quarta-feira, 31 de março de 2010

LEMBRAM-SE DO JOVIANO DA CONCEIÇÃO?

O título do post dirige-se mais à malta da 1ª CART que ficou no Piri e que podem ter estado em sobreposição com a unidade do Joviano.

No post abaixo, o Joviano deixou uma mensagem.

Na mesma altura mandou-me um e-mail em que me indica um link para uma apresentação que preparou e colocou no Youtube, sobre a sua estada em Angola, no Piri e no Fortim do Dange, por onde parte da malta do BART 6222/73 também andou, mais cedo que nós, com uns poucos meses de sobreposição: nós fomos em Novembro 73 (não sei em que dia) e o Batalhão regressou em Abril 75.

Digo o Batalhão, sem me incluir, porque eu e o Filipe Santos, furriel do meu pelotão, ficámos mais dois meses a tratar de questões do serviço de Justiça, a curtir na noite e nas praias de Luanda, sem unidade e, se bem me lembro, sem estarmos no Depósito de Adidos...

Para verem a apresentação do Joviano é só clicar aqui

segunda-feira, 29 de março de 2010

CONVÍVIO ANUAL 2010 - CCS DO BART 6222/73

CLIQUEM NAS IMAGENS PARA AMPLIAR E LER




No 1º fim de semana depois da Páscoa, no sábado, 10 de Abril, vai realizar-se no Forum de Vizela mais um convívio da malta da CCS do BART 6222/73.

Vai ser o 35º!


Se não foi contactado, se o seu nome não está na lista de endereços conhecidos da malta, esta é uma boa altura de se juntar ao grupo.


Telefone para o Bernardino Ferreira, 932420063 ou para o "Irmão", o Manuel Martins, 937244133 .


As coordenadas do parque de estacionamento em frente ao Forum são:


41º 22' 43,23" N


08º 18' 34,57" W


É só meter as coordenadas no GPS e não tem nada que enganar!


Desgraçadamente, este ano (também) não posso ir...

quinta-feira, 25 de março de 2010

O FALSO GUIA - NOVO CONTO DO MANUEL LOPES

O texto chegou sem duas fotos que nele eram referidas.

Se, entretanto, as fotos chegarem, insiro-as nessa altura. As imagens que acompanham o texto são minhas e destinam-se apenas a aligeirar o post, equilibrando as manchas de texto com alguma imagem. As referências às fotos são minhas e vão entre parênteses, em letra menor.


O Falso Guia, por Manuel Lopes

"A minha comissão militar na guerra colonial em Angola, foi cumprido um ano em Quibaxe Dembos, o resto da comissão foi cumprida em Catete, no meu quartel em Quibaxe havia um senhor negro com o nome Domingo, tinha pertencido aos quadros do M.P.L.A.

Num combate, este senhor foi capturado e feito prisioneiro de guerra, com esperteza e sabedoria convenceu os nossos oficiais a libertarem-no, passou a ser o senhor Domingo e a ter mais liberdade no nosso quartel coisa que nós tropa portugueses não tínhamos, sempre se mostrou muito interessado em colaborar com a tropa portuguesa contra os guerrilheiros dos partidos de libertação de Angola, com informações de tudo o que sabia, ofereceu-se ao nosso comandante para ser guia das nossas tropas em todas as saídas que faziam à mata.

Nas operações que fazíamos às matas, o guia arranjava sempre desculpas, pedia ao alferes para ir fazer reconhecimento dos trilhos, aconteceu muitas vezes sairmos dos trilhos certos seguirmos por trilhos errados e entramos nos territórios do inimigo, ou andarmos horas e horas perdidos sem saber o que fazer.

Numa operação quando o guia pediu para avançar para fazer reconhecimento dos trilhos, eu pedi ao alferes Sousa (na foto ao lado; o mais alto é o alferes Glória, já falecido) para me deixar ir com o guia, expliquei-lhe a minha intenção, o alferes chamou o guia e deu-lhe a notícia, ele não acatou as ordens, meteu-se a correr pelo capim fora, deixou-nos desamparados e perdidos, subimos e descemos serras, andamos por rios com água pelo pescoço, apanhamos chuvadas sem conta, andamos debaixo de calor abrasador, por capim alto que nos obrigou a separar-nos e a perdermo-nos uns dos outros, o nosso sofrimento era tanto que chegamos a desejar que os turras nos atacassem e nos matassem a todos, a certa altura ouvimos um tiro e a chamarem o guia era o alferes, foi assim que se juntamos todos e o guia também, assim que eu o vi chamei o alferes e pedi-lhe para quando chegasse ao quartel fizesse queixa dele ao comandante que ele era traidor, o guia começou com desculpas e a chamar-me de racista, eu só respondi que no local e na hora certa ia-mos ver quem era racista.

A nossa chegada ao local da partida estava marcada para o por do sol, quando chegamos já eram altas horas da noite, cheios de fome e sede e com os pés a sangrar, a sede era tanta, que ao passar por um charco feito pelos animais, todos nós com tal sofreguidão deitamo-nos a beber a água, a molhar a roupa e o corpo sem repararmos que era mais urina do que água e toda a espécie de bicharada.

Ao começarmos a caminhada, apareceu um velho negro aos gritos a pedir ajuda, que os turras tinham-lhe destruído a tonga de milho para roubarem as espigas, nós não ligamos, era uma jogada do nosso guia com os turras para acabarem com o nosso grupo todo, porque naquele momento estávamos de rastos não tinhamos nenhumas condições para responder ao inimigo, era um doce para os turras, o guia ainda começou aos saltos a querer obrigar o alferes a fazer a perseguição, eu estava revoltado com tudo a que já tinha assistido e pedi ao alferes que mandasse o guia sozinho, que todos nós iríamos ver o resultado final porque nós não tinha-mos nada a ver com aquela jogada suja, mais uma vez, o senhor Domingo chamo-me turra e racista eu não respondi à provocação porque vi que este senhor já estava a entrar em desespero, só perguntei ao alferes se já tinha compreendido alguma coisa do que eu tinha dito a respeito aquele senhor, respondeu-me que nem queria acreditar mas que era tudo verdade quando chegasse ao quartel que contava tudo ao comandante, tudo isto fez, mas não valeu de nada, continuou a ser um senhor para o comandante.

Regressámos ao local de partida à Sanzala do Quipaulo, encontramos as viaturas para nos transportarem para o quartel, os nossos colegas das viaturas e da escolta já pensavam no pior que nos tinha acontecido, partimos de regresso ao quartel, gastamos algumas três horas para chegarmos todos em farrapos mas com o dever cumprido.

Eu andava sempre com tudo aquilo a mexer na minha cabeça, não sou e nunca fui racista, não gosto de ouvir falar em tal palavra, a falsidade não ligava com a minha maneira de ser, sério, honesto, educado, amigo do meu amigo, sacrificava-me para dar o meu melhor na minha especialidade de enfermeiro para bem de todos, sem olhar a cores defeitos feitios especialidades e graduações, por tudo isto sentia-me ofendido e revoltado quando via traições, mas sempre com a ideia que tinha que ser eu a fazer algo para descobrir e colocar as verdades à frente de quem mandava em nós e consegui, eu ao ver aquela figura no meu quartel, com o à vontade e mais liberdade do que toda a nossa malta, o que mais me deitava a baixo era vê-lo a rir ao passar por mim a provocar com a intenção de eu o agredir para fazer queixa para eu ser castigado e vingar-se de mim por eu o descobrir, mas nunca lhe fiz a vontade consegui saber esperar pela hora certa.

