segunda-feira, 25 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - O Deus da Chuva

Sr Director (Independente):

O texto que se segue foi encontrado no ano de 2495, em Port Moresby (Nova Guiné) na bagagem do primeiro australiano que chegou à ilha, depois da Grande Catástrofe Mundial (ocorrida no fim do século vinte). Fazia parte de um conjunto de apontamentos sobre a vida dos papuas, tomados nos dias que precederam a sua morte. Não tinha ainda percebido que se destinava a ser comido, em cerimónia ritual em honra do Grande Pai Branco, deus da chuva dos papuas. O texto refere-se precisamente à lenda sobre a chegada à ilha desse deus, pouco antes da Grande Catástrofe.

Naqueles tempos o povo andava desesperado. Não chovia há muitas luas e o chão começava a ficar em pedra. As fontes tinham secado há muito tempo. Só nas montanhas havia algumas donde ainda brotava água que se perdia no chão ressequido muito antes de chegar às terras baixas. Só o Grande Pai Branco nos podia valer. O sumo sacerdote chamou o povo para o terreiro grande e no meio de grande alarido e das danças rituais invocou o deus que faz chover. Nesses tempos, o sumo sacerdote era muito poderoso e a sua invocação em breve foi ouvida.

Rugindo sobre a multidão prostrada, o grande pássaro deu sete voltas antes de poisar sobre a terra. Era muito grande, e a sua sombra tapava o sol enchendo de temor as gentes, quando sobre elas planava, ameaçador.

Nunca fechava as asas, como se receasse não ser capaz de as voltar a abrir ou simplesmente para infundir um medo maior ao povo. As patas eram curtas, com garras retorcidas e negras, mais pareciam rodas. O pescoço era direito, com a cabeça virada para baixo, de modo que o bico preto e adunco assentava no chão.

Por baixo de cada asa tinha uns tubos donde saía um vento de fogo que queimava os incautos que tentavam perseguir a grande ave. Dentro dos tubos havia uma semelhança de roda que rodopiava com um forte assobio quando o pássaro se preparava para voar. E de cada asa pendia um tubo e em cada tubo havia dentro uma semelhança de roda que silvava e rugia atemorizando as gentes.

Do pássaro saiu um homem branco, que vinha nas suas entranhas, vestido com um manto branco até ao chão, não deixando ver se caminhava sobre pés ou se flutuava sobre a terra. Estava vivo e acenava ao povo. E o sumo sacerdote levou-lhe uma cesta com terra para que ele a provasse. O homem branco provou da cesta de terra e achou-a boa. E pegando num punhado dela, soprou-a na direcção dos quatro cantos da terra. E as núvens surgiram não se sabe donde sopradas por um vento muito forte até que todo o céu ficou escondido. E as núvens abriram-se sobre a terra ressequida fazendo cair uma chuva perfumada e fresca que durou sete dias e sete noites.

O povo, prostrado de rosto no chão nem se apercebeu da partida do Grande Pai Branco (pois que dele se tratava!) no seu pássaro rugidor. Um dia ele há-de voltar e a nossa terra será outra vez verde e coberta de florestas como era antes do fim do mundo. ALELUIA!


Assim nascem as lendas.
[1]
. . . . .

NOTAS:

[1] Este texto foi suscitado pela notícia da chegada do Papa à Nova Guiné; nesse dia choveu, o que já não acontecia há muito tempo...

domingo, 24 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Ai os números II


Sr Director (Público):


Na rubrica “números & factos” da vossa edição do passado domingo, sob o título SABIA QUE... são apresentados dados sobre o número de pobres na região da América Latina e Caraíbas. Os números perdem impacto por não se fazer referência à população total da região nos anos considerados. Realmente, 296 milhões de pessoas é muita gente, mas o que importa (se me permite) para dar uma ideia da pobreza na região é comparar esse número com o total dos habitantes, e estabelecer a sua evolução ao longo dos anos considerados.

Assim, a população da região em apreço era de 415 milhões em 1986, passou para 442 em 1989 e 449 em 1990. Estima-se que no ano 2000 a população da América Latina e Caraíbas ascenda a 537 milhões, com uma taxa média de crescimento de 2,1% ao ano.

As percentagens de pobres serão as seguintes: 41% em 1986, 42,8% em 1989 e terá saltado para 59,2% em 1990. No ano 2000, a percentagem de pobres terá baixado ligeiramente para os 55,1% .

Com estes dados, o leitor estaria muito mais habilitado a perceber qual a tendência verificada para o empobrecimento da região citada.

sábado, 23 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Ecologia Pós Moderna

Sr Director (Público):


O Público deu no seu número de ontem, dia 23, o devido destaque à tomada de posição do Sr Presidente em relação à nova ponte sobre o Tejo. Li de ponta a ponta, ao longo das três páginas, e reli, porque à primeira leitura não encontrei a explicação que procurava para o facto de o Sr Dr Mário Soares ter tomado a posição que tomou nesta altura em que a procissão está em vias de deixar o adro e encaminhar-se para a rua principal da aldeia.

Recordo-me, é verdade, de que o Dr Mário Soares manifestou reservas sobre a opção do Montijo, ainda antes da escolha estar feita. Contudo, deixou correr o marfim, o debate sobre a localização da nova ponte decorreu como decorreu, o GATTEL apresentou o seu relatório, a escolha foi feita, o concurso lançado, a adjudicação pràticamente feita, o contrato pronto para ser assinado.
Deixou, pois, o processo correr o seu curso e, se bem que a decisão tomada pelo Governo tenha sido contrária à sua opinião, o Sr Presidente, no seu arbitral papel, não interferiu.


Certamente te-lo-ia feito, mais: deveria te-lo feito, caso entendesse que o interesse dos cidadãos estava a ser lesado, ou simplesmente que o processo de tomada de decisão estava a ser demasiadamente fechado ou enfermava de vícios.

Só que o Sr Presidente, não terá percebido bem a engenharia financeira da coisa, terá promulgado um decreto de cujo alcance só mais tarde se terá apercebido. O Sr Presidente faz-me lembrar um antigo Primeiro Ministro com pouca paciência para dossiers (não foi o pior: o Companheiro Vasco e o impagável Almirante Pinheiro de Azevedo levaram-lhe a palma)!

