sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 6 O Liceu Diogo Cão




Entretanto terminei a primária e entrei para o Liceu, que em Sá da Bandeira tinha o nome de Diogo Cão. Era um Liceu cheio de tradições, (que se mantêm na memória dos membros do reino) grande parte das quais transplantadas do puto[1]. Os estudantes mais adiantados usavam capa e batina, com as fitinhas de cores variadas, e os caloiros eram sujeitos a praxes, em que a careca, funcionando como selo de identificação, era obrigatória.

Faziam-se cortejos com carroças, com os caloiros mascarados, ou pelo menos vestindo trajes caricatos imaginados pelos alunos mais velhos, com direito de praxe, que também integravam o cortejo. Depois havia festarola rija, com copos e bailarico.

O Liceu era, como a cidade, um Liceu bem à portuguesa, que um número muito limitado de pretos não chegava a descaracterizar. Na minha turma não havia nenhum preto. Creio que havia dois mulatos e um indiano. Os indianos gozavam de um estatuto semelhante aos brancos. Tinha um professor indiano (tinha a alcunha de “caneco”, por motivos óbvios), dava Ciências (geográfico-naturais), e foi em sete anos de estudos em Angola, compreendendo uma escola primária e três Liceus, o único professor que tive que não era branco.

Não quero com isto dizer que não houvesse professores pretos ou mulatos, mas quero sugerir, muito claramente, que 400 anos após a chegada dos portugueses, as escolas e Liceus por onde andei eram frequentadas na esmagadora maioria por brancos e neles leccionavam, também na sua esmagadora maioria, professores brancos. A generalidade da população estava como há quatrocentos anos ... ou pior.

Ah! não posso deixar de o referir: havia o dr José Pinheiro da Silva, um mulato que era secretário provincial da Educação por volta de 1964, que o regime fazia questão de exibir em cerimónias públicas, conferindo-lhe uma visibilidade considerável (na foto ao lado, em funções). Só que essa circunstância estava muito, muito longe de ser a regra.

O Dr Pinheiro da Silva “voltou para Portugal” após o 25 de Abril e por cá se reformou. Continua vivo e escorreito, e apareceu há pouco tempo (1999) na televisão, a dizer que a exploração colonial e o racismo são histórias da carochinha (benza-o Deus!).

Uma das actividades em voga naqueles tempos dizia respeito à participação dos estudantes na Mocidade Portuguesa (vulgo “bufa”). Essa participação era obrigatória, ou, pelo menos, era-o na prática. Tal como sucedia com as aulas de Religião & Moral, pouquíssimos eram os pais que se davam ao incómodo de declarar não pretender ter os seus rebentos na bufa.

(Na foto ao lado, o autor à esquerda e o Fernandinho, com as manas trocadas, fardados da bufa, no jardim da Câmara Municipal, o Volvo da tropa ao fundo).

Assim, em determinados dias da semana, o Liceu transformava-se num enorme quartel com o pessoal todo fardado de camisa verde, uns de calça comprida, mais escura ou mais clara, outros de calção, uns com bivaques alongados outros mais a dar p’ró redondo, uns de sapato, outros de bota, enfim, uma tropa fandanga. Num ponto o uniforme era mesmo igual para todos: os cintos de cabedal claro, com a fivela ostentando o S de Saber Servir Salazar.

Já não se fazia a saudação romana[2], tão em voga antes da guerra (fazia-se continência tipo tropa). Já não se faziam as interpelações empolgadas à plateia, respondidas em uníssono vibrante, como se fazia, nos tempos da minha mãe, menina e moça: “- Quem vive?”, “- Portugal, Portugal, Portugal!”; “- Quem manda?”, “- Salazar, Salazar, Salazar!!!”[3].

Tentava-se, contudo, manter viva uma organização, que nunca foi popular entre a juventude, em que os valores da dedicação ao Chefe (e, depois dele, aos outros chefinhos) e à Pátria se misturavam com a exaltação dos heróis e mártires (mais ou menos militarizados, quando não genuinamente militares), da disciplina e da vida ao ar livre. (Recorde o Lá Vamos Cantando e Rindo)

A vida ao ar livre, com acampamentos, banhos de rio, serões à fogueira, fora do redil paterno, era o grande atractivo que a bufa constituía para a malta. Para os mais velhos, incorporados na Milícia, havia uma atracção extra: a instrução com armas de fogo, com uns tirinhos na carreira de tiro, de tempos a tempos.