Falei e lidei sempre educadamente com o senhor Domingo como o fazia com todas as outras pessoas, a seguir a todos estes acontecimentos, a primeira vez que ele se dirigiu à enfermaria e eu a trabalhar como enfermeiro de dia a pedir-me que eu o atendesse, eu como o fazia com todos, prontifiquei-me, perguntei-lhe o que tinha e o que precisava, respondeu-me em provocação que não precisava dos brancos para nada e que era racista, só queria que eu lhe desse uma sacada de medicamentos para ir entregar ao grupo do M.P.L.A à mata e, que ia dar ordens para me matarem, eu não mostrei medo e mandei-o repetir o que ele acabara de dizer, ele repetiu e disse, que só queria ter tantas moedas de cinco tostões como cabeças de brancos já tinha cortado, eu não esperei que ele abrisse a boca para dizer outra palavra, a primeira coisa que encontrei foi uma garrafa de champanhe cheia de álcool dei-lhe com ela na cabeça que caiu logo no chão, ficou com o couro cabeludo separado ao meio pendurado metade para cada lado parecia as orelhas dum elefante, perguntei-lhe se sabia com quem estava a lidar e quem era racista se era eu ou ele, que saía dali com vida e com a cabeça cosida se fizesse a jura sagrada de joelhos e, se fosse embora e nos deixasse em paz sem sermos atacados pelos turras colegas dele, ele fez a jura sagrada de joelhos, (sangue de Cristo eu vai embora não volta mais e não chateia branco), eu rapei-lhe o cabelo e com a sebéla do calçado, com o cordel e o alicate cosi-lhe a couro cabeludo todo, desinfectei tudo com álcool e enrolei-lhe vários rolos de gaze na cabeça parecia um árabe, no fim pedi-lhe para se mirar ao espelho que estava muito lindo.

Quando se viu ao espelho até saltou de contente por ficar tão lindo com um gorro branco e vermelho, (manchado com tintura) mas disse-me logo que os amigos quando vissem também queriam, eu respondi se quisessem havia para todos, o senhor Domingo saiu da enfermaria com a promessa de não voltar, eu satisfeito por conseguir o que queria e ter o meu dever cumprido, mas passado uns cinco minutos ouvi gritos e ralhos fui ver, era o senhor Domingo tão vaidoso que ficou com o seu gorro, foi ter com o Viana cozinheiro mostrar-lhe o gorro e exigir-lhe comida da boa, porque ia de viajem para Luanda e quem mandava ali era ele, o cozinheiro já sabia tudo, eu já lhe tinha contado, andava-mos todos ao desafio para ver quem era o primeiro a tratar-lhe da saúde, deu-lhe comida da boa com a pá de madeira do caldeirão da sopa pela cabeça a baixo, lá se foi o gorro, braços, costas, foi por onde o apanhou, só sei dizer que vi o senhor Domingo a saltar o arame farpado a toque de comida de pá do caldeirão, até hoje não sei a onde para o senhor Domingo.

Só eu e o Viana é que sabiamos o final da história do senhor Domingo, todos perguntavam por ele, mas ninguém sabia responder e quem sabia andava calado."

sábado, 20 de março de 2010

MAIS MALTA DE QUIBAXE 2



Aqui vos deixo mais duas fotos de malta de Quibaxe. Na foto de cima, não me lembro dos noves de dois dos camaradas (um parece-me que é o Asa Negra, mas não tenho a certeza).

Na foto ao lado, é malta do pelotão de sapadores, de pé: o Ferreira, à esquerda e o Sampaio, à direita, não me lembro dos nomes dos dois do meio. O de bigode creio que é o Zé Silvério de Odemira.

Na fila da frente, creio que são condutores, mas não me lembro dos nomes.

Isto é que é uma porra de memória, hã!

"O MEU 25 DE ABRIL" - PELO MANUEL LOPES

Recebi do Manuel Lopes (foto ao lado, daqueles tempos) dois contos que aqui vou publicar, a começar por este, com o título "O meu 25 de Abril".


"Dia de festa dia dos cravos em Portugal, dia de guerra nas matas dos Dembos em Angola. Foi um dos dias mais perigosos e terríveis da minha comissão militar.

Saímos às 4 da madrugada para a mata, já nascia o dia, coisa linda, só vendo, não há explicação, o que fazíamos todos os dias, para fazermos reconhecimento e protecção à população branca e negra nas roças e sanzalas.
Só o alferes e o furriel sabiam o destino, ao passarmos à ponte do rio Tanda que era feita de troncos de árvores, o rio era estreito mas com muita profundidade e rochoso, ao passarmos a ponte, primeiro passaram as viaturas, depois os soldados a pé. Reparámos que havia alguma coisa estranha por perto, os macacos e as aves andavam muito agitados, mas não ligámos.

Seguimos o nosso destino, em pouco tempo choveu e trovejou tanto que fez-se de noite, os relâmpagos pareciam serpentinas e arco-íris no céu, parou de chover, alguns quilómetros à frente encontramos o rio Tanda com um grande caudal e fortes correntes de água, como sempre, tivemos que esperar que baixasse para passarmos, um condutor tentou meter-se ao rio com o burrinho de mato com alguns curiosos, mas a corrente era forte abalroou-os contra as rochas, só o transmissões perdeu a antena do rádio, passamos horas à espera até que conseguimos passar o rio em segurança, eram nove horas da manhã chegamos aos cafezais que pertenciam à roça Maria Fernanda.
Começou outra vez a chover parecia um dilúvio, as picadas da roça transformaram-se em rios, o pó em barro escorregadio, a Berliet onde eu ia escorregou e tombou para um precipício, não tivemos tempo para saltar, todos nós pensámos que era o fim, o que nos salvou foi um tronco de árvore que amparou a viatura, esperamos que parasse de chover e que as picadas secassem, o que levou algumas horas.

Seguimos em segurança, chegamos ao portão da roça, encontrámos o senhorio que era um branco muito nosso amigo, nós até levávamos uma encomenda de grades de cerveja para ele, estava muito exaltado nervoso e agressivo, o que não era normal, a pedir para não entrarmos, todos nós imaginámos o que era, avançamos com as viaturas, rebentámos com os portões e partimos em grande velocidade, deixamos o homem a praguejar e a pensar mal da vida dele.

Alguns quilómetros à frente, encontrámos a habitação da roça, andavam todos agitados, os empregados negros mostravam-se cheios de medo o que nunca tinha acontecido, a esposa do senhorio colocou-se à frente das viaturas e mandou-nos sair da roça que não precisavam da nossa protecção, eu fui o porta - voz de todos os meus colegas, dirigi-me à senhora, pedi-lhe que se acalmasse que no dia anterior tinha sido tratada na enfermaria do quartel por mim, que não tinha esse direito porque tinham o hospital civil, eu tinha reparado mais para o ser humano do que para as leis, que se acalmasse se queria continuar a ter o mesmo tratamento, só gritava que não precisava da tropa para nada que saíssemos da roça para fora, eu com muita calma pedi que me desse água para mim e para os meus colegas, ela foi logo buscar um garrafão de cinco litros cheio de água mas exigiu-me vinte escudos, eu com sangue frio, tirei-lhe o garrafão das mãos matei a sede e dei aos meus irmãos tropas brancos e negros, não quis ouvir mais o que a senhora dizia, fui encher o garrafão as vezes que foram precisas, entreguei-lho vazio ela pediu-me o dinheiro, atirei-lhe com o garrafão para junto dos pés.