O que mais me espanta é o Dr Mário Soares, um “animal político” por excelência, não ter guardado este tipo de posição, nesta altura, para um qualquer ferrabrás de serviço: o inefável general Azeredo prestar-se-ia a este papel (provàvelmente encantado) e até lhe daria aquele toque pessoal a que nos tem habituado. O Sr Presidente ficaria resguardado, mas o recado teria sido dado à sua querida sociedade civil (pelo chefe da sua casa militar, o que até daria uma maior abrangência à mensagem).

Naturalmente, nada disto tem que ver com as questões técnicas envolvidas (financeiras, de ordenamento do território e ambientais), cujo debate se prolongará certamente muito para além da expectativa de vida dos litigantes mais jovens. Estou a imaginá-los a dizer aos netos qualquer coisa como: “se a ponte tivesse sido feita onde o avô defendia, os meninos agora não teriam que ir para a escola de helicóptero”.

A questão é política e trata-se de optar por uma solução entre várias e avançar com ela, com plena consciência de que para todas as opções haverá grupos de técnicos com posições opostas apoiadas em sólidos argumentos. A posição tardia que o Dr Mário Soares manifestou e a que o cargo que ocupa dá peso institucional é essencialmente uma posição política (por muito que o Dr diga que pode manifestar a sua opinião como qualquer cidadão).

Que pretenderá o Sr Presidente guardando em carteira durante três anos a sua posição sobre o modo como o dossier da nova ponte foi tratado e pondo em causa os critérios de decisão? Será que não tem matéria suficientemente interessante para o capítulo final das suas memórias?

domingo, 17 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Parque Burocrático


Sr Director (Independente):


Comemorou-se ontem o dia mundial da floresta, com diversas cerimónias mais ou menos divulgadas pela comunicação social, uma das quais não resisto a comentar:

A Câmara Municipal de Lisboa colocou à disposição dos munícipes mais um parque, um parque muito especial. Trata-se de uma área em Monsanto, devidamente vedada e de acesso condicionado, para preservar não só as espécies vegetais como a fauna residente, que inclui veados. A Televisão deu algumas imagens do parque, dos veados, e entrevistou o vereador da CML, Engº Rui Godinho, que, visìvelmente agradado, explicou como podem os munícipes (em grupos e sem ser em grupos, integrados em escolas e associações, ou não) aceder a esse espaço de cultura e lazer.

E aqui, ia-me caindo o queixo de pasmo: o Sr Engº informa-nos, ansiosos munícipes, de que basta ir à sede dos serviços, por enquanto na 24 de Julho, fazer a inscrição para visitar o Parque e a CML convidar-nos-á para, em data marcada, fazermos a visita. Trata-se, pois, de um verdadeiro PARQUE BUROCRÁTICO.

A CML não tem, certamente, verbas para pagar a guardas que garantam que os visitantes não o vandalizem. Já não terá, talvez, dezenas (ou seriam centenas) de jardineiros, mais ou menos desocupados, que possam ser reconvertidos, passando de jardins para parques.

Talvez seja uma reconversão mais lógica do que passá-los paulatinamente a contínuos e motoristas. Poderá ainda dar-se o caso de o Sr Vereador não ter imaginado um parque em que os veados, as árvores e os visitantes possam coexistir, num espaço naturalmente vedado e de entradas controladas, onde qualquer cidadão possa entrar e permanecer desde que mantenha uma conduta adequada (isto é, desde que não moleste os animais, nem danifique as plantas).

Que tal o Sr Vereador fazer uma visitinha de estudo ao parque de Richmond , em Londres? Não ficaria muito caro à CML e o Engº Rui Godinho teria a surpresa de entrar no parque de carro (e esta?) sem inscrição prévia (e mais esta?), passear pela relva (sentar-se ou deitar-se nela, se quiser) ver as manadas de veados a pastar tranquilamente. Veria também que se algum “esperto” se aproxima dos animais e os perturba é discretamente (ou não) convidado a deixar os bichos em paz.

Depois, dê o Sr Vereador um ”pulinho” a Kew Gardens (é a paragem a seguir no metro, linha verde, não tem nada que enganar) e encontrará outro parque (devidamente murado e de entradas controladas) onde não terá que marcar a visita com antecedência (entra na hora) e onde, não havendo veados, há uma muito variada flora incluindo essências tropicais em estufas (também de entrada livre).

É claro que em Londres não há menos vândalos que em Lisboa; há, simplesmente, mais guardas onde são necessários.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Os novos feiticeiros da treta...


Sr Director (Público):

O número do passado dia 5 trazia, nesta secção, uma carta assinada por Rosário Neves sobre um assunto que diz respeito à generalidade dos cidadãos, mas que é poucas vezes ventilado na comunicação social (faço uma honrosa ressalva à crónica de Escárnio e Maldizer de Pedro Arroja, na TSF, num dos primeiros dias de Março). A carta tratava do modo pouco ético como alguns médicos exercem a sua profissão, ilustrando com um caso vivido pela signatária.

Naturalmente já ninguém levará muito a sério a ideia antiga de que a medicina seria um sacerdócio, que os médicos teriam uma missão sagrada na Terra, que a prática da medicina se regeria por um código deontológico muito rígido.

A figura tradicional do médico de aldeia percorrendo distâncias por estradas esburacadas, a meio da noite, numa carripana a cair aos bocados para aliviar as dores de um velhote que lhe pagará com uma galinha ou com um “Deus lhe pague, Sr Doutor” , não é mais que uma imagem do passado.

A prática da medicina é hoje encarada como uma profissão como outra qualquer, em que o médico oferece os seus serviços e recebe por eles uma retribuição (talvez ainda haja quem receba em galinhas, mas, em geral, é em dinheiro que os serviços são pagos).

Até aqui, tudo bem. Só que há “pequenos pormenores” que talvez exijam mesmo um código deontológico elevado, e uma fiscalização (a que existe é totalmente inoperante) capaz de garantir o seu cumprimento.

Desses “pequenos pormenores” , sem querer ser exaustivo, indico:

1. O médico trata da saúde de pessoas; não repara carros, nem máquinas de lavar. Sendo a saúde “o bem mais precioso”, o médico fica numa posição negocial privilegiada na sua relação com o paciente, que nem sempre “se atreve” a pedir ao Sr Dr que lhe explique os porquês, comos, etc, da sua doença e do tratamento prescrito, nem sequer a pedir recibo. E muito menos a mandá-lo ir receber lá a casa, quando a catalogadora diz que “o Sr Dr não tem, de momento, recibos; passe por cá noutro dia”...

