segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 11 O Bairro Militar, a Tropa

O Bairro Militar em Nova Lisboa ficava junto ao Bairro de Santo António, a meio caminho entre este e a cidade alta, para onde se ia por uma rua ainda por asfaltar. O asfalto começava num largozito triangular (em forma de ferro de engomar, como se dizia dantes) onde se erigiu um monumento aos heróis de Mucaba[1].

O bairro militar não tinha qualquer comparação com o seu congénere de Sá da Bandeira, pois era muito maior, com os blocos de apartamentos para sargentos e oficiais do tipo dos existentes naquele, e ainda vivendas unifamiliares, de dois pisos com jardins à volta, dispostas de ambos os lados da avenida central e destinadas a oficiais superiores.

Para além disto, havia mais algumas construções antigas e de arquitectura sui generis, sem qualquer traço em comum com as anteriores.

O bairro era todo cercado por uma fiada cedros, e as entradas de viaturas faziam-se apenas por dois pontos. Essas entradas não eram controladas, mas podiam sê-lo caso as circunstâncias o justificassem. Havia um clube de Sargentos[2], com bailaricos de vez em quando, e um barzito para se beber uns copos ao fim da tarde.

Havia um ringue de patinagem, mais um campo para futebol de salão, andebol, e desportos ditos pobres. De resto, muito espaço e muitas árvores (nespereiras e cerejeiras em profusão) para o pessoal brincar.

Em Nova Lisboa havia muito mais tropa que em Sá da Bandeira, daí que o bairro militar fosse tão grande. Para além do Regimento de Infantaria, havia um Grupo de Artilharia de Campanha (unidade equivalente em efectivos a um batalhão de Infantaria) e uma Escola de Aplicação Militar que formava sargentos milicianos e onde mais tarde (1966) decorreria parte do primeiro COM[3] realizado em Angola.

Estando grande parte da população branca concentrada em Luanda, muitos dos formandos do CSM[4] eram oriundos da capital. Aos fins de semana, formavam-se autênticas caravanas de carros cheios de tropas a caminho de Luanda, na sexta feira à tarde, e de regresso a Nova Lisboa, no domingo pela noite dentro.

É claro que a viagem se fazia sem escolta, pois os perigos nessa estrada não eram de cariz militar. Mortes havia-as e não eram poucas, não devido a emboscadas, mas devido aos acidentes. A estrada era de asfaltagem recente, o trânsito era escasso, as rectas eram muitas e longas, de modo que o acelerador ia a fundo a maior parte do tempo. Bastava o sono apertar, um carro parar para lá de uma lomba, ou qualquer incidente do género, para se criar uma situação perigosa que por vezes redundava em tragédia.
Mas a malta era jovem, e o que interessava eram umas horas bem passadas em Luanda para esquecer as agruras da tropa.

Por essa altura (terei morado no Bairro Militar em 1962-63), com o aumento dos efectivos para fazer frente ao terrorismo, as Zonas Militares passaram a ser comandadas por Brigadeiros. O Bairro passou a albergar um novo inquilino, circunspecto no seu Volkswagen preto (nesses tempos havia alguma parcimónia na utilização de viaturas do Estado, e os Mercedes não eram para qualquer um...), dando nas vistas cheio de estrelas e passadores vermelhos.

Tratava-se do Brig Arnaldo Shultz , de passagem entre dois cargos mais relevantes. Antes fora Ministro do Interior, depois viria a ser Comandante em Chefe e Governador da Guiné (na foto, é o da esuqerda, de óculos escuros). Se aquele cargo no Governo não o preparou para comandar a guerra da Guiné, a pacífica passagem por Nova Lisboa muito menos o fez.

E assim, este Ministro de Salazar implantou na Guiné um dispositivo puramente defensivo, com a tropa macaca[5] acantonada nos quartéis donde partia em patrulhas pela zona que lhe estava destinada, sempre sob o fogo do PAIGC, cada vez mais agressivo e bem armado. Spínola inverteu o rumo dos acontecimentos, e aguentou mais cinco anos, de vitória em vitória até a situação se aproximar da derrota final.