Os nossos superiores deixaram o aviso que a partir daquele momento acontecesse o que acontecesse não voltávamos a dar-lhe protecção e socorro. Ao passarmos o portão da roça ouvimos gritos de provocação e ameaças, eram os turras que iam no cimo do morro carregados com tudo o que precisavam, da alimentação às munições e medicamentos, tudo que nós tropa fornecíamos às roças, era tudo o que nós tínhamos imaginado.

Passado um mês, estavam o casal desta roça no quartel a pedir socorro e protecção, tinham sido atacados pelo grupo de turras, que se iam abastecer lá, mas como a tropa não tinha deixado material não levaram nada e atacaram, destruíram tudo, as ordens que havia era para eles pedirem protecção aos turras, foram postos fora do quartel.

A nossa marcha continuou com direcção ao Coche, ao atravessarmos uma clareira que ficava entre duas montanhas idênticas às das serras de Aire e Candeeiros, fomos surpreendidos por um grupo de terroristas do M.P.L.A, deram ordem ao nosso alferes, para se dirigir com alguns deles ao cimo da montanha, a onde se encontravam os superiores, o resto do grupo mandou-nos sair das viaturas, e colocarmo-nos sentados no chão sem armas, que tinham ordem para a primeira reacção nossa nos abaterem a todos, eram centenas de armas apontadas a nós, passadas algumas horas, apareceu o nosso alferes muito revoltado, com a notícia que tínhamos que deixar ali todo o material que era para ficar na roça Maria Fernanda, se não que ninguém saia dali com vida, ele deu ordem aos turras para levarem tudo e que nos deixassem irem embora em paz.

As horas que tivemos no terreiro à espera do alferes, fomos informados pelo chefe do grupo terrorista, que nos disse que nos andavam a perseguir desde que saímos do quartel, que tinham ordens de nos abaterem ao passarmos a ponte do rio Tanda, mas que não o fizeram porque no momento exacto receberam uma ordem contrária via rádio, que o enfermeiro que estava naquele grupo andava a tratar e muito bem o paludismo ao enfermeiro deles sem sabe, que lhe oferecia muitos medicamentos, que ele levava para o grupo para a mata, se continuasse assim que os grupos que ele acompanhasse nunca iriam ser atacados, naquele momento viemos a saber que agitação era aquela no cafezal junto à ponte.

Partimos dali sem medo, de regresso ao quartel, o dia já se despedia, de vez em quando caíam trombas de água, mas não metiam medo, ficávamos molhados mas logo ficávamos secos, ao chegarmos a uma sanzala a alguns quilómetros de Quibaxe, desabou um temporal que nunca tinha acontecido coisa igual, chuva, trovoada, relâmpagos, e vento forte que levava as telhas de zinco das sanzalas no ar, ouvia-mos a zunir, e nós escondidos atrás das viaturas para não sermos retalhados por elas, o que aconteciam a árvores de grande porte, as chapas eram levadas pelo vento para muito longe, quilómetros e quilómetros, fomos obrigados a esperar algumas horas.
Enquanto esperavamos, o Silva, um tropa e colega negro que era natural daquela sanzala, pediu aos superiores para ir a casa dos pais buscar um rádio, para irmos ouvindo musica enquanto esperávamos que a picada ficasse em condições de partir, deram-lhe ordem, já vínhamos a chegar à entrada de Quibaxe quando colocou o rádio em alta voz, no programa da rádio turra com sede em Brazzaville, para ouvirmos a notícia que tinha havido uma revolução no puto, no continente, a onde o locutor pedia cuidado, que tinha sido uma revolução orientada pelo assassino Spínola, nós não ligamos, porque notícias como aquelas, ou piores, eles transmitiam todos os dias só para nos aterrorizarem, chegamos ao quartel não se ouvia nada a respeito a revoluções, só passados três dias, o nosso comandante reuniu a companhia e transmitiu o acontecimento, a seguir ao dia vinte e cinco de Abril é que foi sofrer deixou de haver guerra na mata para haver guerrilha nas aldeias, vilas e cidades.

Foi assim que passei o meu dia vinte e cinco de Abril de 1974."

sábado, 6 de março de 2010

QUIBAXE - CARVALHO MONTEIRO

Clique sobre as fotos para as ampliar


Do Carvalho Monteiro recebi mais esta série de fotos do dia a dia dos tempos que passámos em Quibaxe.

No mail vêm alguns comentários sobre a identificação de malta que aparece nas fotos de um dos posts anteriores e que coloquei lá.

Diz ainda que o colega que foi evacuado para Luanda de avioneta e que morreu no caminho não foi o cabo enfermeiro que indiquei.

E tem toda a razão: o cabo enfermeiro era o Soares e foi na avioneta a acompanhar o ferido, o Gil, furriel vague mestre, num desastre de unimog na estrada do Piri para Quibaxe.

O Gil estava muito mal, o piloto da avioneta não o queria levar (a maca só amuito custo entrou, por cima dos assentos, eu e o Melo enfermeiro quase que tivemos que lhe dar uns safanões, para convencer o piloto...), mas lá acabou por ir, mas não aguentou e morreu antes de chegar ao hospital militar de Luanda.

Se alguém se lembrar de mais pormenores, apite.












terça-feira, 2 de março de 2010

MAIS DUAS DE MALTA DE QUIBAXE - BART 6222/73


Cliquem nas fotos para ampliar


Actualizando, aqui fica o mail do Monteiro com identificação de malta na foto acima:

"na foto em que está o Vitalino também estão o Setúbal, eu, o Lopes, o Jose Bernardino escriturário, o Pinto de Magalhães e não me lembro dos outros nomes mas parece-me que também está o carpinteiro que era de Baião, mas não tenho a certeza".

Do Zé Maria de Carvalho Monteiro recebi mais duas fotos, que aqui exibo.

No mail (que transcrevo a seguir) ele refere uma série de nomes que, creio, referem-se às duas últimas fotos (post abaixo):

"bom dia
sobre as fotos os nomes são os seguintes da direita:

fr. Melo, Azevedo, Chaves, eu, analista, Sousa electricista, Sousa cozinheiro, um condutor não me lembro o nome, fr. Relvas, fr. chapas ef. Branco, fr. Baía, alferes Goncalves mas também não tenho certeza do nome mas era de operações especiais; na outra estou eu, o maq. lopes, o maq. faustino e o enfermeiro
acho que o nome é Francisco.

Um forte abraço e estou ansioso por ter contacto com alguns desses amigalhaços"

Vou colocar os nomes no outro post a ver se faz sentido.

Nestas fotos, na de cima identifico o Vitalino, furriel do meu pelotão (sapadores). o Monteiro e mais algumas caras conhecidas, mas nada de nomes.

Na de baixo, identifico o Faustino e o Branco (ambos de bata, de pé), o Manuel Lopes, ao lado do Faustino, o Monteiro na viola e um cabo enfermeiro, o Soares.

