que serviram o Estado naquilo que o Estado exigiu tenham que lhe provar que o serviram (apresentando testemunhas, até!) e que lhe demonstrar que desse serviço resultou a doença de que padecem.

Essa doença, stress de guerra, para usar uma designação portuguesa e curta, está hoje perfeitamente tipificada, e a sua relação directa e causal com a exposição a situações de guerra foi plenamente assumida pelo governo americano. O Tio Sam foi ao encontro dos seus veteranos traumatizados, estendendo uma rede nacional de Vet Centers para os apoiar.

Em Portugal tínhamos mesmo que fazer diferente. Demasiado importante para ir ao encontro dos cidadãos, o Estado permanece indiferente e limita-se a aguardar que aqueles que o serviram provem que a doença existe, que é consequência da guerra e provem ainda em cada caso particular que o doente esteve na guerra (onde? com quem? quando? quem era o superior imediato?) e que daí resultou o estado de que padece. Brilhante! Kafka não faria melhor!

Resta lembrar, recuando no tempo, que esta atitude iníqua do Estado Português não é de hoje:

- Os deficientes físicos tiveram que travar uma luta feia (a ponto de manifestações de deficientes serem reprimidas pela polícia...) para conseguirem ser tratados com respeito e para que lhes fossem dados tratamento médico e pensões compatíveis com aquilo que perderam ao serviço do Estado. A ADFA teve um papel relevante, e só com muita luta o Estado cedeu.

- Nos primeiros anos da guerra colonial, os militares mortos (em combate, por doença ou por desastre) eram sepultados no teatro onde faleciam. As famílias tinham que pagar do seu bolso (se tivessem disponibilidades para tanto) o repatriamento do corpo! Aparentemente, o Estado equiparava-os a turistas, em relação aos quais não sentia quaisquer responsabilidades.

- Durante as campanhas do sul de Angola, em 1915, o insuspeito Sarmento Pimentel, então Alferes de Cavalaria escrevia “...avistamos os morros de Calveque ... era já teatro de inúmeras tragédias que a Pátria ignorava, os governantes ocultam para que, aos escapados milagrosamente, se possa regatear, mais tarde, o pão dos últimos dias de existência”.[2]

- Já no século XVII o Padre António Vieira escrevia “Se servistes a Pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”.

Mais palavras, para quê? É o Estado Português!
. . . . .

NOTAS:

[1] Este texto foi escrito como colaboração para a APOIAR, Associação para Apoio aos Ex-combatentes Vítimas de Stress de Guerra. Foi integrado na intervenção da Apoiar no Colóquio que a ADFA (Associação dos Deficientes das Forças Armadas) promoveu no Porto em 29 de Novembro de 1996 subordinado ao tema “A realidade do distúrbio pós-traumático do stress de guerra; causas e consequências”.

[2] in “Cobiça de Angola” de Ernesto Moreira dos Santos, 1957

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