2. Quando o médico dá consultas nos serviços de saúde do Estado e no seu consultório privado, não lhe será muito fácil resistir à tentação de encaminhar para este os casos mais interessantes ou mais complicados, que exigem uma consulta com mais tempo e em melhores condições. Caso o paciente tenha “disponibilidades”, evidentemente.

3. Tendo o médico, por imperativo de constante actualização, necessidade de ter um contacto estreito com os grandes laboratórios de produtos farmaceuticos será, certamente, difícil resistir à tentação de prescrever o medicamento A em detrimento do medicamento B, quando o laboratório que fabrica o primeiro o convidou para um congresso em Singapura e o segundo o convidou para um congresso na Curia. E quanto a receitar genéricos, nem pensar, pois eles não dão garantias de qualidade (o verbo DAR talvez seja, de facto, o fulcro da questão).

4. A actividade médica é controlada por médicos (eles é que sabem de medicina, claro!). Assim, é extremamente difícil (se não mesmo impossível) levantar dados para fundamentar uma acusação de negligência, ou de prática incorrecta.

Não é injustamente que se diz que ...

os médicos enterram os seus erros.

terça-feira, 12 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - A santa Deslocalização

Sr Director (Independente):


No passado dia 20 de Fevereiro, o Sr Ministro da Indústria esteve na AIP, inauguravam-se as novas instalações da COPRAI, onde proferiu algumas palavras sobre o futuro da indústria portuguesa. Preconizou o Sr Ministro a deslocalização da "parte manufactureira" das empresas para terceiros países, nomeadamente no "eixo Atlântico".

Nada tenho a objectar a este modo de aproveitar a globalização dos mercados para instalar as empresas, ou parte delas, nas regiões onde os factores externos sejam mais favoráveis à sua laboração com vista a colocar no mercado os seus produtos (objectos ou serviços) com vantagens competitivas sobre a concorrência. É paradigmático (para além de pioneiro) o caso da British Airlines cuja contabilidade é feita na Índia. Nesta matéria, o Ministro limita-se a mostrar que assimilou os novos conceitos que os gurus das ciências da Gestão têm lançado nos últimos anos, o que só o abona.

Não posso, contudo, deixar de notar que o Ministro tutela uma área de actividade onde uma apreciável parcela dos cidadãos portugueses desenvolve a sua actividade, como empresários, accionistas e donos de empresa, uns, como empregados por conta de outrém, outros. Se o caminho apontado pelo Ministro é bom para os primeiros, já não se poderá dizer o mesmo para os segundos, os empregados da “parte manufactureira” das empresas transferidas para países terceiros. Ficarão desempregados, eventualmente à espera que alguma empresa de um país rico deslocalize para Portugal.

Dizem-me que como a economia caminha para a globalização, “tudo isto ficará equilibrado”, empresas portuguesas deslocalizadas para Marrocos (por exemplo), empresas alemãs deslocalizadas para Portugal, de modo que o nível médio de emprego tenderá a manter-se. Espero que assim seja. Receio, contudo, que o Governo deixe este mecanismo de equilíbrio entregue a si próprio, não exercendo a sua acção reguladora de forma sensata e eficaz de modo a:

1. Incentivar o investimento estrangeiro no mercado de capitais - o modo canhestro como a CMVM foi tratada no caso Totta, deve ter deixado os potenciais investidores perplexos com o à vontade com que o Ministro das Finanças “interpreta” uma lei existente, torce-a para o lado que quer e o PR promulga. Depois, arranja um novo presidente da CMVM, cheio de boa vontade e de garantias de independência!

2. Incentivar a instalação de novas empresas (estrangeiras, portuguesas e mistas) - neste caso, o Governo poderá estabelecer condições atractivas, facilidades fiscais e de acesso ao crédito ou outras (não esquecer a simplificação das burocracias), mas não pode esperar situações “eternas”, querendo que uma fábrica se mantenha aberta, acumulando prejuízos para manter postos de trabalho (como se fossem empresas públicas, tipo TAP, Siderurgia, CP, etc).

3. Incentivar a valorização do capital humano (ou capital inteligente, como já lhe ouvi chamar), começando por investir na melhoria da qualidade do sistema de ensino (do pré primário ao superior) e privilegiando a formação contínua dos gestores, pois situa-se aí o calcanhar de Aquiles da Indústria portuguesa (e não só da Indústria...).

Não nos espantemos se “a parte manufactureira” de uma empresa relocalizada no eixo Atlântico fôr á à falência! Pois se uma empresa gere tão mal que não consegue em Portugal custos de produção inferiores aos apresentados por empresas alemãs [1] (pagando estas salários múltiplos dos pagos em Portugal), não se percebe bem como é que a gestão melhorará no “eixo Atlântico”.

Por outras palavras, só uma empresa bem gerida (o que está longe de ser norma em Portugal) poderá colher vantagens competitivas na deslocalização.

Eu diria ao Ministro, que a aposta deve ser na gestão e não na deslocalização.

. . . . .

NOTAS:

[1] Refiro-me ao sector da construção civil.

domingo, 10 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Palmeta II


Sr Director (Independente):

A guerra da palmeta, pelos vistos, está para lavar e durar. O Canadá não dá mostras de abandonar a legislação tonta que os seus órgãos de soberania produziram.


A soberania, entendida como o poder de fazer leis e impô-las coactivamente, está associada a um território bem definido, onde essa soberania é exercida; a sua extensão a um território além fronteiras, isto é, fora dos limites do território “base”, é um claro casus belli. Daí que a ideia do Canadá legislar para um território que não é o seu (ainda que seja uma extensão submersa da sua plataforma continental, para além do limite consensual das 200 milhas) é pura tolice, e coloca aquele país na situação incómoda de fora da lei.

Quem não conheça o Canadá e olhe para a sua grande mancha no mapa, poderá ficar com a ideia de que se trata de um grande e poderoso país em vias de reclamar para o seu “povo” o “espaço vital” que lhe falta e a que se sente com direito.


Essa ideia poderá ser reforçada pelo facto de o Canadá pertencer ao grupo dos países mais ricos, o clube exclusivo do G7, onde o presidente russo é recebido (quando convidado!) como um parente pobre que vem pedir uns favorzitos.


Afinal o que é (quem é?) o Canadá?

O Canadá, não sendo um grande país é, contudo, um país grande, com muito território. A sua área é superior a 9,9 milhões de Km2 (mais do triplo da Europa dos 15), boa parte acima do círculo polar Árctico, mas tem uma população diminuta que não atinge os 30 milhões de habitantes (12 vezes menos que a Europa dos 15).