Quem se lembrar dos nomes da malta nas fotos, desembuche!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

MAIS MALTA DE QUIBAXE 1

Clique nas imagens para as ampliar


Do José Maria Carvalho Monteiro recebi um mail com as duas fotos que aqui vos deixo.

Na foto de cima, segundo o Monteiro, estão, da direita para a esquerda:

O Melo, furriel enfermeiro, o Azevedo, o Chaves, o Monteiro, o Sousa electricista, o Sousa cozinheiro, um condutor de que não lembra o nome, o Relvas (furriel vague mestre), o furriel "Chapinhas da CCS" Horácio Pinto, o Branco enfermeiro, o furriel Baía, o alferes Sousa (corrijo eu). O segundo a contar da esquerda parece-me ser um furriel do PAD.

Na foto da direita está o Monteiro no cocoruto, o Faustino, reconheço mais malta da CCS, nomeadamente um enfermeiro, o Soares, à frente, esquerda, em uniforme nº 2 e o Manuel Lopes a fazer-lhe umas brincadeiras com os dedos...

Quem tiver achegas, que se chegue à frente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

MALTA DE QUIBAXE E DO BART 6222/73

Se esteve em Quibaxe, Piri, Bom Jesus, Calamboloca, Barraca, Catete e outros poisos do BART 6222/73, vá directamente para o Capítulo 14 - Quibaxe e veja se conhece algum dos comentadores que por lá aparecem.

Se quiser, meta o seu comentário e deixe os seus contactos.

.............................

Update: aqui ficam fotos enviadas pelo Teixeira, da 3ª CART do BART 6222/73

Ele não dá mais pormenores e, se bem que algumas caras me sejam familiares, não identifico ninguém.

E vocês?
















quinta-feira, 11 de junho de 2009

PARA FACILITAR A LEITURA DOS DOIS LIVROS

Caro leitor,

Com o texto sobre a Descolonização concluiu-se a publicação do livro OPINIÃO 95-96, que é, recordo, uma colectânea de textos sobre temas actuais daqueles tempos. Pode ser giro recordar as roubalheiras do Pedro Caldeira, a questão dos piratas do Canadá durante a guerra da palmeta, o famigerado Totonegócio, etc, etc, etc.

Leia, recorde e diga de sua justiça.

O blog permanece, pois, activo, permitindo a leitura on line do livro que lhe dá o nome, ANGOLA Recordações da Tropa, e de textos do OPINIÃO 95-96, mantendo sempre a possibilidade de comentar conforme lhe aprouver. Procurarei responder, se disso for o caso, aos comentários que surjam.

Para lhe facilitar a vida, levando-o directamente ao capítulo que pretende ler, basta clicar no dito cujo, nesta lista:

Abertura
Introdução
Cap 1 Vamos para a África
Cap 2 Sá da Bandeira
Cap 3 Um Colono Típico
Cap 4 A Escola 60
Cap 5 O Bairro Militar (Sá da Bandeira)
Cap 6 O Liceu Diogo Cão
Cap 7 A Tropa
Cap 8 O Início do Terrorismo
Cap 9 Nova Lisboa
Cap 10 O Liceu Nacional de Nova Lisboa
Cap 11 O Bairro Militar (Nova Lisboa)
Cap 12 O Regresso
Cap 13 Luanda
Cap 14 Quibaxe
Cap 15 O Pós 25 de Abril
Cap 16 A Honra dos Vencidos
Entrecapítulos
Cap 17 Catete
Cap 18 Epílogo


Anexos:
Anexo 1
Anexo 2, Os Comandos
Anexo 3, Palavras para quâ? é o Estado Português...
Anexo 4, O Stress de Guerra e os equívocos
Anexo 5, O Prof Herlander...
Anexo 6, O Último Marechal
Anexo 7, Tomar partido
Anexo 8, As Pensões dos Prisioneiros de Guerra

Fim

terça-feira, 9 de junho de 2009

OPINIÃO 95-96 - A Descolonização

Este artigo encerra a publicação de excertos do livreco OPINIÃO 95-96. Nem de propósito, o tema á a descolonização, tema transversal a todo o blog, ainda hoje mal (pouco) discutido e gerando, quase sempre, conversas exaltadas, participadas mais com as tripas que com o cérebro, mais emoção que reflexão...


Sr Director (Independente):

Assisti no passado mês de Dezembro ao Parabéns, não por ser espectador habitual, mas porque me apercebi de que o aniversariante convidado era o Dr Paulo Portas, o que bastou para me plantar em frente da televisão e assistir à parte em que participou.

A dada altura, referindo-se ao Dr Soares, declarou que não lhe perdoava o modo como a descolonização foi feita. Esta sua posição não é nova para mim. É bastante comum entre pessoas que consideram que a descolonização foi mal feita, foi abandono puro e simples, não acautelou os interesses dos portugueses residentes (ou nascidos) nos territórios ultramarinos, nem ligou grande coisa ao futuro das populações dessas terras.

Eu situo-me entre os que consideram tudo isso, isto é: nada tendo sido feito antes do 25 de Abril para assegurar a autodeterminação dos territórios ultramarinos, nada foi sèriamente tentado após essa data.

Começo, contudo, a divergir dos críticos da descolonização que tivemos quando deparo com posições no género de:

1. Portugal deveria ter assegurado um período de transição mais dilatado (já me falaram, com ar entendido, em cinco e até dez anos!);

2. Nenhuma colónia deveria ter ascendido à independência sem que se tivessem realizado eleições organizadas e fiscalizadas sob a tutela da ONU e da OUA, em que as populações escolhessem entre ser independentes e continuar ligadas a Portugal;

3. O MFA, os Governos Provisórios (aí entra o Dr Mário Soares) e o PCP entregaram as colónias à URSS de mão beijada.

Começando pelo ponto 3., os Governos Provisórios pouco pesavam face ao diktat do MFA. Só que a vontade política dominante no MFA (e PCP) era de facto, entregar as colónias à esfera de Moscovo. Disso são claro testemunho as independências de Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, onde não havia guerrilha e teria sido possível fazer um plebiscito a sufragar a independência, ou realizar eleições gerais em que figurariam partidos independentistas, pró integração, federalistas, etc.

A questão que permanece por responder é a seguinte: se a vontade política do MFA tivesse sido diversa, poderia Portugal ter imposto ao PAIGC, ao MPLA, FNLA e UNITA e à FRELIMO um esquema substancialmente diferente? Mais: teria Mário Soares (e Melo Antunes, já agora) podido fazer muito mais no tocante à descolonização, sem comprometer a tarefa de manter o PCP fora do comando dos acontecimentos em Portugal? [1]

Quanto aos pontos 1. e 2., considero que teriam sido possíveis e desejáveis antes do 25 de Abril, mais precisamente no início da década de 60, quando se iniciaram acções de guerrilha que visavam a independência de Angola, Moçambique e da Guiné. Essas acções persistiram e generalizaram-se a uma boa parte dos territórios, deixando supor que parte da população poderia ter no peito outro amor maior que o amor a Portugal.