Spínola, com as suas duas Torre e Espada[6], falhou as três principais apostas em que se traduziu a sua actuação na Guiné[7]:

A. Não conseguiu atingir o PAIGC nos santuários além fronteira, nem quebrar os apoios de que lá desfrutava (a operação Mar Verde não matou Cabral, não depôs Sekou Touré, e desencadeou um quase bloqueio da marinha soviética, ávida de protagonismo);

B. Não conseguiu convencer os guinéus da sua condição de Portugueses (esta, realmente, não lembrava ao menino Jesus!), atacados por bandidos vindos do exterior. Quando muito, conseguiu cumplicidades entre algumas etnias e uma pequena “vietnamização” da guerra que não foi muito além das unidades de comandos africanos. Muitos destes infelizes pagam agora no exílio, ou marginalizados na Guiné (os que não foram fusilados), o feio acto de se terem juntado ao colono, pegando em armas contra os seus conterrâneos (para não dizer irmãos...).

C. Quanto às operações levadas a cabo pela tropa de intervenção, teve bastantes sucessos, mas nenhum decisivo per se, nem decisivos no seu conjunto. A tropa de intervenção por si só não ganha nenhuma guerra. Pode fazer um brilharete, com uma elevada contagem de corpos, mas quando se retira fica o vazio, ou quando muito ficam as unidades de quadrícula, em geral sujeitas a bombardeamentos quase constantes durante meses, acabando, muitas vezes, por se remeter a uma posição totalmente defensiva.


Quando a tropa de elite regressava aos seus quartéis, finda a operação, o PAIGC voltava calmamente a ocupar o terreno, a flagelar as posições de quadrícula, a aproximar-se um pouco mais da vitória.

Esta aposta na tropa de intervenção levou Spínola a cometer um grave erro estratégico. Retirou unidades de quadrícula de uma vasta área desabitada (não havia populações para defender...) deixando-a ao PAIGC que a usou como zona libertada para mostrar ao Mundo e para lá declarar a independência. Este erro de Spínola permitiu ao PAIGC deixar de ser apenas um partido em luta contra a potência colonial para passar a constituir um governo legítimo (reconhecido por quase 100 países) de um Estado independente, com parte do seu território ocupado por uma potência estrangeira. Se quisermos uma data para a derrota portuguesa na Guiné, não arranjaremos melhor que a data da proclamação da independência em Madina do Boé.


Voltando a Nova Lisboa, resta dizer que esta cidade viria a ser quase totalmente destruída após a independência, tendo estado sucessivamente na posse dos Sul Africanos, FNLA, UNITA, MPLA (cercada pela UNITA durante vários anos sem electricidade e com pouca água). Acabou por ser evacuada pelo MPLA, e ocupada pela UNITA, para ser recuperada pelo MPLA, anos depois.

Durante os períodos de domínio da UNITA, os poucos brancos que restavam (portugueses e angolanos) foram desaparecendo (saíam da cidade, se o conseguiam, ante a iminência da entrada da UNITA) buscando em Luanda ou em Portugal ares mais saudáveis (e autoridades menos arbitrárias...) para viver.

A acção da Unita nas zonas que ocupou pautou-se pela destruição sistemática de tudo o que não é usável no quimbo, desde grupos geradores de barragens, a postes de alta tensão passando por escolas, pontes, Instituto de Investigação[8]. Sobre este assunto, o Anexo 7, se bem que essencialmente opinativo, traz mais algumas achegas.

. . . . . .

NOTAS:

[1] Mucaba era uma terreola mínima, no norte de Angola, que ficou como um dos símbolos da resistência portuguesa ante as hordas da UPA. A população refugiou-se na igreja e esteve sitiada vários dias, quase sem munições nem víveres até à chegada de uma coluna militar. Veja mais sobre o que se passou em 1961.

[2] Os oficiais tinham um clube na cidade alta, a que tinham acesso, para além dos ditos, as forças vivas da cidade. Era, por assim dizer, um clube entre o in e o finaço.

[3] Curso de Oficiais Milicianos.

[4] Curso de Sargentos Milicianos. Eram cabos milicianos durante a instrução e Furriéis após o CSM, durante o tempo de serviço militar até passarem à peluda.