Quanto a riqueza produzida, o Canadá tem um PIB pouco acima dos 700 mil milhões de US$ (11 vezes menos que a Europa dos 15), o que o coloca atrás da China, com o Brasil e a Espanha assomando de perto. Talvez esteja mesmo atrás da Rússia, cuja posição é duvidosa: a URSS tinha em 1988 um PIB estimado em 2500 mil milhões de US$, o que é curta referência tendo em conta as convulsões no seguimento da desintegração soviética, o colapso da economia e o descontrolo da estatística estatal.

Comparando o Canadá com a Califórnia e com o Texas, e olhando para a história das relações com o seu vizinho grande do sul, fica a ideia de que o Canadá não será muito mais que uma espécie de estado americano, sem estrelinha na stars & stripes, mas com bandeira e hino próprios.


Sentindo-se seguro debaixo da asa da águia americana, este projecto de país dedica-se agora à pirataria nos mares internacionais, apresando navios, vandalizando apetrechos de pesca, pondo em risco a segurança de pessoas e bens.

Resta tirar uma conclusão penosa:


a Europa Unida é grande e rica, mas não inspira respeito a ninguém.

sábado, 9 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Vígaro Cá, Vígaro Lá II



Sr Director (Público):

A SIC presenteou-nos esta noite com uma presença especial, há muito anunciada, no seu bloco de notícias da hora do jantar. Nem mais nem menos que o regressado Pedro Caldeira!

O homem é de facto encantador, assumiu uma pose despretensiosa, falou dos valores que sempre foram os seus, e que se mantêm, e do seu amor à liberdade, revalorizado depois de dela ter estado privado.

Mostrou-se um empresário e cidadão exemplar, gerando riqueza (mais de um bilião de contos) e pagando os seus impostos (deve ser, alvitrou, o maior contribuinte individual que o país tem - ou teve).

O Alberto de Carvalho mostrou-se amável, em certas alturas quase reverencial (afinal não estava a entrevistar um escroque, mas um cidadão exemplar!), e ficámos a saber que no julgamento teremos a surpresa de constatar que afinal as coisas não são bem como se pensa.

Por exemplo, Pedro Caldeira adianta que os clientes que perderam as quantias que investiram (ou que entregaram para que fossem investidas) não se sentem logrados (terão tido azar, suponho) e alguns continuam seus amigos (“amigos para sempre”, imagino).

Pedro Caldeira não falou, nem lhe foi perguntado, como é que o corrector de sucesso (o número um, foi várias vezes afirmado) vivia nìtidamente acima das suas posses (nos leilões de arte a sua esposa era presença assídua e licitante), acumulando dívidas pessoais (e da empresa) que ascendiam a várias centenas de milhar de contos, chegando a uma situação de insolvência que obrigou a penhoras das suas casas (entretanto prudentemente despojadas do recheio) e culminou na sua saída estratégica de cena.

O que se verá no julgamento, e isso é que é fundamental, é se Pedro Caldeira vivia à grande da solicitude benévola dos seus clientes e amigos, ou se o fazia à custa de parte das quantias que lhe eram entregues para serem investidas, que afinal eram desviadas para custear as suas despesas pessoais (o que é crime) e a manutenção de um nível de vida superior, repito, às suas posses.

O ar educado, elegante, bem falante e aperaltado que Pedro Caldeira exibiu na SIC não nos deve, afinal, surpreender. Já o poeta Aleixo tinha uma explicação óbvia para isso...

[1]

. . . . .

NOTAS:

[1] Recordo:
“Quem rouba não pode andar mal vestido, esfarrapado
Tem que andar aperaltado p’rós incautos enganar...”

sexta-feira, 8 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Palmeta I


Sr Director (Público):

Há poucos dias o nosso primeiro Ministro apareceu na televisão afirmando com veemência que a Espanha não tinha enviado barcos de guerra (“É mentira!” clamou, e repetiu, o Prof Cavaco) para os mares da Terra Nova mas tão sòmente dois navios sem armas e levando a bordo fiscais da NAFO.

Esta imprudência em fazer afirmações veementes sobre factos que não domina, arriscando-se a que os acontecimentos subsequentes o venham a desmentir, sugere um PM pouco seguro neste seu fim de estação e dá mostra de um amadorismo surpreendente.


De facto, a política bem comportada que o governo português tem seguido na dita guerra da palmeta surpreende-me e desagrada-me.

Não consigo conceber que um país como o Canadá estique a soberania legislando sobre território que não lhe pertence, viole de forma boçal o direito do mar, aborde em águas internacionais embarcações devidamente identificadas e navegando sob o pavilhão de um país com o qual o Canadá não está em guerra, aprese o navio e ainda se dê ao sublime preciosismo de processar o capitão do navio apresado por resistência à autoridade.


Mas qual autoridade?!

Que a Espanha envie navios de guerra (enviou hoje o terceiro, uma fragata, desmentindo o nosso inábil primeiro ministro) para garantir que se mantenham abertas as vias de navegação e a faina da frota pesqueira, livre da interferência de piratas, ou outras, é apenas o que se espera da marinha de guerra de qualquer país em tempo de paz.


Não vejo, é claro, a Espanha a invadir o Canadá, mas vejo-a decidida a garantir aos seus pescadores o livre acesso aos mares internacionais. As fragatas espanholas têm, aparentemente, uma missão mais nobre que fazer tiros de salva e passear ministros.

Imagino que se algum navio português fôr apresado, o nosso PM manterá o discurso sensato de que há que negociar a sua libertação e... as quotas de pescado. Mas será aceitável negociar o quer que seja com um país que viola os acordos em vigor, que ele próprio subscreveu?

E no meio disto tudo, para que nos serve a Europa dos 15?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Eleições: tem experiência anterior?


Sr Director (Público):

Confesso-me perplexo com a falta de elevação que tem caracterizado a campanha eleitoral (incluo nela a pré campanha, já que pouco ou nada de substancial as distingue). Em particular, a argumentação base da campanha do Prof Cavaco (experiência governativa anterior) parece-me pouco relevante como critério para encontrar um bom Presidente, quer para o sucesso da campanha.

O Prof Cavaco parece ter uma visão estritamente carreirista da política, a ponto de apresentar como principal requisito de um candidato a Presidente da República a experiência governativa anterior (de preferência como Primeiro Ministro); a principal virtude de um candidato a Primeiro Ministro seria a experiência governativa anterior (de preferência como Ministro) e, assim sucessivamente.