Não tenciono alongar-me sobre o assunto, pois teríamos “pano para mangas”. O que é facto é que se chegou ao 25 de Abril com situações de guerra entre o muito grave (Guiné) e o suportável (Angola), sem que o País estivesse preparado para enfrentar o quadro em que se encontrou no pós 25 de Abril, a saber:

Þ O novo poder proclamava o direito dos povos das colónias à autoderminação e independência .

Þ Os movimentos de guerrilha eram reconhecidos pela ONU e OUA (para não falar de Paulo VI) como representantes legítimos dos povos das colónias portuguesas (a UNITA ganhara esse status pouco antes, e a RENAMO ainda não);

Þ A vontade de combater da tropa portuguesa (que nunca foi muita nem grande) caiu a zero, como seria de esperar: o 25 de Abril foi feito por militares do Quadro Permanente fartos de comissões em África, fartos de levar coices da sociedade civil e ainda por cima (foi a gota de água) ultrapassados na carreira por capitães de aviário (capitães milicianos ligeiramente retocados numa passagem fugaz pela Academia Militar). Fizeram o 25 de Abril para acabar com tudo isso, ou seja, com a guerra.

Þ Com o cessar fogo, ou mesmo antes dele, os movimentos passaram a movimentar-se com grande liberdade, ampliando enormemente a sua implantação nas cidades. Desenvolviam actividades organizativas e de propaganda, penetrando profundamente nos meios intelectuais, estudantis, quadros técnicos e nas próprias forças armadas onde a tropa de incorporação local era ainda parte considerável dos efectivos das unidades.

Foi nesta situação que se iniciaram os vários processos de descolonização.

Na Guiné a situação militar era tão grave que não houve lugar a grandes negociações
[2]. Muito menos haveria ensejo para plebiscitos ou eleições, até porque a República da Guiné Bissau já fora proclamada e reconhecida por um punhado de países (mais do que os que tinham relações diplomáticas com Portugal).

Em Moçambique houve um Governo de Transição, mais por complacência da Frelimo, do que pelo poder de Portugal para impor o que quer que fosse.

Resumindo: a Guiné e Moçambique teriam sido independentes sob partidos pró Moscovo (faça-se esta pequena injustiça ao PAIGC) independentemente do que se achasse bem ou mal em Portugal.

Em Angola, os acontecimentos poderiam ter sido ligeiramente diferentes, mas não creio que Portugal pudesse ter feito mais do que fez a África do Sul (para não falar do Zaire) para evitar a tomada do poder em Luanda pelo MPLA.

Recordo que a África do Sul, com a Unita a servir de tropa de acompanhamento, entrou por Angola ainda com o Alto Comissário português em funções, ocupou Sá da Bandeira, Moçâmedes, Benguela, Lobito, Nova Lisboa, etc, etc, só sendo detida na bacia do Quanza. Por seu lado a FNLA integrando mercenários e tropa do Zaire (ou vice versa
[3]) avançou para sul e só parou (só foi detida, leia-se) às portas de Luanda.

Pelo lado do MPLA alinhava tropa expedicionária cubana, assessores russos, jugoslavos e alemães orientais, etc.

Perante tal internacionalização do conflito e tendo em conta o estado do exército português em termos de prontidão combativa, não vejo como se pode imaginar sequer Portugal a alterar significativamente o curso dos acontecimentos.

Neste quadro, os devaneios ideológicos de Rosa Coutinho, a “neutralidade activa” do MFA e o apoio camarada do PCP ao MFA surgem como manifestações folclóricas perfeitamente irrelevantes, sem efeito decisivo no rumo dos acontecimentos.

CONCLUSÃO:

A descolonização poderia ter sido substancialmente diferente se tivesse começado a ser preparada no tempo do Prof Marcelo Caetano (ou antes). Não o foi. A situação a que se chegou em 25 de Abril de 1974 apenas teria permitido algumas alterações cosméticas ao curso dos acontecimentos.

No essencial, a nossa acção pouco mais poderia ter sido do que irrelevante.

. . . .
NOTAS:

[1] Nisto foi bem sucedido o que constitui, a meu ver, a sua maior realização como político

[2] Spínola tinha mantido conversações com o PAIGC, mas suspendeu-as por ordem de Marcelo Caetano, que o viria a substituir, pouco depois, por Betencourt Rodrigues.

[3] Nunca consegui distinguir um soldado zairense de um guerrilheiro da FNLA, não obstante me entender perfeitamente com eles em francês, já que não falavam português e eu não falava lingala.

domingo, 7 de junho de 2009

OPINIÃO 95-96 - Só o Ministro é que não sabe?!


Sr Director (Independente):

Nesta última semana tem-se falado e escrito muito sobre a questão angolana a propósito da lebre que muito oportunamente o Indy levantou a propósito da venda a Angola e/ou reparação de equipamento bélico (helicópteros, aviões, etc), pelas OGMA.

No geral, essas intervenções centram-se na legitimidade ou não de Portugal apoiar o “governo do MPLA” (marginalizando a UNITA), e nelas são emitidos juízos de valor sobre o “criminoso regime de Luanda” ou sobre o “garante da democracia em Angola” (seria Savimbi). A quase todas, contudo, parece escapar o que me parece ser o cerne da questão:

OS NEGÓCIOS FORAM REALIZADOS ENQUANTO PORTUGAL DESEMPENHAVA FUNCÕES DE MEDIADOR OU DE OBSERVADOR DO PROCESSO DE PAZ ANGOLANO?

Dispenso-me de tentar provar que os Migs 21 e 23 não são aviões de transporte (como um dos ministros terá dito) e que os Alouette III são usados pela Força Aérea angolana para o mesmo fim que o eram pela FAP: transporte de pequenos grupos de combate (para operações especiais), e para ataque ao solo, pelo que dou como adquirido que se trata de material de guerra cuja função predominante é infligir baixas ao inimigo ou provocar danos nas suas instalações. Fornecer material a um dos beligerantes para realizar essa função, e prover acções para repor ou manter a sua operacionalidade deve ser considerada, por igual, assistência militar ao esforço de guerra desse beligerante.

Desde que Portugal estabeleceu relações diplomáticas com o governo da R.P. Angola, reconhece-lhe legitimidade para assegurar plenamente a soberania de Angola e governar o país, como já o tinha feito a generalidade da comunidade internacional. Desse modo foram legitimadas as relações a vários níveis e em várias actividades entre os dois países, inclusivé na área da Defesa.

Não é novidade nenhuma que as OGMA mantiveram uma delegação em Luanda, pràticamente sem interrupção desde a independência de Angola, para fazer manutenção aos Hércules C 130 e Alouettes III, mas não perdendo outras oportunidades de negócio que se lhes deparavam.

Não é também novidade que o esforço principal das Forças Armadas Angolanas tem sido o combate à UNITA, desde que os ataques da África do Sul se circunscreveram à fronteira do Cunene (e se finaram juntamente com o domínio branco) e a FNLA se esgotou.

No fim da década de 80/início da de 90, contudo, a progressão da guerrilha e os esforços da comunidade internacional lograram convencer o governo de Luanda de que a solução militar não era viável e que só um processo de paz que acabasse com a guerra civil e reconciliasse os angolanos poderia dar ao país esperança de algum bem estar no futuro.

