sexta-feira, 8 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Palmeta I


Sr Director (Público):

Há poucos dias o nosso primeiro Ministro apareceu na televisão afirmando com veemência que a Espanha não tinha enviado barcos de guerra (“É mentira!” clamou, e repetiu, o Prof Cavaco) para os mares da Terra Nova mas tão sòmente dois navios sem armas e levando a bordo fiscais da NAFO.

Esta imprudência em fazer afirmações veementes sobre factos que não domina, arriscando-se a que os acontecimentos subsequentes o venham a desmentir, sugere um PM pouco seguro neste seu fim de estação e dá mostra de um amadorismo surpreendente.


De facto, a política bem comportada que o governo português tem seguido na dita guerra da palmeta surpreende-me e desagrada-me.

Não consigo conceber que um país como o Canadá estique a soberania legislando sobre território que não lhe pertence, viole de forma boçal o direito do mar, aborde em águas internacionais embarcações devidamente identificadas e navegando sob o pavilhão de um país com o qual o Canadá não está em guerra, aprese o navio e ainda se dê ao sublime preciosismo de processar o capitão do navio apresado por resistência à autoridade.


Mas qual autoridade?!

Que a Espanha envie navios de guerra (enviou hoje o terceiro, uma fragata, desmentindo o nosso inábil primeiro ministro) para garantir que se mantenham abertas as vias de navegação e a faina da frota pesqueira, livre da interferência de piratas, ou outras, é apenas o que se espera da marinha de guerra de qualquer país em tempo de paz.


Não vejo, é claro, a Espanha a invadir o Canadá, mas vejo-a decidida a garantir aos seus pescadores o livre acesso aos mares internacionais. As fragatas espanholas têm, aparentemente, uma missão mais nobre que fazer tiros de salva e passear ministros.

Imagino que se algum navio português fôr apresado, o nosso PM manterá o discurso sensato de que há que negociar a sua libertação e... as quotas de pescado. Mas será aceitável negociar o quer que seja com um país que viola os acordos em vigor, que ele próprio subscreveu?

E no meio disto tudo, para que nos serve a Europa dos 15?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Eleições: tem experiência anterior?


Sr Director (Público):

Confesso-me perplexo com a falta de elevação que tem caracterizado a campanha eleitoral (incluo nela a pré campanha, já que pouco ou nada de substancial as distingue). Em particular, a argumentação base da campanha do Prof Cavaco (experiência governativa anterior) parece-me pouco relevante como critério para encontrar um bom Presidente, quer para o sucesso da campanha.

O Prof Cavaco parece ter uma visão estritamente carreirista da política, a ponto de apresentar como principal requisito de um candidato a Presidente da República a experiência governativa anterior (de preferência como Primeiro Ministro); a principal virtude de um candidato a Primeiro Ministro seria a experiência governativa anterior (de preferência como Ministro) e, assim sucessivamente.

O Prof Cavaco chegou ao extremo de afirmar que foram a experiência e os conhecimentos adquiridos pelo Dr Mário Soares como Ministro dos Negócios Estrangeiros e como Primeiro Ministro que o habilitaram para o papel de presidente. Aparentemente, toda a vivência do Dr Soares até chegar a Ministro (nomeadamente os tempos na oposição a Salazar e Caetano) de nada valem aos olhos do Dr Cavaco: não são experiência governativa, não são curriculum relevante.

Recorde-se que durante a campanha para as legislativas, o cavalo de batalha do PSD contra Guterres foi a falta de experiência governativa deste (que conduziria o país ao caos)*; em contrapartida, essa experiência sobejava ao Dr Nogueira. Este argumento não colheu junto dos eleitores, e o Dr Nogueira perdeu as eleições.

A campanha do Dr Cavaco parece querer seguir o mesmo caminho.

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(*) Sabemos agora (em 2009) que tinha toda a razão: Guterres foi um flop completo como Primeiro Ministro...

sábado, 2 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Cuidado, meninos!

Sr Director (Público):

Acompanhei desde o início da noite de ontem os noticiários sobre o acidente que vitimou três jovens praças e feriu outros seis, entre portugueses e italianos. Do que se noticiou e do que várias pessoas, militares e civis, disseram sobre o assunto, ficaram-me duas dúvidas por esclarecer:

1. Onde estavam os oficiais?

2. Aqueles militares tiveram instrução sobre o que fazer perante um engenho explosivo não detonado? (estariam, sequer, informados da existência de tais objectos?)