De resto, as formaturas, ordem unida e desfiles eram uma chatice a que nos baldávamos na medida do possível. É claro que havia quem gostasse. Ainda me lembro do ar embevecido com que um Comandante de Bandeira (alto posto, acima do qual só havia mais um degrau) olhava um desfile de centenas de putos fardados e comentava para um colega de igual patente “Isto é em grande, pá, é quase uma Falange!!!”.

E quanto à bufa, resta-me dizer que cheguei a Chefe de Quina (chefe de esquina, na terminologia da malta), mas a minha vocação não me impulsionou para mais altos vôos. Assim, reformei-me nesta modesta patente.

. . . . . .
NOTAS:

[1] o puto era a versão abreviada e simplificada de Portugal. Também se usava o termo portuga, que designava não o país, mas o habitante, português. De portuga, derivou o termo tuga, muito usado, anos mais tarde, na literatura panfletária dos movimentos de guerrilha.

[2] Ok, ok, a saudação fascista. (Oiçam o Musso)

[3] Como seria de esperar, a seriedade (?) deste cerimonial era abandalhado pela malta que transformava o diálogo em: “Quem vive?”, “Muito mal, muito mal, muito mal”; “Quem manda?”, “O azar, o azar, o azar”.

5 comentários:

  1. de todos os meus professores (curioso!) e lembro-me de todos (imagine-se!)só um era não branco: o meu saudoso Dr Ferronha professor de História (ainda há pouco falei nele) indiano ( e olha que se me levaou a dúvida: era ele ou era um outro? memórias...mas pretos ou de outras raças, não os tive em todo o liceu

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  2. Por muito que os meus "amigos" do Site do Salvador Correia digam que não, os liceus e escolas de Angola (nas cidades, no mato, não sei) eram escolas de brancos, para brancos. Os pretos eram uma excepção.
    Recebi hoje notícias do teu prof Candeias, vou-te reencaminhar o mail (do Septuagenário).

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  3. caro amigoooooooooo de há muito na busca de vestigios da sua pessoa. Vai daqui um abraço antecipado....vejo que recorda o fernando, mas de mim... pudera há muito que nao sei de si. alentejanos de Elvas por LISBOA , nao esquecem coboiadas, unimogues de madeira, barracas de zinco....adivinhe e se nao der comigo na sua lembrança envie o seu email. para - vainga2@hotmail.com.br.

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  4. Caro, tenho estado preocupado com o albergue espanhol pois parece que não entra tudo. Será que a alusão à sua farda da mocidade portuguesa o irrita? Como lhe disse nunca fui da dita e por isso nunca tive de cantar o hino "Angola é nossa".Não faça já juízo de valor atirando-me para a direita racista pois não sou. Conto-lhe uma história tinha um primo direito do meu pai que era piloto da força aérea (FAP), um dia mandaram-no despejar umas bombas numa sanzala de "negros", pegou nas bombas e mandou-as para um campo e levou o avião para o Congo e foi viver para Itália, regressando depois do 25 de Abril. Quando se apercebeu que aquilo tudo que faziam era injusto, com a sua coragem na escrita, na altura devia ter desertado, como português ajudava os angolanos a liberta-se do colonialismo e se calhar com isso faria com que Portugal se torna-se uma democracia mais cedo. Quem sabe de historias de espancamentos a negros de empregados que eram escravizados pelos patrões é porque estava próximo deles, de que lado?

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  5. Pela primeira vez vou discordar...
    Plenamente de acordo com o colonialismo, já não tanto com o racismo...
    Talvez por ser branco de segunda, tal como os meus pais? Talvez por meus avós paternos serem da madeira e açores? Talvez por avós Maternos serem simples pescadores da Póvoa? Ou talvez por ter sido jogador de futebol? fico pelo TALVEZ... Réjo Marpa

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