Portugal, como país empenhado na mediação da paz e como observador da implementação dos acordos de Bicesse não podia, de modo algum, continuar envolvido em quaisquer negócios que levassem qualquer das partes signatárias a ganhar ou ampliar vantagem sobre a outra, isto é:

Portugal deveria ter assumido um posição de neutralidade tanto no campo militar como no diplomático.

Parece claro que não o fez, pelo menos no plano dos negócios de armamento.

Ter um mediador e observador a vender armas a uma das partes, é, no mínimo, mais uma peculiaridade do Processo de Paz Angolano.

sábado, 6 de junho de 2009

OPINIÃO 95-96 - Evolução na Continuidade?


Sr Director (Independente):

Com a iminente saída de cena do Prof Cavaco Silva, esboçaram-se já duas linhas de acção típicas nestas situações: a linha de unidade e a da clarificação política.

A primeira apelará para a coesão em torno de um leader alternativo (o nº 2 na linha hierárquica), esquecendo diferenças de opinião, divergências de interesses, ambições individuais, para manter o poder ou uma fatia dele. É uma linha fortemente castradora do debate político, toda ela dirigida ao apaziguamento interno e à criação de uma imagem para o exterior de unidade em torno das ideias que o partido sempre defendeu (aí entrará a referência a Sá Carneiro, de cujas ideias o delfim se reafirmará continuador). A figura de proa terá forçosamente que ser cinzenta (quem melhor do que Fernando Nogueira para este papel?), eventualmente secundado por um grupo de notáveis que lhe darão credibilidade externa e suporte interno.

A segunda apelará para o primado do debate político e da clarificação estratégica (aqui caberá a necessária referência a Sá Carneiro, porventura mais legítima que a da linha da unidade), deixando para segundo plano a manutenção da fatia do poder. Esta linha é a que apresenta maiores potencialidades. Dela poderão emergir um conjunto de ideias amplamente consensuais fazendo tábua rasa do ideário cavaquista e (com a sorte a ajudar) um leader capaz de as explicar e defender ao eleitorado. Com muita sorte, poderá emergir um leader com carisma (o que permitiria compensar uma eventual menor riqueza das ideias).

O jantar da FIL da passada terça feira, com apelos à unidade em torno de Cavaco Silva e à sua permanência à frente do partido, é o prenúncio da linha da unidade. O apelo é fàcilmente transponível do Chefe para Fernando Nogueira, desde que manter o poder a todo o custo seja o objectivo central.

A saída de Santana Lopes do Governo é, claramente, a preparação da segunda linha. O czar da kultura, como já lhe ouvi chamar, foi fiel à posição que assumiu no congresso da Figueira da Foz mantendo-se ao lado de Cavaco; com a saída anunciada deste, nada o compromete com o senhor que se segue. O debate político (sem excluir a crítica ao que foi a era Cavaco) terá que ser reactivado, o que não será fácil após quase dez anos de paragem quase total.

Suspeito que, a curto prazo, a linha cinzenta conseguirá impor-se e levará o partido a uma estrondosa derrota (Fernando Nogueira deveria pensar no que aconteceu ao Dr Almeida Santos, já lá vai um bom par de anos, durante uma curta passagem pela liderança do PS). Talvez após essa derrota o partido renasça, floresça em novos valores, em novas pessoas, em novas ideias (por que não?); a cada militante será pedido (exigido?) que tenha ideias, que as exponha e discuta.



Não será isso essencial num partido político?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

OPINIÃO 95-96 - Eficiência asiática


Sr Director (Independente):

Agora que a nossa compatriota Angel foi executada, e que por isso nada do que se diga ou escreva pode prejudicar ou ajudar a sua causa, parece-me ter cabimento tecer algumas considerações, nenhuma delas nova, mas pouco ventiladas nos últimos tempos.

O tráfico de droga consiste em pôr à disposição dos consumidores o produto de que carecem e que é produzido em terras distantes, acessíveis a um número muito reduzido de consumidores. O tráfico é assegurado por uma rede de pessoas mais ou menos extensa e complexa, que assegura a compra na fonte, transformação, transporte, distribuição grossista, preparação de doses (embalagem e “afinação”), venda directa ao público.

Como a actividade é ilegal e a necessidade dos consumidores é grande, o trabalho das pessoas envolvidas nesta actividade é muito valorizado.

Em particular, o transporte do produto é uma tarefa que não exige uma qualificação profissional por aí além. Contudo, por ser uma tarefa fundamental e arriscada, é muito bem remunerada. Torna-se, assim, atraente para pessoas sem emprego ou com problemas de dinheiro, ou simplesmente aventureiros que aceitam correr um risco grande num número limitado de operações, para resolverem a sua vida.

Arriscam-se conscientemente a penas pesadas e bem publicitadas (nos aeroportos de Singapura, Bangkok, Kuala Lumpur e tantos outros, os avisos em várias línguas são claros e directos, como o são os conselhos para largar a encomenda no lixo enquanto é tempo).

É um jogo de fortuna e azar: se forem apanhados, é a morte (ou uma pena pesada, normalmente num país onde as prisões são estabelecimentos penais, na verdadeira acepção da palavra); se não forem apanhados, arrecadaram um pé de meia para um princípio de vida ou, pelo menos, para viverem à grande por uns tempos.

Imagino que o traficante, por muito angélico que seja, por muito distante que esteja do dealer de rua, não se preocupará muito com o destino da droga que transporta: se é para adultos já viciados e carentes ou se é para oferecer à porta de escolas, para criar dependência nos putos. Talvez nem sequer se chateie muito a imaginar os roubos e violência que terão lugar para que os consumidores consigam obter as suas doses.

E que se passa a nível de governos? Estarão porventura os governos turco, colombiano, marroquino (para só citar alguns países produtores) sèriamente empenhados em cortar o fluxo de droga para a Europa e para os States? E por que haveriam de estar? Afinal, para os campónios desses países, a papoila, a coca, a erva são culturas respeitáveis, que garantem o sustento da família e a educação dos filhos.

No meio de tudo isto, talvez os governos como o de Singapura, com o seu presidente impenetrável
[1], nos estejam a prestar um serviço, fazendo o trabalho sujo, empenhando-se em que os traficantes quando apanhados (tanto os empedernidos e viciados como os angélicos e ingénuos), não voltem a traficar.


. . . .

NOTAS:

[1] Como lhe chamou o nosso, sempre cioso dos valores da esquerda tradicional e democrática...

terça-feira, 2 de junho de 2009

OPINIÃO 95-96 - Pretos & Brancos II


Sr José Sousa N’jamba:

Junto envio a carta que escrevi há dias ao Independente. Não a vi publicada, pelo que fico na dúvida se o Indy acha que o Sr U Thant era branco ou se a pessoa que leu o fax (meio que usei para enviar a carta) sabe sequer quem foi o referido senhor. Na dúvida, cesto dos papéis com ele!

Como o Sr Sousa N’jamba (deixe-me usar o seu verdadeiro nome, já que a versão aportuguesada lhe deve pesar um tanto) é uma pessoa culta, estou certo de que só por distracção escreveu que o Sr Butros Ghali é o primeiro não branco a estar à frente da ONU. Está feita a chamada de atenção; caso queira, poderá fazer a correcção que entender.

Repare que considero esta questão de interesse muito reduzido, pois sendo a ONU integrada pela quase totalidade dos países do mundo, estranho seria que o cargo de secretário geral (ou outro qualquer) fosse reservado a brancos, ou a africanos, ou a asiáticos. E sobre brancos e não brancos, estamos conversados!

