sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 18 Epílogo


Poucas semanas antes da nossa partida de Luanda, a cidade transformara-se num campo de batalha, com os três movimentos a degladiarem-se pelo controlo da Capital. O MPLA saíu vencedor nesta fase, graças às milícias populares que compensaram a debilidade do aparelho militar do movimento.

A Unita e, principalmente, a FNLA não se atreveram a armar a população, com receio de ficarem sem as armas e continuarem sem população a apoiá-las. A luta, que ficou conhecida como o período das “confrontações” durou poucas semanas, com o reduto da FNLA na Avenida Brasil a ser alvo de pesados bombardeamentos.

À noite ficávamos a jogar às cartas ou poker de dados e a ver o espectáculo das tracejantes riscando o céu e ouvindo o tiroteio e as morteiradas ao longe. A tropa portuguesa ainda controlava a cidade do asfalto, de modo que o perigo para nós não era grande.

O que se seguiria meses depois foi outra história: a dupla invasão de Angola com a FNLA e a tropa zairense a avançarem pelo norte rumo a Luanda, e a Unita e FNLA a darem cobertura à entrada da tropa sul africana pelo Sul (isto com o Alto Comissário Português em funções e o Tenente Coronel/Brigadeiro/Páraquedista Heitor de Almendra , à direita, ainda em Luanda, observando impávidos e serenos).

Seguiu-se a saída pela porta do cavalo do Almirante Cardoso, arreada à pressa a bandeira das quinas, a proclamação da República Popular de Angola tendo como ruído de fundo os rebentamentos da artilharia zairense trazida pela FNLA até às portas de Quifangondo.

Mais a sul, a força expedicionária da África do Sul destinada a evitar um governo comunista e não branco em Luanda, depois de um avanço quase sem resistência era finalmente detida às margens do Queve pela tropa cubana (o MPLA também chamou os seus amigos, como seria de esperar…)

Nesse tempo a África do Sul era governada por um poder branco que considerava os pretos uma raça inferior, mantinha-os fora das zonas dos brancos onde só podiam entrar em certas condições, com uma espécie de passaporte interno, que lhes podia ser retirado em qualquer altura. (Na foto ao lado, um dos Bothas, o Roelof "Pik" - não será Pig?...)

O preto sul africano, para além de semi escravo do branco (neste ponto não é prudente atirar pedras aos carcamanos do sul...), tornara-se estrangeiro na sua própria terra com a criação dos famigerados Bantustões.

Os cubanos vieram em auxílio do MPLA e pela primeira vez o exército sul africano foi derrotado. A África do Sul retirou mas manteve, durante anos, um certo controlo sobre parte do sul de Angola (alegando a protecção da barragem de Calueque), fazendo raides com os seus Camberra e Mirage e com o batalhão “Búfalo” quando o achavam conveniente. Alguns desses raids redundaram em grandes matanças, quer de angolanos, quer de malta da Swapo que lutava pela independência do Sudoeste Africano (Namíbia, depois da independência).

O apoio à Unita só foi cortado quando a maioria negra ascendeu ao poder em Pretória modificando, como seria de prever, a sua política externa, nomeadamente no tocante a alianças.

Talvez seja sintomático (pelos menos dá que pensar) que os principais aliados da UNITA e da FNLA tenham sido precisamente regimes dos que mais espezinharam a sua própria população.

O Zaire onde uma legião de chefes e capatazes enriqueceu à custa do trabalho de um povo miserável, mantendo no poder durante décadas um dos déspotas mais corruptos do século XX (não se trata de uma figura de retórica), que soube favorecer as multinacionais e convencer sete presidentes americanos[1] de que sob a sua batuta todos tinham a ganhar. Excepto, claro, os zairenses…

Na República Sul Africana, alaparam três milhões de brancos e, como bons cristãos, trouxeram a civilização e a cruz: a civilização para o preto ver (do outro lado da rede) como o branco lhe era superior, a cruz para imitar Cristo, deixando-se imolar sem um queixume, ganhando o céu sofrendo na Terra.

Era com gente desta que o Estado Novo se dava. Foi com gente desta que os Estados Unidos se deram (e se dão). A UNITA não podia ter estado melhor acompanhada!

Com o 25 de Abril, um aspecto essencial das relações entre pretos e brancos foi alterado: os brancos que quiseram ficar nas ex-colónias não mais beneficiaram do ascendente sobre o preto, que as leis consentiam e em que a administração colonial assentava. Isso não basta, contudo, para as pessoas se sentirem iguais e, eventualmente, solidárias.

Em Portugal como nas ex-colónias, um longo caminho há ainda a percorrer antes que um branco olhe para um preto da mesma forma que olha para outro branco (no primeiro caso, vemos um preto; no segundo vemos uma pessoa loira ou morena, alta ou baixa, gorda ou magra…).