O Prof Cavaco chegou ao extremo de afirmar que foram a experiência e os conhecimentos adquiridos pelo Dr Mário Soares como Ministro dos Negócios Estrangeiros e como Primeiro Ministro que o habilitaram para o papel de presidente. Aparentemente, toda a vivência do Dr Soares até chegar a Ministro (nomeadamente os tempos na oposição a Salazar e Caetano) de nada valem aos olhos do Dr Cavaco: não são experiência governativa, não são curriculum relevante.

Recorde-se que durante a campanha para as legislativas, o cavalo de batalha do PSD contra Guterres foi a falta de experiência governativa deste (que conduziria o país ao caos)*; em contrapartida, essa experiência sobejava ao Dr Nogueira. Este argumento não colheu junto dos eleitores, e o Dr Nogueira perdeu as eleições.

A campanha do Dr Cavaco parece querer seguir o mesmo caminho.

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(*) Sabemos agora (em 2009) que tinha toda a razão: Guterres foi um flop completo como Primeiro Ministro...

sábado, 2 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Cuidado, meninos!

Sr Director (Público):

Acompanhei desde o início da noite de ontem os noticiários sobre o acidente que vitimou três jovens praças e feriu outros seis, entre portugueses e italianos. Do que se noticiou e do que várias pessoas, militares e civis, disseram sobre o assunto, ficaram-me duas dúvidas por esclarecer:

1. Onde estavam os oficiais?

2. Aqueles militares tiveram instrução sobre o que fazer perante um engenho explosivo não detonado? (estariam, sequer, informados da existência de tais objectos?)

Começando pela segunda dúvida, parece-me que a tropa não foi convenientemente instruída de que a missão de paz comporta riscos (não é um pic nic, como pensaram os americanos no início da aventura na Somália), de que há uma guerra que está apenas suspensa, que a área onde vão actuar poderá estar minada, armadilhada ou que simplesmente alguns dos engenhos explosivos provenientes de bombardeamentos poderão não ter explodido.

Nestes casos, o que é habitual fazer (não falo de “ouvir dizer”: estive nove anos na tropa, com uma comissão no mato em Angola, a comandar um pelotão de sapadores) é assinalar o “achado”, isolar a zona e chamar o graduado, a quem competiria tomar uma decisão: chamar os sapadores, destruir o engenho no local, desarmá-lo (e o oficial não mandaria o cabo fazê-lo, muito menos numa caserna com mais pessoas...) ou simplesmente declará-lo inócuo.

Apanhar o engenho e trazê-lo para a caserna é perfeitamente impensável para uma tropa a quem foi ministrada uma instrução adequada (é óbvio de que o não foi, no caso vertente).

Quanto à ausência de oficiais em todo este caso, parece-me extremamente preocupante: os militares, além de mal instruídos, parecem estar entregues a si próprios a ponto de manusearem um objecto potencialmente perigoso sem primeiro procurarem o seu oficial (o comandante de pelotão ainda estaria em Lisboa? ou em Split? teria saído após o “toque de ordem”? ou será, simplesmente, um personagem distante, que o soldadinho nem se lembra de consultar?...).

Registo com extremo desagrado as palavras do Brigadeiro François Martins que, ao que percebi, aventou a possibilidade de incompetência das vítimas no manuseio do engenho, esquecendo-se de referir a incompetência de quem as instruiu tão mal. Naturalmente que não concordo com o Sr Brigadeiro quando, num tom quase folgazão, diz que isto podia ter acontecido em qualquer sítio, não tendo relação directa com a presente missão.

Ao ouvi-lo discorrer ex-cátedra, na sua qualidade de “especialista em estratégia e defesa”, tive saudades do Dr Sousa Tavares (Pai, na foto) quando, alguns anos atrás, se encarniçava com desassombro contra os generais sentados à manjedoura do orçamento geral do estado, etc, etc, etc...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Constituição, preâmbulo a la gauche


Sr Director (Público):

O PP deu há pouco o pontapé de saída para um nova revisão da Constituição. Um dos pontos referidos foi a eliminação do preâmbulo, intocado desde 1976, quando a versão original da Constituição foi elaborada, votada e promulgada.

Desde então o articulado sofreu diversas modificações, que adequaram o seu texto aos tempos novos, menos marcados pelos ardores revolucionários que dominavam em 75-76 e que condicionaram os trabalhos da Constituinte.

Assim, o Artº 1º que determinava em 1976 que a República Portuguesa estava “...empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes”, determina hoje o empenho “...na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”.

O Artº 2º consagrava o objectivo de “...assegurar a transição para o socialismo”, objectivo que na actual versão foi cortado.

É interessante recordar que em 1976 apenas o então CDS, de Freitas do Amaral e Amaro da Costa, votou contra a Constituição, (e honra lhe seja!) enquanto o então PPD, de Sá Carneiro, votava alegremente o texto que consagrava a sociedade sem classes e a transição para o socialismo.

Só estas alterações bastavam para tornar inadequado o preâmbulo, rico em linguagem folclórica (fruta da época...), onde se afirma a “decisão do povo português” de “...abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português...”.

Ora a vontade do eleitorado português (que, à falta de melhor, representa o dito povo) expressa em vários actos eleitorais depois de 1976, permitiu alterar o texto da Constituição no que ele tinha de direccionado para um modelo político que está longe de ser consensual.

Para quê, então, manter tal preâmbulo?


Por que não deixá-lo ligado ao texto constitucional de 1976, e separá-lo, simplesmente, do texto actual?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - As broncas do Governo do Guterres


Sr Director (Público):

O governo PS já leva mais de 100 dias em funções, e há um aspecto a que nos vai habituando (para não falar noutros): a inabilidade para “estar” com os media, proporcionando bastantes cenas caricatas, dando a imagem de um governo pataqueiro e deixando antegozar as broncas e gafes que se seguirão.

Naturalmente que isto não se aplicará aos políticos veteranos como Jaime Gama, que as gafes de Guterres serão sempre esbatidas e emendadas pela habilidade verbal (e pedalada política). É certo, por outro lado, que já houve uma vassourada valente que evitou mais e maiores broncas do secretário-de-estado-dos-reembolsos-das-portagens. Temos, contudo, muito a esperar do ministro Bessa (não volta aos Palops tão cedo...) e da sua coesa equipa, com o comissário político Manuel dos Santos
[1] e o epistolar Ismael na dobra.