Começando pela segunda dúvida, parece-me que a tropa não foi convenientemente instruída de que a missão de paz comporta riscos (não é um pic nic, como pensaram os americanos no início da aventura na Somália), de que há uma guerra que está apenas suspensa, que a área onde vão actuar poderá estar minada, armadilhada ou que simplesmente alguns dos engenhos explosivos provenientes de bombardeamentos poderão não ter explodido.

Nestes casos, o que é habitual fazer (não falo de “ouvir dizer”: estive nove anos na tropa, com uma comissão no mato em Angola, a comandar um pelotão de sapadores) é assinalar o “achado”, isolar a zona e chamar o graduado, a quem competiria tomar uma decisão: chamar os sapadores, destruir o engenho no local, desarmá-lo (e o oficial não mandaria o cabo fazê-lo, muito menos numa caserna com mais pessoas...) ou simplesmente declará-lo inócuo.

Apanhar o engenho e trazê-lo para a caserna é perfeitamente impensável para uma tropa a quem foi ministrada uma instrução adequada (é óbvio de que o não foi, no caso vertente).

Quanto à ausência de oficiais em todo este caso, parece-me extremamente preocupante: os militares, além de mal instruídos, parecem estar entregues a si próprios a ponto de manusearem um objecto potencialmente perigoso sem primeiro procurarem o seu oficial (o comandante de pelotão ainda estaria em Lisboa? ou em Split? teria saído após o “toque de ordem”? ou será, simplesmente, um personagem distante, que o soldadinho nem se lembra de consultar?...).

Registo com extremo desagrado as palavras do Brigadeiro François Martins que, ao que percebi, aventou a possibilidade de incompetência das vítimas no manuseio do engenho, esquecendo-se de referir a incompetência de quem as instruiu tão mal. Naturalmente que não concordo com o Sr Brigadeiro quando, num tom quase folgazão, diz que isto podia ter acontecido em qualquer sítio, não tendo relação directa com a presente missão.

Ao ouvi-lo discorrer ex-cátedra, na sua qualidade de “especialista em estratégia e defesa”, tive saudades do Dr Sousa Tavares (Pai, na foto) quando, alguns anos atrás, se encarniçava com desassombro contra os generais sentados à manjedoura do orçamento geral do estado, etc, etc, etc...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

OPINIÃO 95-96 - Constituição, preâmbulo a la gauche


Sr Director (Público):

O PP deu há pouco o pontapé de saída para um nova revisão da Constituição. Um dos pontos referidos foi a eliminação do preâmbulo, intocado desde 1976, quando a versão original da Constituição foi elaborada, votada e promulgada.

Desde então o articulado sofreu diversas modificações, que adequaram o seu texto aos tempos novos, menos marcados pelos ardores revolucionários que dominavam em 75-76 e que condicionaram os trabalhos da Constituinte.

Assim, o Artº 1º que determinava em 1976 que a República Portuguesa estava “...empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes”, determina hoje o empenho “...na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”.

O Artº 2º consagrava o objectivo de “...assegurar a transição para o socialismo”, objectivo que na actual versão foi cortado.

É interessante recordar que em 1976 apenas o então CDS, de Freitas do Amaral e Amaro da Costa, votou contra a Constituição, (e honra lhe seja!) enquanto o então PPD, de Sá Carneiro, votava alegremente o texto que consagrava a sociedade sem classes e a transição para o socialismo.

Só estas alterações bastavam para tornar inadequado o preâmbulo, rico em linguagem folclórica (fruta da época...), onde se afirma a “decisão do povo português” de “...abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português...”.

Ora a vontade do eleitorado português (que, à falta de melhor, representa o dito povo) expressa em vários actos eleitorais depois de 1976, permitiu alterar o texto da Constituição no que ele tinha de direccionado para um modelo político que está longe de ser consensual.

Para quê, então, manter tal preâmbulo?


Por que não deixá-lo ligado ao texto constitucional de 1976, e separá-lo, simplesmente, do texto actual?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - As broncas do Governo do Guterres


Sr Director (Público):

O governo PS já leva mais de 100 dias em funções, e há um aspecto a que nos vai habituando (para não falar noutros): a inabilidade para “estar” com os media, proporcionando bastantes cenas caricatas, dando a imagem de um governo pataqueiro e deixando antegozar as broncas e gafes que se seguirão.