A propósito de versões aportuguesadas de nomes angolanos, permita-me que lhe conte a seguinte história que se passou comigo:

Em 1976, quando entrei para a TAAG (DTA até pouco antes) havia um contínuo no meu sector que se chamava Colombo. Um belo dia, chegou ao serviço, entrou-me no gabinete e disse-me com um ar todo satisfeito:
“Camarada
[1] engenheiro, eu agora chamo-me Calombe, já não me chamo Colombo”.

Perguntando-lhe eu por quê essa mudança, contou-me que quando o pai o foi registar ao Chefe de Posto e disse que o nome da criança era Calombe, o Tuga teria respondido qualquer coisa como “Qual Calombe, qual carapuça! o nome certo é Colombo, porra! e fica mesmo Colombo!”. É claro que não havia nada a fazer.

O Calombe carregou quase 40 anos com um nome que não era o seu até que a dipanda
[2] lhe permitiu, finalmente, deixar de usar o nome tuga e passar a usar o seu. Por isso estava tão satisfeito.

E não o maço mais. Apresenta-lhe os melhores cumprimentos este leitor assíduo (e, como vê, atento) dos seus escritos.

. . . . .

NOTAS:

[1] Compreenderá que naquele tempo até os americanos da Boeing que por lá andavam eram tratados por camarada, e aceitavam o tratamento com toda a naturalidade. O termo era tão omnipresente, que um “popular” ao narrar um acidente ao repórter da televisão estatal dizia, a alturas tantas “... depois, a camarada IFA embateu na casa...”. Os IFA eram camiões made in RDA, do melhor que a Europa de leste produzia, in illo tempore.

[2] Independência.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

OPINIÃO 95-96 - Pretos & Brancos I


Sr Director (Independente):

Na coluna do José Sousa Jamba, sob o título Butros Ghali, o não branco, encontrei uma afirmação errada que me pareceria bem que fosse corrigida.

Segundo Sousa Jamba, com Butros Butros Ghali a ONU está pela primeira vez na sua história a ser dirigida por um não branco. Ora o articulista não é tão novo que não se devesse lembrar do secretário geral que ocupou o cargo a seguir ao acidente que vitimou o nórdico de apelido impronunciável, Dag Hammarsjoeld, e antes de Kurt Waldheim.

Era inequìvocamente asiático, enigmático e de poucas palavras, e chamava-se U Thant. Era birmanês de gema e, pela classificação de Sousa Jamba, terá sido, ele sim, o primeiro não branco a estar à frente da ONU.

É aborrecido que o Indy não seja revisto de modo a evitar este tipo de bacorada que pode induzir em erro os leitores menos bem informados.

OPINIÃO 95-96 - Rabinos e Teimosos


Sr Director (Independente):

Não tenho o prazer de conhecer nenhum muçulmano defensor do estabelecimento da república islâmica (fundamentalista ou não, xiita ou sunita) que me faça compreender as razões (ou mesmo as vantagens) por que o Estado e as instituições religiosas devem fundir-se (ou confundir-se). Mais precisamente, por que é que a religião com os seus ministros, os seus mandamentos, as suas fatwas deve orientar não só as almas dos crentes (o que me parece pacífico, já que eles são crentes), como dominar todos os seus actos, os seus pensamentos, numa palavra, toda a sua vida.

A separação clara entre as esferas espiritual e temporal (a César o que é de César ...) parece-me tão evidente e necessária que as religiões-de-Estado e os estados-Religião me surgem como aberrações (autênticas abominações) potenciadoras de toda a sorte de violências e arbitrariedades sobre as pessoas, perpetradas por uma padralhada ignara e amoral, cada vez menos ligada às coisas do espírito, preocupada mais e mais em manter o seu domínio absoluto sobre a sociedade.

Poderia muito bem estar a falar do país dos mullahs. Na realidade estou a falar de Israel, ou mais precisamente a um aspecto “retorcido” do poder temporal da religião judaica (da lei judaica) sobre os seus fiéis: morreu no mês passado um tal Yehia Avraham cujos últimos 32 anos foram passados à sombra, por decisão do tribunal rabínico. Não matou, não roubou, não violou: não acatou.

O bom do Yehia recusou, no longínquo ano de 1949, o divórcio pretendido pela sua senhora. Esta recorreu à sinagoga que deliberou a seu favor. Só que o tribunal dos rabinos não pode impor aos conjuges o divórcio: por muita razão que considere assistir à mulher, o divórcio tem que ter o acordo do marido.

O tribunal pode, contudo, fazer uma forcinha para levar os maridos renitentes a dar o divórcio às suas futuras Ex's: pode mandá-los prender!


Como o Yehia era teimoso que nem uma mula, o poder do tribunal rabínico correspondeu a uma autêntica pena de prisão perpétua.

É claro que Israel é um país civilizado, onde, desde que não se tenha a religião errada, até se vive bem e em relativa liberdade. Contudo, o caso do Yehia e da sua teimosia extremada faz-me pensar que talvez o Estado democrático lá do sítio o seja dentro de limites um tanto estreitos.

Para além deles, a lei judaica prepondera. E pesa demais.

Pelo menos, para o meu gosto.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Timor


Sr Director (Independente):

A situação em Timor continua sem solução à vista, não obstante o massacre do cemitério de Santa Cruz ter trazido a questão para a ribalta internacional, e lhe ter dado novo fôlego no plano nacional.

Não é nada fácil demover um país como a Indonésia, em vias de se consolidar como potência regional, prestigiado internacionalmente como um dos países fundadores do movimento dos países não alinhados e tendo apoiado sempre os movimentos que, em particular na década de sessenta, reivindicaram a libertação dos territórios sob administração colonial.

Para além disto, o país (melhor, o regime) goza dos favores americanos desde os tempos da guerra fria, quando Suharto substituiu o instável e, nesse tempo, já um tanto decrépito Sukarno e fez uma limpeza de alto a baixo eliminando quaisquer hipóteses do Partido Comunista tomar o poder. Whashington ficou grato. E grato continua.

Timor é a excepção: antes do 25 de Abril a Indonésia nunca se manifestou impaciente pela descolonização do território (tampouco manifestou, antes pelo contrário, qualquer apetência pela sua anexação). Contudo, depois do 25 de Abril, após um período de aparente indecisão, invadiu o território e viria formalmente a anexá-lo anos depois. A sua posição actual é fechada, não admitindo nas conversações em curso quaisquer pontos políticos, isto é, que questionem ou simplesmente abordem o estatuto do território.

Como se compreenderá, um país com perto de 200 milhões de habitantes (um mercado e tanto, que o diga o nosso compatriota Manuel Macedo) com um território 105 vezes maior que Timor Leste e 400 vezes mais populoso é um parceiro que não se hostiliza nem sequer se desagrada pelo simples respeito aos direitos do povo maubere. Infelizmente, o que move os países são os interesses e não os princípios. Os princípios proclamam-se e defendem-se nos fóruns internacionais; os interesses salvaguardam-se com políticas e acções concretas.