Da elegantíssima ministra da qualificação (o nome do ministério escapa-me completamente...) também há imenso a esperar já que mais não seja a consolidação do desemprego (passará de conjuntural a estrutural, suponho) e, para não me alongar na lista, há que estar atento ao desempenho do secretário de estado (das Obras Públicas, creio) que acorreu prontamente ao local do acidente na vala da nova ponte para ver por si próprio o que se passara.

O inexperiente senhor não percebeu que não tinha que resolver nada no local (muito menos que prometer), e foi acometido por uma vontade louca de falar, de ajudar (tão bonzinho!!), de dizer o que se iria fazer, o que iria proibir, quem iria realojar, quem iria ser realojado, que Loures ia dar tantas casas, etc, etc.

Assistiu-se, depois, ao saborosíssimo episódio de Demétrio Alves a desmentir o membro do governo, a Lusoponte dizer que o dito estava errado, o Gattel a justificar a gafe com uma interpretação deficiente do incontinente (verbal) secretário de estado, enfim: um gozo!

É bom que os membros do governo sem traquejo, não esqueçam que as decisões não têm que ser tomadas na rua, em cima do joelho: no local da ocorrência, “está-se”, ouvem-se as pessoas, e fala-se pouco (a presença do membro do governo já diz muito).

Acima de tudo nunca esquecer que “quem muito fala, pouco acerta”. Neste campo, podemos considerar o governo PS um caso precoce de sucesso!

. . . . .

NOTA:

[1] Não é preciso ser muito observador, para ver que alguns dos ministros independentes são “compensados” por secretários de estado “políticos” (Economia, Ambiente, etc).

terça-feira, 28 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Terrorismo ou Secessão


Sr Director (Expresso):

Esta semana a ETA voltou à actividade assassinando mais uma pessoa, não deixando que a questão basca casse demasiado tempo esquecida. Em Londres, o IRA voltou a fazer das suas, e desta vez em grande: as marcas deixadas nas Docklands (e as mortes provocadas) mostram bem que a questão irlandesa não ficou resolvida em 1916 (com a independência do Eire, tirada “a ferros”).

O ponto comum a estes factos que quero destacar não é a violência indiscriminada ou não, mas o que ela indicia: a possível vontade de uma parte da população da Irlanda do Norte e do País Basco quererem a separação.

A Inglaterra cedeu no Eire em 1916, mas manteve o Ulster até hoje. A Espanha, para além de uma certa autonomia (dentro do Reino), não cedeu. Ambos os países têm regimes democráticos (a Inglaterra desde há séculos). Ambos os países respondem a qualquer tentativa de secessão com a violência, com a guerra.

Esta intransigência face à secessão irmana países democráticos e totalitários: a Índia na Cachemira, a Inglaterra em Gibraltar, a França na Córsega, o Sri Lanka face aos Tamiles, a China no Tibete, o Iraque e Turquia face aos Curdos, a Indonésia em Timor, os Estados Unidos face à Confederação (a Constituição americana era bàsicamente o que é hoje), etc, etc, etc.

A Rússia, terminado o período permissivo que permitiu o desmembramento da URSS, lá está na Tchetchénia a evitar que a Pátria (?) se divida, se apouque, matando a torto e a direito, reféns e sequestradores.

Será esta a forma esperada de resolver as questões em democracia? Não estarão todos os habitantes de um país democrático, membro da ONU, abrangidos pela sua Carta que garante aos povos o direito à autodeterminação?

Ou esse direito “caducou” com as independências das colónias em África?

Considero que aos crimes ditos políticos deve ser aplicado, tout court, o Código Penal, não sendo aceitável que os cidadãos cometam crimes para chamar a atenção para os seus anseios. Um assassinato é o que é qualquer que seja o motivo que levou a cometê-lo. O Estado não deve, contudo, ignorar e deixar de interpretar os sinais que uma erupção de violência pode transmitir.

Quando há indícios sérios de que a população de uma região poderá maioritàriamente querer separar-se do país a que pertence, penso que o que há a fazer é verificar se esse querer é ou não maioritário (por referendo, claro), em vez de reprimir as vozes que manifestam esse desiderato.

Foi pelo voto que a Checoslováquia se dividiu pacìficamente em dois países, e tem sido pelo voto que o Quebec se tem mantido no Canadá. A repressão das tendências centrífugas começa na censura e nas bastonadas e prossegue numa espiral de violência donde é cada vez mais difícil sair.

Que indícios sérios são necessários para que o governo Espanhol se interesse em saber (pelo voto) qual a percentagem dos bascos que querem ser independentes?

De Franco para Gonzalez, o que há de novo neste campo?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Stress de guerra II

Ao Notícias Magazine - “Faça-se ouvir”

O número do passado domingo inclui um dossier respeitante a “Atrocidades da Guerra Colonial”, com fotografias que dão uma ideia do clima que se viveu nos primeiros tempos da guerra em Angola, em particular no período que se seguiu às matanças de 15 de Março de 1961.


Nessa época eu era miúdo, estava em Nova Lisboa (actual Huambo), e lembro-me bem da onda de medo (e também de indignação, e de sede de vingança) que se propagou a toda a Angola, e que conduziu ao armamento maciço da população branca e à criação de milícias de autodefesa. Anos mais tarde fiz uma comissão no Norte de Angola (Quibaxe e Catete), onde estava quando se deu o 25 de Abril.

Voltando ao dossier do Notícias Magazine, ele inclui um texto sobre o stress de guerra, doença que terá atingido uma boa parte dos soldados que combateram em África, e que ainda hoje “vivem” as experiências que os traumatizaram há mais de 20 anos. Só que este tema permite sempre a mistura de alhos com bugalhos, o que é deveras desagradável. Vejamos dois casos:

1. O Sr J.S. mistura a descrição da sua doença com a alusão a “alguns ex-combatentes e oficiais que estão doentes porque a guerra acabou. (...) que faziam duas e três comissões voluntàriamente. São os que continuam a defender ideias colonialistas e racistas (...) que cometeram massacres (...) mas que não se sentem culpados.” Não me consta que o stress pós traumático só atinja os “bonzinhos”, nem que a ele estejam imunes os racistas e colonialista (actuais e de antanho). Será que o Sr JS os considera responsáveis (culpados!) pelos seus padecimentos?