Naturalmente que isto não se aplicará aos políticos veteranos como Jaime Gama, que as gafes de Guterres serão sempre esbatidas e emendadas pela habilidade verbal (e pedalada política). É certo, por outro lado, que já houve uma vassourada valente que evitou mais e maiores broncas do secretário-de-estado-dos-reembolsos-das-portagens. Temos, contudo, muito a esperar do ministro Bessa (não volta aos Palops tão cedo...) e da sua coesa equipa, com o comissário político Manuel dos Santos
[1] e o epistolar Ismael na dobra.

Da elegantíssima ministra da qualificação (o nome do ministério escapa-me completamente...) também há imenso a esperar já que mais não seja a consolidação do desemprego (passará de conjuntural a estrutural, suponho) e, para não me alongar na lista, há que estar atento ao desempenho do secretário de estado (das Obras Públicas, creio) que acorreu prontamente ao local do acidente na vala da nova ponte para ver por si próprio o que se passara.

O inexperiente senhor não percebeu que não tinha que resolver nada no local (muito menos que prometer), e foi acometido por uma vontade louca de falar, de ajudar (tão bonzinho!!), de dizer o que se iria fazer, o que iria proibir, quem iria realojar, quem iria ser realojado, que Loures ia dar tantas casas, etc, etc.

Assistiu-se, depois, ao saborosíssimo episódio de Demétrio Alves a desmentir o membro do governo, a Lusoponte dizer que o dito estava errado, o Gattel a justificar a gafe com uma interpretação deficiente do incontinente (verbal) secretário de estado, enfim: um gozo!

É bom que os membros do governo sem traquejo, não esqueçam que as decisões não têm que ser tomadas na rua, em cima do joelho: no local da ocorrência, “está-se”, ouvem-se as pessoas, e fala-se pouco (a presença do membro do governo já diz muito).

Acima de tudo nunca esquecer que “quem muito fala, pouco acerta”. Neste campo, podemos considerar o governo PS um caso precoce de sucesso!

. . . . .

NOTA:

[1] Não é preciso ser muito observador, para ver que alguns dos ministros independentes são “compensados” por secretários de estado “políticos” (Economia, Ambiente, etc).

terça-feira, 28 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Terrorismo ou Secessão


Sr Director (Expresso):

Esta semana a ETA voltou à actividade assassinando mais uma pessoa, não deixando que a questão basca casse demasiado tempo esquecida. Em Londres, o IRA voltou a fazer das suas, e desta vez em grande: as marcas deixadas nas Docklands (e as mortes provocadas) mostram bem que a questão irlandesa não ficou resolvida em 1916 (com a independência do Eire, tirada “a ferros”).

O ponto comum a estes factos que quero destacar não é a violência indiscriminada ou não, mas o que ela indicia: a possível vontade de uma parte da população da Irlanda do Norte e do País Basco quererem a separação.

A Inglaterra cedeu no Eire em 1916, mas manteve o Ulster até hoje. A Espanha, para além de uma certa autonomia (dentro do Reino), não cedeu. Ambos os países têm regimes democráticos (a Inglaterra desde há séculos). Ambos os países respondem a qualquer tentativa de secessão com a violência, com a guerra.

Esta intransigência face à secessão irmana países democráticos e totalitários: a Índia na Cachemira, a Inglaterra em Gibraltar, a França na Córsega, o Sri Lanka face aos Tamiles, a China no Tibete, o Iraque e Turquia face aos Curdos, a Indonésia em Timor, os Estados Unidos face à Confederação (a Constituição americana era bàsicamente o que é hoje), etc, etc, etc.

A Rússia, terminado o período permissivo que permitiu o desmembramento da URSS, lá está na Tchetchénia a evitar que a Pátria (?) se divida, se apouque, matando a torto e a direito, reféns e sequestradores.

Será esta a forma esperada de resolver as questões em democracia? Não estarão todos os habitantes de um país democrático, membro da ONU, abrangidos pela sua Carta que garante aos povos o direito à autodeterminação?

Ou esse direito “caducou” com as independências das colónias em África?

Considero que aos crimes ditos políticos deve ser aplicado, tout court, o Código Penal, não sendo aceitável que os cidadãos cometam crimes para chamar a atenção para os seus anseios. Um assassinato é o que é qualquer que seja o motivo que levou a cometê-lo. O Estado não deve, contudo, ignorar e deixar de interpretar os sinais que uma erupção de violência pode transmitir.

Quando há indícios sérios de que a população de uma região poderá maioritàriamente querer separar-se do país a que pertence, penso que o que há a fazer é verificar se esse querer é ou não maioritário (por referendo, claro), em vez de reprimir as vozes que manifestam esse desiderato.

