segunda-feira, 12 de maio de 2014

18 ANOS DE COLABORAÇÃO COM A APOIAR



Depois de 18 anos de colaboração com a Apoiar, na mesa da Assembleia Geral, Conselho Fiscal e direção do jornal, regressei à minha condição de simplesmente associado.

Não tenho nada contra a nova Direção, que tomou posse em Abril, mas a verdade é que só conheço o Presidente, o Jorge Gouveia, não tive qualquer envolvimento com esta lista (nem com outra, que não houve) e já vinha perdendo o contacto com a Apoiar desde há uns tempos largos. 

Vou ter pena de deixar de escrever os editoriais, alguns dos quais me deram bastante prazer. Como o último, que aqui vos deixo:


"VIVA O 25 DE ABRIL!!! VIVA A RESTAURAÇÃO DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA!!! VIVA A LIBERDADE!!! 

Quando este jornal chegar aos leitores, o 25 de Abril estará muito próximo e as comemorações dos 40 anos da “Revolução” estarão, certamente, perto do auge. Os capitães de Abril mais mediáticos já terão, presumivelmente, decidido se voltam a boicotar as comemorações oficiais, se vão estar na AR desde que permitam que o “capitão” Lourenço discurse ou se estarão presentes mesmo que não lhes seja dada a palavra. O folclore do costume...
Muito se terá escrito sobre se o que se comemora é a reposição da democracia representativa, se se chora o falhanço da “Revolução”, tão promissora nos meses que se seguiram ao 25 de Abril ou se, de forma genérica, se lamenta que as “conquistas de Abril” não tenham sido aprofundadas e hoje as desigualdades se tenham agravado e o sol radioso dos amanhãs que cantam pareça um tanto distante ou, pelo menos, envolto em núvens.
Quarenta anos depois, toda a gente se habituou, como coisa natural, às liberdades, direitos e garantias que o novo regime trouxe. Aos deveres nem tanto, mas isso é outra conversa...
À parte a lenda, entretanto tecida laboriosamente, no 25 de Abril de 1974 foi deposto quase sem derramamento de sangue um regime que durou quase cinquenta anos, opressivo, retrógrado, com um nacionalismo de sacristia & subúrbio mas que sabia puxar da espada, do cassetete e da pistola quando se sentia ameaçado.
Em seu lugar ... bem em seu lugar não era pacífico o que se iria instalar uma vez que os militares pouca ou nenhuma preparação política traziam da guerra e da caserna (salvo um pequenino grupo) e na sociedade civil havia dois grupos inconciliáveis e opostos. Portanto, o que ia sair dali era tudo menos certo.
O grupo do PCP, coeso, bem organizado e implantado praticamente em todo o País, não tinha quaisquer dúvidas ou hesitações sobre o modelo de sociedade que queria (tipo URSS a falar português) e começou no próprio dia 25 a “mexer-se” para o conseguir, levando tudo à frente. Identificavam como “fascista” todos os que duvidassem da sua “fé” e açulavam-lhes os seus cães de fila que, muitas vezes, era a populaça arrebanhada, frustrada por anos e anos a refilar para dentro.
O outro grupo que, em boa verdade, não era um grupo mas uma constelação difusa de grupúsculos e de indivíduos (“personalidades”...), mais tarde agrupados em movimentos e partidos, para quem o modelo a seguir era qualquer coisa entre uma democracia cristã (então ainda na moda) e uma social democracia ou socialismo de cariz democrático, despido, pois, das suas características mais polémicas (a luta de classes, a reforma agrária e outras formas de esbulho das liberdades e da propriedade privada).
Como não podia deixar de ser o grupo do PCP levou vantagem de início e conseguiu minar as estruturas do nascente, incipiente e ingénuo MFA a ponto que conseguir expulsar, prender ou afugentar os odiados capitalistas, nacionalizar meio País, ocupar e nacionalizar (ou coletivizar) grandes herdades, umas mais abandonadas que outras, outras claramente não abandonadas pelos proprietários. Como cereja no topo do bolo, conseguiu, mau grado os seus 17% de votos (contando os do PCP, do MDP/CDE e da UDP) impor uma constituição enviezada e fortemente ideológica que deu cobertura a todo esse forrobodó e pintou de vermelho a economia (e não só...) até, praticamente, aos nossos dias.
Valeu-nos quem? Valeu-nos o grupo central dos que fizeram o 25 de Abril, os mais moderados, que não se deixaram levar pelo canto das sereias vermelhas que anunciavam os amanhãs que cantam (como se deixaram levar o impagável Otelo e o “companheiro” Vasco; o tipo da 5ª divisão era ele próprio uma sereia vermelha cantante...) e reagiram em torno de um grupo, o “grupo dos 9”, e a sociedade civil, onde Mário Soares desempenhou o seu papel mais meritório, que se foi lentamente organizando e repudiando o PCP e os militares ditos “revolucionários”.
E assim, com uma transição tutelada pelo Conselho da Revolução, o País emergiu quase incólume do período revolucionário (o famigerado PREC) para fazer as reprivatizações, a limpeza da Constituição, entrar para a então CEE e começar, finalmente, a proporcionar aos seus habitantes mais que palavras & ideologia: bens de consumo, bem estar, um futuro mais ou menos seguro.
Tudo isto a duras penas, com as organizações de esquerda (detentoras, como é sabido, de toda a verdade, da razão, da solidariedade e da compaixão!) a disputarem ao centímetro qualquer alteração na Constituição e nas leis, alterações sempre tidas como retrocessos civilizacionais intoleráveis e medidas cavilosas no sentido de tirar aos pobres para dar aos ricos.
Posto isto, por que raio não nos deixamos de valorizar estas comemorações magnas como se a liberdade não estivesse mais que consolidada, a democracia representativa mais que assumida por quem está hoje nos seus 40’s e nunca conheceu o tal “fascismo” de que lhe falam os pais, com o habitual exagero que traz o acumular de anos sobre as coisas velhas?
Miguel Sousa Tavares dizia a respeito do 25 de Abril, numa das suas crónicas dominicais no Expresso, que não é dos ideais de Abril que Portugal tem falta, que “esses estão cumpridos e não há nada mais triste do que ficar a celebrar eternamente apenas um dia na vida de uma nação” como se os outros não tivessem nada que celebrar.
Realmente, o 1º de Dezembro – a restauração da independência – parece ser, de longe mais importante que o 25 de Abril. Só que o 25 de Abril ainda tem vivos e atuantes os seus principais artífices que alimentam o culto de si próprios com persistência e indignam-se com veemência e estrondo ao menor sinal de declínio do culto aos “heróicos capitães de Abril” – eles mesmos.
Quando, afinal, a sua maior glória é, precisamente, as gerações jovens nem sequer imaginarem um Portugal sem democracia e sem liberdade.
Essa, sim! Essa é a GRANDE CONQUISTA DE ABRIL"




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