2. O Dr Albuquerque descreve o caso de um oficial de informações que logo no primeiro interrogatório espancou o prisioneiro (imitando o Pide), estrangulou-o e... teve um orgasmo! Continuou a espancar, a estrangular e a ter orgasmos. Parece-me que este caso está manifestamente “fora do baralho”, e que a pessoa em questão não ficou doente por causa da guerra. Quando muito, a guerra agravou a sua doença, ao retirá-lo da sociedade civil, onde podia ter orgasmos, mas não podia bater nem estrangular ninguém impunemente, mergulhando-o num ambiente onde as suas tendências (para não dizer taras) tiveram plena realização. Por outro lado, parece-me grotesca a referência ao Pide, que terá dado o mau exemplo ao alferes: o que sucedeu foi que a semente encontrou terreno tão fértil, tão bom, que germinou logo à primeira (se me permite a metáfora).

A concluir, diria que há que tentar discernir entre o que a guerra fez a pessoas que eram sãs e equilibradas, e o que aconteceu a pessoas que foram mobilizadas já doentes, vulneráveis e indefesas contra as situações extremas que a guerra proporciona.

O tratamento dos doentes terá mais probabilidades de sucesso se conhecermos a causa da doença de que padecem, em vez de assumirmos a priori que ela surgiu com a guerra e por causa dela.

domingo, 26 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Ai os números...

Sr Director (Independente):


Na revista VIDA, suplemento do Indy, do passado sábado, a rubrica INFORMAÇÕES INÚTEIS informava que o país mais populoso da África negra é o Zaire.

Permita-me que refira que tal informação, para além de inútil, é incorrecta, a menos que o vosso conceito de África Negra seja diferente do meu. Se assim fôr, é possível que a Nigéria não pertença à África Negra e então, o Zaire será mesmo o seu país mais populoso (os etíopes são mais numerosos, mas não são tão escuros...).

É que a Nigéria tem mais do dobro da população do Zaire, negros na sua esmagadora maioria. Lembro-me que no início dos anos sessenta, antes da explosão demográfica e do advento das grandes concentrações urbanas, Ibadan era considerada o maior centro populacional da África negra [1]. Ora Ibadan fica precisamente na Nigéria.

Por favor, corrijam o erro.

Acho muito mal que uma publicação com a qualidade do Indy (não perco um número há mais de quatro anos) se dê ao luxo de imprimir bacoradas que induzem em erro muito boa gente que não tem informação para as reconhecer como tal.

Recordo que há uns meses largos me abespinhei com o Sr Sousa Jamba [2] quando afirmava que com Boutros Ghali, a ONU é, pela primeira vez, dirigida por um não branco. Esquecia-se de U Thant , ou, simplesmente, desconhecia tal personagem.

Lamentàvelmente, o Indy nunca fez a devida correcção, o que é mau.

. . . .

NOTA:

[1] Leopoldville era um pálido embrião do que viria a ser Kinshasa, Lagos não ultrapassara ainda Ibadan, e o Cairo, se bem que fosse já a mais populosa cidade de África, fica fora da África Negra.


[2] Um não-ignorante emplumado, da UNITA, que acompanhou o Muata até ao fim. Devia estar distraído porque não é nada provável que desconhecesse a existência de U Thant.

sábado, 25 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96, Faz que anda mas não anda


Sr Director (PÚBLICO):

No número de hoje (30/3) a coluna “Semana política” assinala a vitória de Joaquim Furtado no seu braço de ferro com a Presidente do CA da RTP. Manuela Morgado figura também nessa rubrica como uma das personalidades derrotadas da semana. Parece-me uma classificação justíssima, já que desde há algum tempo transpirava para o domínio público um clima de confronto crescente entre a Administração (mandatada pelo Governo para fazer o saneamento das contas da empresa) e a Direcção de Informação e Programas (representando o status quo da casa).

Parece-me lamentável este desenlace, pois sugere que o Governo não tem uma posição firme sobre o saneamento da RTP. Será que não esperava que Manuela Morgado fizesse ondas e encarasse o cargo como uma sinecura (um tacho, para falar claro)? Ou será que o Governo esperava que uma empresa cheia de vícios (ou serão conquistas dos trabalhadores?) não resistisse tenazmente a todas as medidas de controlo, ou que conduzissem a apertos de cinto, numa primeira fase, e a reduções de efectivos na seguinte?

Aparentemente, o Governo pretende continuar alegremente a injectar o dinheiro de todos nós numa empresa falida que, supostamente, presta um serviço público. Só que a RTP concorre com as privadas a quem disputa audiências e uma fatia do mercado publicitário, sem com elas repartir os proventos que lhe advêm da prestação do tal serviço público (cujos contornos são bastantes nebulosos). A concorrência é manifestamente desleal!

A nova Administração teve, neste incidente, uma indicação clara do que o Governo PS espera dela, e que vale mais que um punhado de directivas. A sua missão pode sintetizar-se numa simples frase:

FAZ QUE ANDA, MAS NÃO ANDA.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Vê como falas, menina!


Sr Director (Independente):

A página “Verdade ou Consequência” da Vida do passado sábado é preenchida com uma entrevista a D. Isabel de Bragança. Acho interessante que se entreviste a Senhora, pois, quando menos se espera é restaurada a Monarquia, e convém que vamos conhecendo a nossa Rainha.

D. Isabel concluiu a entrevista com uma pequena tirada em inglês, o que se perdoa, desde que não exagere: os nossos Reis (mesmo enquanto ainda o não são) devem privilegiar o uso da língua portuguesa e quem não compreender, que meta intérprete!

O que me parece mal, é que a nossa putativa futura Rainha ao utilizar uma língua estrangeira o faça pontapeando a gramática. Se lhe dá para falar inglês (francês ou outro idioma), que o faça correctamente! Ora D. Isabel terá dito que os ingleses usam a expressão “What you don’t know, don’t harms you”.

Se bem me lembro, a forma enfática constrói-se com o verbo no infinito (harm, sem s), conjugando-se o auxiliar to do no tempo e pessoa que se pretende exprimir. No caso presente seria o tempo presente, na terceira pessoa do singular, ou seja doesn’t. Assim, os ingleses dirão correctamente “What you don’t know, doesn’t harm you”.

É claro que se D. Isabel se exprimiu correctamente, e o erro foi da transcrição feita pela D. Manuela Carona, parece-me que deve ser feita a devida correcção, para desagravo da nossa Duquesa.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Só os Amaricanos?!!!!