Foi pelo voto que a Checoslováquia se dividiu pacìficamente em dois países, e tem sido pelo voto que o Quebec se tem mantido no Canadá. A repressão das tendências centrífugas começa na censura e nas bastonadas e prossegue numa espiral de violência donde é cada vez mais difícil sair.

Que indícios sérios são necessários para que o governo Espanhol se interesse em saber (pelo voto) qual a percentagem dos bascos que querem ser independentes?

De Franco para Gonzalez, o que há de novo neste campo?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Stress de guerra II

Ao Notícias Magazine - “Faça-se ouvir”

O número do passado domingo inclui um dossier respeitante a “Atrocidades da Guerra Colonial”, com fotografias que dão uma ideia do clima que se viveu nos primeiros tempos da guerra em Angola, em particular no período que se seguiu às matanças de 15 de Março de 1961.


Nessa época eu era miúdo, estava em Nova Lisboa (actual Huambo), e lembro-me bem da onda de medo (e também de indignação, e de sede de vingança) que se propagou a toda a Angola, e que conduziu ao armamento maciço da população branca e à criação de milícias de autodefesa. Anos mais tarde fiz uma comissão no Norte de Angola (Quibaxe e Catete), onde estava quando se deu o 25 de Abril.

Voltando ao dossier do Notícias Magazine, ele inclui um texto sobre o stress de guerra, doença que terá atingido uma boa parte dos soldados que combateram em África, e que ainda hoje “vivem” as experiências que os traumatizaram há mais de 20 anos. Só que este tema permite sempre a mistura de alhos com bugalhos, o que é deveras desagradável. Vejamos dois casos:

1. O Sr J.S. mistura a descrição da sua doença com a alusão a “alguns ex-combatentes e oficiais que estão doentes porque a guerra acabou. (...) que faziam duas e três comissões voluntàriamente. São os que continuam a defender ideias colonialistas e racistas (...) que cometeram massacres (...) mas que não se sentem culpados.” Não me consta que o stress pós traumático só atinja os “bonzinhos”, nem que a ele estejam imunes os racistas e colonialista (actuais e de antanho). Será que o Sr JS os considera responsáveis (culpados!) pelos seus padecimentos?

2. O Dr Albuquerque descreve o caso de um oficial de informações que logo no primeiro interrogatório espancou o prisioneiro (imitando o Pide), estrangulou-o e... teve um orgasmo! Continuou a espancar, a estrangular e a ter orgasmos. Parece-me que este caso está manifestamente “fora do baralho”, e que a pessoa em questão não ficou doente por causa da guerra. Quando muito, a guerra agravou a sua doença, ao retirá-lo da sociedade civil, onde podia ter orgasmos, mas não podia bater nem estrangular ninguém impunemente, mergulhando-o num ambiente onde as suas tendências (para não dizer taras) tiveram plena realização. Por outro lado, parece-me grotesca a referência ao Pide, que terá dado o mau exemplo ao alferes: o que sucedeu foi que a semente encontrou terreno tão fértil, tão bom, que germinou logo à primeira (se me permite a metáfora).

A concluir, diria que há que tentar discernir entre o que a guerra fez a pessoas que eram sãs e equilibradas, e o que aconteceu a pessoas que foram mobilizadas já doentes, vulneráveis e indefesas contra as situações extremas que a guerra proporciona.

O tratamento dos doentes terá mais probabilidades de sucesso se conhecermos a causa da doença de que padecem, em vez de assumirmos a priori que ela surgiu com a guerra e por causa dela.

domingo, 26 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Ai os números...

Sr Director (Independente):


Na revista VIDA, suplemento do Indy, do passado sábado, a rubrica INFORMAÇÕES INÚTEIS informava que o país mais populoso da África negra é o Zaire.

Permita-me que refira que tal informação, para além de inútil, é incorrecta, a menos que o vosso conceito de África Negra seja diferente do meu. Se assim fôr, é possível que a Nigéria não pertença à África Negra e então, o Zaire será mesmo o seu país mais populoso (os etíopes são mais numerosos, mas não são tão escuros...).

É que a Nigéria tem mais do dobro da população do Zaire, negros na sua esmagadora maioria. Lembro-me que no início dos anos sessenta, antes da explosão demográfica e do advento das grandes concentrações urbanas, Ibadan era considerada o maior centro populacional da África negra [1]. Ora Ibadan fica precisamente na Nigéria.

Por favor, corrijam o erro.