[5] Designação da gíria militar para a tropa de quadrícula, aquela que tem à sua responsabilidade um certa área (o território é, para o efeito, dividido numa quadrícula) onde tem o seu aquartelamento, cabendo-lhe manter os itinerários desimpedidos e seguros, as populações livres de influências subversivas e o território limpo de acampamentos inimigos. Em contraposição tínhamos a tropa de intervenção (comandos, páraquedistas, fuzileiros, caçadores especiais, rangers etc), sediada normalmente em cidades. Saía, de tempos a tempos, para operações com objectivos bem definidos, normalmente com bom apoio logístico e de fogo (aéreo, naval ou outro, conforme os casos). Feita a operação, regressava a penates. As suas operações eram muito mais eficazes que as da tropa macaca, as suas baixas maiores, as suas medalhas muito mais numerosas, e a sua “cagança” desmesurada. Basta ver e ouvir a rapaziada barriguda, de boina, crachá e medalha que se reúne no 10 de Junho junto ao monumento aos combatentes da guerra de África, para perceber que ainda se sentem, de facto, os maiores!

[6] trata-se da mais valiosa das antigas ordens militares, a ordem da Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito. Foi outorgado a Spinola o grau de Grande Oficial, durante a sua missão na Guiné, e muito mais tarde, em 1987, (sem que outros feitos relevantes tenham sido cometidos) foi-lhe outorgada nova Torre e Espada, desta vez a Grã Cruz (acima da qual só há o Grande Colar, em geral só atríbuído a Chefes de Estado). Esta segunda condecoração terá tido um sabor semelhante ao Óscar de “life time achievement”...

[7] No Anexo 5 insere-se um texto com mais uns elementos sobre este tema.

[8] Refiro-me a um Instituto de Investigação situado próximo de Nova Lisboa que foi totalmente destruído pela UNITA, não se percebendo bem qual o valor deste objectivo militar (?!). A sanha deste bando mereceu-lhe, com toda a justiça, a alcunha de javalis, que, ao que dizem os entendidos, para comerem um grão destroem toda a plantação...

16 comentários:

  1. Vivi no Bairro de Santo António e no Bairro Militar.Era filho do 1ºSargento Pires, que foi o Primeiro Presidente do Clube de Sargentos.Estudei no Liceu de Nova Lisboa (Marreta). Depois fui Furruel Monitor(instrutor)dos Cursos de CSM e COM nos anos de 70-71-72.
    Eu sou o Furriel Pires Vaz.
    Contactem-me: mariopiresvaz@hotmail.com

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  2. E eu sou o irmão mais velho do Mário Pires Vaz, meu nome é António Pires.

    Pertenci à incorporação de 61 e fiz o CSM na escola de aplicação militar, anterioremente conhecida como escola de quadros militares, de onde saí como Cabo Miliciano. Terminado o curso, integrei o regimento de infantaria de Nova Lisboa (RINL).
    Em 63 fui requisitado para a Força Aéria na BA9 em Luanda como Furriel.
    De 64 a 65, regressado à RINL, fiz parte da 7ª companhia que foi colocada em Nova Caipemba a 60km de Carmona, ladeada pelas serras da Cananga, Pingano, Huíge e Inga. Rodeada por vale do Loge, Toto e Zalala.
    De 66 a 68, fui para a companhia de comando e serviços (CCS/QG) em Luanda, altura em que saí das forças armadas como 2º Sargento.

    Espero encontrar camaradas da altura e partilhar histórias e memórias.
    Contactem-me para antonio.pires40@netcabo.pt

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  3. ...Se estivesse num albergue espanhol,deixaria o meu cao a porta, porque na Espanha "el perro se queda fuera de la pension" mas como estou na Suissa,que gere democraticamente de forma impar no esquema politico ,militar e social ,onde politico compra carro se quer passear, (sic)venho apenas de dizer que estive varias vezes Em Nova Lisboa. Lembro-me da estatua de um celebre Norton de Matos, do hotel Kurica,de um padre Almeida que corria comigo por andar a namoriscar uma bonita Setela,enfermeira,que habitava no bairro de benfica,e o padre tinha razao eu era "infrequentavel... uma namoraducha em cada lugar, ate em Sa da Bandeira na escola Agricola andei a semear amores...do Luso,a Luanda,passando por Benguela,e divertindo-me na festa do mar de Moçamedes,Acabava por aterrar ou atracar em Luanda,deliciando-me na bela ilha do Mussolo.Terminei em Cabinda a minha estadia de alguns anos naquelas terras de sonho,guerra,amor ,saudosa e, de uma maravilhosa gente que a guerra modificou.
    Um dia irei visita-la...
    gtitom@bluewin.ch

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  4. Estive na EAMA no ano de 1973...frequentei o 1ºturno de /73 como recruta do CSM...e dei recruta e especialidade ao 2ºturno ... fui sapador de infantaria.