Sr Director (PÚBLICO):

No número do passado dia 28/3, vinha nesta secção uma carta com o título “Angola, a UNITA e os USA”, cujo conteúdo me merece algumas considerações. O sr Bernardino Machado, que o subscreve, parece ter um parti pris contra os camones de além Atlântico que, aparentemente, não o deixa ver claramente algumas situações. Concretizando:

1. As minas que em Angola ceifaram pernas e vidas (angolanas e portuguesas) não foram só colocadas pela Unita. Antes do 25 de Abril, os destacamentos portugueses isolados no mato eram protegidos, muitas vezes por zonas minadas. Por seu lado, o MPLA e FNLA, para além da UNITA armadilhavam os itinerários por onde as nossas tropas circulavam. Terão todas as minas sido levantadas antes do regresso das caravelas? E os itinerários terão sido desarmadilhados? Não me parece.

Depois da independência, o governo da RPAngola teve cidades sitiadas durante muitos anos, só acessíveis por ar (Menongue, Huambo, Lubango, Kuito, Luena, para não me alongar) em torno das quais os sitiados instalaram campos de minas.

Quando a Unita começou a cortar periòdicamente a energia eléctrica a Luanda derrubando postes de alta tensão (o que valeu a Savimbi a alcunha de “Robin dos postes”), estes passaram a ser protegidos por campos de minas. Acha o sr BM que estes campos de minas foram todos levantados?

2. No Afeganistão, não percebo como é que o Sr BM vê a mão americana e não vislumbra a soviética. Os mujahedines eram apoiados pelos states, e as suas acções eram predominantemente de ataque às colunas dos soviéticos (que invadiram o país e nele se atolaram). Com o evoluir da situação, passaram a sitiar destacamentos militares e cidades, em torno dos quais os sitiados instalavam campos de minas (mais que seguramente fornecidas pelos seus apoiantes soviéticos).

Após a saída dos sóvias, em 1989, a situação não se alterou significativamente, continuando os rebeldes as acções de guerrilha, com as forças governamentais na defensiva. Ora os campos de minas são usados, por via de regra, pelos sitiados para deter o avanço dos sitiantes. Com a derrota de Najibulah em 1992, e a tomada do poder pelos rebeldes, será que todos os campos de minas foram localizados e desactivados?

3. No Vietname, dou-lhe razão. Parece que os americanos não só deixaram minados os arredores dos suas bases, como deixaram parte dos solos contaminados com dioxinas (do agente laranja) e outros que tais.

4. Quanto à bucólica Jugoslávia a que se refere, parece-me redutor acusar alemães, amigos dos “velhos nazistas croácios” (sic), de terem lançado uma campanha para a destruir. A paz em que a Jugoslávia vivia há décadas era o que se pode chamar uma paz podre: um só chefe, o marechal Tito, um só partido, o comunista, um só país, a Jugoslávia. Tito morreu, e imediatamente as tendências centrífugas prevaleceram sobre os devaneios do marechal. Afinal os sérvios, croatas, bósnios, albaneses do Kosovo, eslovenos, montenegrinos pouco têm em comum (língua? religião?...) que justificasse a continuação da Jugoslávia.

A resistência contra o invasor alemão, principal cimento da união no pós guerra já só é lembrada pelos avôs: para os netos já só se lembram de quem lhes matou o irmão, o amigo, a namorada. O resto, é treta.

Esta ideia do Sr BM de imputar responsabilidades a um país grande, poderoso e perverso que puxa os cordelinhos dos seus fantoches, faz-me lembrar os tempos gloriosos da minha juventude em que tudo era explicado em termos de russos ou americanos.

Que diabo, que tal responsabilizar pela guerra na Jugoslávia os sérvios, os croatas e bósnios? Serão eles ovelhinhas inocentes (verdadeiros agnus dei) que só dão tiros e lançam bomblets porque há uns malandros estrangeiros que lhos vendem?

E para além dos chefes militares e políticos, que tal responsabilizar também a população, que fàcilmente vai atrás de ideias mobilizadoras do tipo “fora com os muçulmanos!”, “fora com os cristãos!”, “os sérvios é que têm a culpa disto!”, “morte aos pretos!”, “morte aos skins!”, “morte aos judeus!”, e que passa ràpidamente da palavra ao murro e do murro ao tiro?

terça-feira, 21 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Lavoisier, Generais e outros que tais

Se quiser ler o livro ANGOLA - Recordações da Tropa, clique aqui .
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Sr Director (Público):

No passado sábado (ou talvez, na passada sexta feira) assisti de passagem a um programa duma das nossas televisões, em que o Sr General Almeida Bruno (putativo candidato à presidência do Benfica, numa foto da Guiné, como major) dizia de sua justiça sobre os magnos problemas que afligem aquele clube. Sobre se o património deveria ser alienado, rentabilizado, etc, produziu, a alturas tantas, um floreado de linguagem, qualquer coisa próximo de:

... como diz o ditado, nada se perde, tudo se transforma.

É natural que o Sr General tenha lido umas coisas de química, para além dos livros da cavalaria (como “A arte de bem cavalgar em toda a sela” do Sr D. Duarte, nosso Rei; não confundir com o Sr D. Duarte Pio, nosso Duque). É natural também que não se aperceba que este “ditado” que lhe ficou encolhido num canto da memória não é mais que o princípio de Lavoisier (que poderia ser justamente considerado o pai da química moderna, a par do pai da física moderna - Sir Isaac Newton).

Lavoisier constatou que “na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

E já agora, recordo uma historieta (será verdadeira?) sobre livros, generais e outros que tais que talvez venha a propósito:

Na véspera do aniversário do General, os membros do seu estado maior reuniram-se para decidirem o que lhe iriam oferecer.

Vamos dar uma espada de Toledo ao nosso General”, disse um jovem oficial, impante com o brilho e originalidade da sua ideia.

Espadas, e das melhores, já o nosso General tem muitas”, responderam a uma só voz os mais antigos.

Então, vamos dar-lhe um cavalo árabe”, alvitrou de pronto o mesmo oficial.

“O nosso General já tem a cavalariça bem recheada, e, além disso, o reumático já não o deixa montar a preceito”, informaram os mais antigos, veteranos de outras reuniões semelhantes.

Podíamos dar-lhe um livro...” sugeriu (quase a medo) o intelectual do grupo, lá do seu canto.

O nosso General já tem!” cortaram de imediato os restantes.

(pano rapidíssimo...)