Acho muito mal que uma publicação com a qualidade do Indy (não perco um número há mais de quatro anos) se dê ao luxo de imprimir bacoradas que induzem em erro muito boa gente que não tem informação para as reconhecer como tal.

Recordo que há uns meses largos me abespinhei com o Sr Sousa Jamba [2] quando afirmava que com Boutros Ghali, a ONU é, pela primeira vez, dirigida por um não branco. Esquecia-se de U Thant , ou, simplesmente, desconhecia tal personagem.

Lamentàvelmente, o Indy nunca fez a devida correcção, o que é mau.

. . . .

NOTA:

[1] Leopoldville era um pálido embrião do que viria a ser Kinshasa, Lagos não ultrapassara ainda Ibadan, e o Cairo, se bem que fosse já a mais populosa cidade de África, fica fora da África Negra.


[2] Um não-ignorante emplumado, da UNITA, que acompanhou o Muata até ao fim. Devia estar distraído porque não é nada provável que desconhecesse a existência de U Thant.

sábado, 25 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96, Faz que anda mas não anda


Sr Director (PÚBLICO):

No número de hoje (30/3) a coluna “Semana política” assinala a vitória de Joaquim Furtado no seu braço de ferro com a Presidente do CA da RTP. Manuela Morgado figura também nessa rubrica como uma das personalidades derrotadas da semana. Parece-me uma classificação justíssima, já que desde há algum tempo transpirava para o domínio público um clima de confronto crescente entre a Administração (mandatada pelo Governo para fazer o saneamento das contas da empresa) e a Direcção de Informação e Programas (representando o status quo da casa).

Parece-me lamentável este desenlace, pois sugere que o Governo não tem uma posição firme sobre o saneamento da RTP. Será que não esperava que Manuela Morgado fizesse ondas e encarasse o cargo como uma sinecura (um tacho, para falar claro)? Ou será que o Governo esperava que uma empresa cheia de vícios (ou serão conquistas dos trabalhadores?) não resistisse tenazmente a todas as medidas de controlo, ou que conduzissem a apertos de cinto, numa primeira fase, e a reduções de efectivos na seguinte?

Aparentemente, o Governo pretende continuar alegremente a injectar o dinheiro de todos nós numa empresa falida que, supostamente, presta um serviço público. Só que a RTP concorre com as privadas a quem disputa audiências e uma fatia do mercado publicitário, sem com elas repartir os proventos que lhe advêm da prestação do tal serviço público (cujos contornos são bastantes nebulosos). A concorrência é manifestamente desleal!

A nova Administração teve, neste incidente, uma indicação clara do que o Governo PS espera dela, e que vale mais que um punhado de directivas. A sua missão pode sintetizar-se numa simples frase:

FAZ QUE ANDA, MAS NÃO ANDA.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Vê como falas, menina!


Sr Director (Independente):

A página “Verdade ou Consequência” da Vida do passado sábado é preenchida com uma entrevista a D. Isabel de Bragança. Acho interessante que se entreviste a Senhora, pois, quando menos se espera é restaurada a Monarquia, e convém que vamos conhecendo a nossa Rainha.

D. Isabel concluiu a entrevista com uma pequena tirada em inglês, o que se perdoa, desde que não exagere: os nossos Reis (mesmo enquanto ainda o não são) devem privilegiar o uso da língua portuguesa e quem não compreender, que meta intérprete!

O que me parece mal, é que a nossa putativa futura Rainha ao utilizar uma língua estrangeira o faça pontapeando a gramática. Se lhe dá para falar inglês (francês ou outro idioma), que o faça correctamente! Ora D. Isabel terá dito que os ingleses usam a expressão “What you don’t know, don’t harms you”.

Se bem me lembro, a forma enfática constrói-se com o verbo no infinito (harm, sem s), conjugando-se o auxiliar to do no tempo e pessoa que se pretende exprimir. No caso presente seria o tempo presente, na terceira pessoa do singular, ou seja doesn’t. Assim, os ingleses dirão correctamente “What you don’t know, doesn’t harm you”.

É claro que se D. Isabel se exprimiu correctamente, e o erro foi da transcrição feita pela D. Manuela Carona, parece-me que deve ser feita a devida correcção, para desagravo da nossa Duquesa.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Só os Amaricanos?!!!!