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  5. MEU nome Virgiílio Duarte Bastos

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  6. Acentei praça no R.I.21 de Nova Lisboa (Huambo)em ANGOLA,corria o ano de 1965 mais precisamente no dia 13 de Fevereiro.Terminada a recruta,fiz um curso de dactilografia e fui colocado em LUANDA no GRAFANIL na secretaria da
    C.D.M.M./A.S.M.A. Vi de tudo até como eram tratados os nossos combatentes.hoje esquecidos e abandonados por quem devia de olhar para eles com orgulho.Foram e serão sempre os HEROIS de PORTUGAL. aafred.sintra@hotmail.com

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  7. Sou Vasco Martins Ferreira Ribeiro, soldado 241 de 1962 acentei praça em Nova Lisboa na escola de aplicação militar, estive no Ril, pedra do feitiço, Benza, Sumba, Comando Militar do Grafanil, BC3 Carmona, Sanzapombo, Huamba, e disponibilidade no Ril.
    Desejo encontrar camaradas como, Sousa, Braga, Marmita, Ribeiro, Albertino Lopes, o 1049, o Gameiro, Capitão Cid Torre, Tenente Lopes comandante do meu pelotão na escola 1962.Um abraço para todos vós.Telefone: 239478016.

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  8. António Mendes do Carmo15 de fevereiro de 2012 às 22:51

    Estive em Nova Lisboa durante o ano de 1968, na Manutenção Militar, era Furriel Milº de Intendência. Conheci muito boa gente naquela linda cidade, uns militares e outros civis, que gostaria de voltar a ver. António Mendes do Carmo, sou de Castelo Branco e vivo em Cascais. amcarmo@sapo.pt

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    1. "Furriel " Carmo de 1968 a 19..., diga por favor, talvez o conheça "cabo" Basto -Messe de oficiais,
      do tempo do Furriel Curdia. sou de Cabeceiras de Basto e vivo no Porto. e-mail ia_basto@hotmail.com

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  9. Ola Sou O Pinto Magro De Valongo Estive Em Angola de 66 a 68 No inga e no toto Na Comp c 1493 Bat c 1875 Procuro velhos colegas que Nunca Mais Os Vi Nem Temos Contacto Deles Por exemplo Furriel Pessoa Da Figueira Da Foz foi Ivaquado aos 4 meses por acidete Furriel pereira Imigrante furriel Lobao lisboa Cabo crus Ficou la Doente soldado Ribeira (flor na Cara= )Para Estes E restantes que nunca apareceram ao almoço de convivio aqui vai o nosso contacto 224114089

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  10. Nova Lisboa a MÁRTIR da guerra...
    Réjo Marpa.

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  11. EU fiz o CSM de Artilharia na EAMNL com o Alferes Pimentel e o Capitão Guilherme de Sousa Belchior Vieira (falecido em Outubro de 2013 com a patente de General). Depois do Curso, transitei para o GACNL e dai fui com uma Bateria de Artilharia para Vila Teixeira de Sousa.
    José Barros
    Furriel Miliciano

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  12. Boa tarde!
    Aceitei praça no Ri21 em 31de janeiro de 1971, ou melhor dia 1 de fevereiro,visto o atraso devido a várias avarias no moximbombo durarante a viagem a partir de Luanda.
    Fiz lá a recruta e depois fui colocado no regimento de engenharia em Luanda.

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  13. Boa tarde!
    Aceitei praça no Ri21 em 31de janeiro de 1971, ou melhor dia 1 de fevereiro,visto o atraso devido a várias avarias no moximbombo durarante a viagem a partir de Luanda.
    Fiz lá a recruta e depois fui colocado no regimento de engenharia em Luanda.

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