Como levar a Indonésia a alterar a sua posição face a Timor? Pela força, nem pensar, se bem que o uso da força pela resistência maubere tenha a virtude de mostrar que a anexação não foi aceite e que vinte anos depois da invasão a resistência continua activa contra a administração estrangeira. Isto é fundamental. É, de resto, a razão principal para pequenos países manterem pequenos exércitos que ninguém espera que consigam opor-se com sucesso à invasão das suas fronteiras por um vizinho poderoso, mas garantem que uma eventual invasão encontra resistência (não é consentida nem aceite).

Pelo diálogo, não parece haver, de momento, abordagem possível, já que a discussão do estatuto do território é tabu. Depois de tudo o que se disse e escreveu sobre o assunto, a Indonésia não tem uma saída elegante por onde possa recuar, salvando a face. Talvez seja preciso esperar a saída de cena de Suharto para que o recuo se possa fazer.

A diplomacia no centro da qual está a condenação da Indonésia pelo atropelo dos direitos civis, pelo genocídio da população e pelo desrespeito pelo direito à autodeterminação deveria ser temperada por uma outra vertente, porventura penosa para Portugal, cujos tópicos poderiam ser:

· Portugal, pequeno país dos antípodas, não teve capacidade para desenvolver o território;

· Em 25 de Abril de 1974, Portugal não estava motivado para manter o domínio, ainda que transitório, sobre Timor ou sobre qualquer outra colónia que reivindicasse pela força o fim desse domínio;

· Em 1974, a população timorense não estava preparada para, de forma pacífica e esclarecida, encontrar entre os vários agrupamentos políticos que se perfilaram qual o que reunia mais condições para governar o território;

· Nem Portugal, nem os grupos políticos emergentes levaram a cabo qualquer consulta popular internacionalmente aceite, pela qual o direito à autodeterminação fosse exercido;

· Com a administração Indonésia, Timor conheceu um incremento considerável da actividade económica, das vias de comunicação e da educação;

· A população está em 1995 muito mais esclarecida para exercer o seu direito à autodeterminação já que tem agora muito maior acesso à educação do que tinha até 1974. Tem, por outro lado, um conhecimento muito maior das opções possíveis (mormente no que toca à integração na Indonésia) do que tinha se tivesse sido consultada em 1974. Não se deixará, certamente, manobrar pelos comunistas (grande receio da Indonésia em 1974).

Este aproach, não comporta, na generalidade, quaisquer inverdades e tem a virtude de não diabolizar a Indonésia; valoriza os aspectos positivos da sua administação e deixa para outros a denúncia dos aspectos negativos. Reconhece-lhe um papel “civilizador”, substituindo-se ao país colonizador na preparação da população timorense para exercer de modo esclarecido o direito à autodeterminação consignado na Carta da ONU.

Poderia, pois, constituir uma saída elegante para Indonésia. Levá-la a usar essa saída é, naturalmente, tarefa de monta.

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Veja mais sobre Timor actual) aqui









terça-feira, 26 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Sida


Sr Director (Público):

A ONU proclamou o dia 1 de Dezembro como o Dia Mundial contra a SIDA, dia em que teve lugar a Cimeira de Paris, promovida pela França para concertar medidas para combater a pandemia. Durante a conferência foram apresentados números alarmantes (para quem não acompanha de perto o problema) e foi feito um alerta geral dirigido fundamentalmente aos jovens, estrato que regista maior crescimento de novos casos.

Como não podia deixar de ser, as conclusões da conferência
[1] deverão ser fortemente condicionadas pelo ambiente emocional resultante da necessidade de defender os direitos dos seropositivos[2] , para além do cariz fatal da doença.

De facto, quando se debate a SIDA, assiste-se frequentemente ao confronto entre dois grupos com posições aparentemente antagónicas, a saber:

· A defesa intransigente dos direitos dos seropositivos contra a discriminação no emprego, pelas seguradoras (no ramo VIDA em particular), nas escolas (geralmente quando se trata de crianças), no acesso aos serviços médicos, na vida amorosa;

· A defesa da sociedade contra o avanço da doença, em particular quando se trata de proteger os filhos dos seronegativos do contágio;

O grupo que “defende os seropositivos” é composto por várias organizações coesas e verbalmente agressivas, com grande capacidade de mobilização. Tende a rejeitar tudo o que possa levar à discriminação, a começar pela divulgação da condição de seropositivo.

Chega ao ponto de afirmar o direito do seropositivo a não informar o seu parceiro sexual da sua condição. Em consequência disso, considera o preservativo como a solução por excelência para prevenir a doença, devendo o seu uso ser generalizado.

Para este grupo, as tradicionais medidas de saúde pública ainda em vigor para várias doenças (baseadas no registo e rasteio dos casos detectados e obrigatòriamente participados pelos médicos que os diagnosticaram) não podem aplicar-se à SIDA por conduzirem directamente a medidas discriminatórias, se não do Estado, pelo menos por parte cidadãos seronegativos. Resta a este grupo pressionar o Estado para que incentive a investigação científica dirigida a medicamentos curativos e a vacinas que previnam a doença.

O grupo que “defende os seronegativos” não é pròpriamente um grupo. É constituído bàsicamente pelos seronegativos interessados em não deixarem de o ser (a generalidade da população, pois), e pelas entidades ligadas à saúde pública (pela sua missão, estarão empenhados em suster o avanço da doença e em tratar os doentes que a contraíram).

As entidades oficiais tendem a assumir posições tímidas, com muitas declarações de (boas) intenções. Receiam ser etiquetadas de fascistas pelo grupo que defende os seropositivos (sempre prontos a citar o caso de Cuba onde os seropositivos foram despachados para quarentena numa ilha, com resultados incertos).

As medidas preventivas (para além da divulgação de informação, de propaganda ao uso do preservativo e à troca de seringas) são, assim, sistemàticamente preteridas pelas medidas curativas, ou seja, nenhumas ou quase nenhumas pois o resultado das pesquisas não foi ainda muito além do AZT que, como se sabe, não cura a doença.

Os factos apresentados na Conferência de Paris deveriam servir para que a SIDA fosse encarada como uma verdadeira pandemia contra a qual, mais tarde ou mais cedo, têm que ser tomadas medidas sérias e eficazes no âmbito da saúde pública. Essas medidas, se bem que inseridas num quadro legal onde os direitos e liberdades dos cidadãos são garantidos, não deixarão de interferir com algumas liberdades das pessoas envolvidas. Nessa altura, será muito útil a acção das ONGs, exercendo pressão no sentido de compatibilizar a necessidade de deter a pandemia, com os direitos dos doentes.

Infelizmente, parece óbvio que só quando a SIDA fôr uma ameaça real para os países desenvolvidos
[3], as necessárias medidas serão pensadas e postas em prática.

Talvez nessa altura as medidas suaves que hoje evitariam a propagação da doença tenham que ser substituídas por outras mais restritivas, mais drásticas, e que não darão vida aos milhões de pessoas que entretanto terão contraído a doença e morrido.

. . . . .

NOTAS:

[1] Ou melhor, das conferências, já que paralelamente decorre uma reunião das ONG ligadas aos vários lobbies com alguma relação com a SIDA.


[2] Com sintomas da doença ou não.

[3] Em Portugal a Sida é, neste momento, quase uma doença de artistas e gente boémia. Não são, certamente, os 10 milhões de sidosos africanos, heterossexuais e promíscuos, que estão no centro das preocupações da Abraço...