A identificação que se fez durante séculos de branco=civilizado=superior e preto=atrasado=inferior poderá esbater-se nas áreas em que as oportunidades de instrução, acesso à cultura e promoção social possibilitem o desenvolvimento equilibrado e a integração.

E nas outras, como será?

O que se passa actualmente em Portugal, é que grande número de pretos (cidadãos das ex colónias ou portugueses) têm graus de instrução muito baixos, trabalham em actividades mal remuneradas, vivem em ghettos, os seus filhos frequentam a escola com pouco sucesso. Muitos não imigrantes ilegais, pelo que estão ainda mais à mercê do empregador ou do agente.

A assimetria agudiza-se em vez de se atenuar.

Será que não há volta a dar-lhe?

Penso que há e que uma resposta possível é a instrução, mas que só funciona a longo prazo. Infelizmente a instrução é operada por um Mega-ministério, uma máquina quase ingovernável, donde têm saído sucessivas reformas tão inúteis quanto rebuscadas. Daí não devemos esperar soluções.

No entanto, a escola que existe serve, como serviria qualquer outra, uma melhor, outra menos boa, outra pior. O fundamental, o que permitiria quebrar o circulo vicioso da exclusão, é que os estudantes pobres (pretos ou não) compreendessem que

o sucesso escolar é condição indispensável[2] para melhorar de vida.

O estudo é quase a única actividade em que se podem obter resultados razoáveis sem ser rico, sem ter um padrinho, sem pertencer a um grupo influente, sem ter um dom. Não conheço outra actividade em que o filho do milionário e filho do serralheiro se sentam em mesas lado a lado com uma prova igual para cada um resolver, e a nota atribuída tem que ver apenas (normalmente) com o que cada um escreveu.

É claro que o rico pode ir para uma escola melhor, e, terminados os estudos, ter à sua espera um emprego à medida da sua condição. Mas, depois de satisfeitas as cunhas e os boys, as restantes colocações serão distribuídas pelos mais brilhantes, pelos mais capazes. O ghetto vai ficando mais longe para os que quiseram aproveitar.

Como os hábitos de trabalho não abundam, e o culto do estudo não é bem visto pela malta, muita gente aposta precisamente no dom, nas belas artes, na música, no desporto.

Esta atitude é quase o mesmo que sentar-se à sombra da bananeira à espera de ganhar o totoloto ou a lotaria. O tempo passa, as oportunidades também, quando se percebe que se devia ter aproveitado a escola, já é tarde (ou muito complicado) para regressar…

No entanto, a escola está ao dispor de todos, e há até quem aproveite: não é por acaso que muitas vezes os melhores alunos (nos States, mas também em Portugal) são indianos, coreanos, chineses.

A raça não tem nada que ver com o assunto, trata-se apenas de trabalho, entreajuda, e convicção de que o sucesso escolar compensa. Uma certa cultura de emigrante leva esses grupos a desenvolverem em alto grau um verdadeiro culto pelo estudo. Os resultados falam por si.

Voltando atrás, quando os portugueses chegaram ao Congo, Mombaça e à Índia tratavam os chefes locais sem qualquer postura de superioridade. Negociavam e trocavam presentes, tentando obter as suas boas graças para conseguirem informações, guias (ou pilotos) salvo condutos para atravessarem os reinos.

(Na foto, um grupo de indígenas a caminho da civilização: se a montanha não vai a Maomé...)

Terá sido a dominação e o consequente fosso criado e progressivamente aprofundado entre colonizados e colonizadores que fez nascer e consolidar a ideia de que um era superior ao outro, na civilização e na religião.

Essa superioridade legitimou a dominação (íamos levar ao gentio a fé verdadeira e a civilização) mas tornou-se rapidamente em racismo, dada a diferente coloração da pele dos civilizadores e dos putativos civilizandos. Culminou na “brilhante” teoria do General Kaulza de que a inteligência se concentrava no hemisfério norte e aumentava com a latitude[3], ou seja, os brancos são mais inteligentes do que os pretos.

É habitual ouvirmos as tais pessoas bem formadas que referi afirmarem convictamente que os portugueses (e os restantes colonizadores) levaram a civilização aos povos colonizados que, não obstante terem servido os interesses dos europeus, receberam as sementes e os benefícios da civilização ocidental. Se não tivessem sido colonizados, estariam num estágio civilizacional (o que quer que isso seja) mais atrasado do que estão hoje.

É claro que não se pode demonstrar o que aconteceria hoje, se há dois ou três séculos a história tivesse inflectido por um caminho diferente. Podemos conjecturar, e pouco mais.

No entanto, podemos tentar perceber por que é que o Japão que nunca foi colonizado por europeus, nunca foi, portanto, civilizado por eles, emergiu do século XIX como uma potência industrial ao nível das potências europeias, muito acima da China e da Índia, que beneficiaram do contacto secular com a civilização ocidental. A meio do século XX o Japão iniciou uma guerra com o colosso americano que ameaçava a sua hegemonia como potência regional. Perdeu a guerra, mas vinte anos depois estava mais forte que nunca na ciência, nas tecnologias de ponta, na economia, na indústria, enquanto a Índia e a China lutavam por manter vivos (e cordatos) os seus milhões de esfomeados e liderar o terceiro mundo (que a mais não podiam aspirar).

Parece, pois, que a superioridade branca sobre as raças "inferiores" é um mito que engordou durante os séculos de colonialismo, em que quase tudo o que se fez pelos colonizados foi mantê-los cada vez mais ... inferiores.

Parece que vai sendo tempo de corrigir o mal que se fez, e um bom começo é reconhecer isso mesmo.

Disse.

. . . . .

NOTAS:

[1] Não é muito difícil: os Camones nunca pareceram considerar o hemisfério sul como terra de gente. Sempre preferiram e continuam a preferir ditaduras sanguinárias como a do Marechal Mobutu Sesse Seko Kuku N’Gbendo Vazza Banga (veja-o em Mobutu, King of Zaïre) a regimes de esquerda, mesmo que nada sanguinários, com governos legitimados por eleições e com relações com a maioria dos países ocidentais, e relações comerciais intensas com as grandes empresas americanas

[2] Não quero, naturalmente, menosprezar a herança de um tio no Brasil há muito esquecido e que morreu virgem, nem o empresário de sucesso que não sabe ler de carreirinha mas é um génio com os números, e muito menos um escroque de sucesso que chegou a capo da mafia. Falo de pessoas que querem fazer algo por si próprias sem ficarem à espera da Divina Providência nem da Santa Lotaria.

[3] Esta teoria foi desenvolvida pelo general ainda na meia idade; não estava senil e parecia acreditar no que dizia!!!

4 comentários:

  1. Muitas vezes ao analizarmos o comportamento dos políticos africanos corremos o risco de sub-valorizar as suas capacidades.
    Quando Marques Correia diz que os Camones preferem ditaduras sanguinárias...talvez devessemos olhar para esses políticos tipo Mobutu, com capacidades políticas, que conseguem pô ao seu serviço tanto camones como francius e até as próprias Nações Unidas, e não simples joguetes das potências.
    Penso que o Marques Correia, apesar dos anos passados em África, vê, assim como quase todos que andámos por lá, com olhos demasiado de "branco", para o que se passa naquelas terras.

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  2. Quando o autor deste lamentável livro andava com o "aprumo" que a foto mostra, os comandos e outra tropa de elite mantinham o que era possível do poder em Luanda, com honra, dignidade e aprumo,até chegar o dia da entrega (essa sem honra nem dignidade, mas decidida por outros, pelos políticos) aos novos senhores de Angola.
    É preciso muito atrevimento para colocar a sua fotografia por cima da do general Almendra, destacada e em grande.
    Como se a vaidade do triste escriba vermelho se quisesse impor à sóbria dignidade de um grande militar sob a protecção do qual, pelo que diz, passava noites de deboche e jogatina em Luanda, a ver as tracejantes e ouvir os rebentamentos.
    À distância, como sempre...

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  3. Mas não, barato Anónimo, mas não!
    O tenente que vê com aquela fardeta e aquela farta cabeleira (este seu criado), foi fotografado em Lisboa no ano da graça de 1976, quando se preparava para ir à Junta Médica (com os óculos emprestados por uma amiga, para a cerimónia)para passar à peluda.
    Podia ter ficado a curtir uma baixa por mais uns largos meses (como muito valente ficou), mas resolvi pedir a passagem à peluda, por minha iniciativa e retomar a vida, suspensa pela tropa.
    Recordo que enquanto o general Almendra (talvez, naquele tempo, tenente coronel graduado em brigadeiro)aguentava o barco em Luanda, outros guerreiros preparavam-se para invadir Angola de braço dado com a rapaziada da FNLA.
    Realmente, não vejo nenhum motivo para ter andado aos tiros em Luanda. E contra quem deveria ter andado, não me dirá?
    Gostei da referência ao deboche, mas, desgraçadamente, o deboche foi muito pouco...

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  4. Pelo que li fraquentou a AM e desistiu ou a isso foi obrigado? A fotografia do cebeludo que está ao alto é sua? Se é fez muito em desistir de ser militar. Zé da Fisga

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