Sr Director (PÚBLICO):

No número do passado dia 28/3, vinha nesta secção uma carta com o título “Angola, a UNITA e os USA”, cujo conteúdo me merece algumas considerações. O sr Bernardino Machado, que o subscreve, parece ter um parti pris contra os camones de além Atlântico que, aparentemente, não o deixa ver claramente algumas situações. Concretizando:

1. As minas que em Angola ceifaram pernas e vidas (angolanas e portuguesas) não foram só colocadas pela Unita. Antes do 25 de Abril, os destacamentos portugueses isolados no mato eram protegidos, muitas vezes por zonas minadas. Por seu lado, o MPLA e FNLA, para além da UNITA armadilhavam os itinerários por onde as nossas tropas circulavam. Terão todas as minas sido levantadas antes do regresso das caravelas? E os itinerários terão sido desarmadilhados? Não me parece.

Depois da independência, o governo da RPAngola teve cidades sitiadas durante muitos anos, só acessíveis por ar (Menongue, Huambo, Lubango, Kuito, Luena, para não me alongar) em torno das quais os sitiados instalaram campos de minas.

Quando a Unita começou a cortar periòdicamente a energia eléctrica a Luanda derrubando postes de alta tensão (o que valeu a Savimbi a alcunha de “Robin dos postes”), estes passaram a ser protegidos por campos de minas. Acha o sr BM que estes campos de minas foram todos levantados?

2. No Afeganistão, não percebo como é que o Sr BM vê a mão americana e não vislumbra a soviética. Os mujahedines eram apoiados pelos states, e as suas acções eram predominantemente de ataque às colunas dos soviéticos (que invadiram o país e nele se atolaram). Com o evoluir da situação, passaram a sitiar destacamentos militares e cidades, em torno dos quais os sitiados instalavam campos de minas (mais que seguramente fornecidas pelos seus apoiantes soviéticos).

Após a saída dos sóvias, em 1989, a situação não se alterou significativamente, continuando os rebeldes as acções de guerrilha, com as forças governamentais na defensiva. Ora os campos de minas são usados, por via de regra, pelos sitiados para deter o avanço dos sitiantes. Com a derrota de Najibulah em 1992, e a tomada do poder pelos rebeldes, será que todos os campos de minas foram localizados e desactivados?

3. No Vietname, dou-lhe razão. Parece que os americanos não só deixaram minados os arredores dos suas bases, como deixaram parte dos solos contaminados com dioxinas (do agente laranja) e outros que tais.

4. Quanto à bucólica Jugoslávia a que se refere, parece-me redutor acusar alemães, amigos dos “velhos nazistas croácios” (sic), de terem lançado uma campanha para a destruir. A paz em que a Jugoslávia vivia há décadas era o que se pode chamar uma paz podre: um só chefe, o marechal Tito, um só partido, o comunista, um só país, a Jugoslávia. Tito morreu, e imediatamente as tendências centrífugas prevaleceram sobre os devaneios do marechal. Afinal os sérvios, croatas, bósnios, albaneses do Kosovo, eslovenos, montenegrinos pouco têm em comum (língua? religião?...) que justificasse a continuação da Jugoslávia.

A resistência contra o invasor alemão, principal cimento da união no pós guerra já só é lembrada pelos avôs: para os netos já só se lembram de quem lhes matou o irmão, o amigo, a namorada. O resto, é treta.

Esta ideia do Sr BM de imputar responsabilidades a um país grande, poderoso e perverso que puxa os cordelinhos dos seus fantoches, faz-me lembrar os tempos gloriosos da minha juventude em que tudo era explicado em termos de russos ou americanos.

Que diabo, que tal responsabilizar pela guerra na Jugoslávia os sérvios, os croatas e bósnios? Serão eles ovelhinhas inocentes (verdadeiros agnus dei) que só dão tiros e lançam bomblets porque há uns malandros estrangeiros que lhos vendem?

E para além dos chefes militares e políticos, que tal responsabilizar também a população, que fàcilmente vai atrás de ideias mobilizadoras do tipo “fora com os muçulmanos!”, “fora com os cristãos!”, “os sérvios é que têm a culpa disto!”, “morte aos pretos!”, “morte aos skins!”, “morte aos judeus!”, e que passa ràpidamente da palavra ao murro e do murro ao tiro?

terça-feira, 21 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Lavoisier, Generais e outros que tais

Se quiser ler o livro ANGOLA - Recordações da Tropa, clique aqui .
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Sr Director (Público):

No passado sábado (ou talvez, na passada sexta feira) assisti de passagem a um programa duma das nossas televisões, em que o Sr General Almeida Bruno (putativo candidato à presidência do Benfica, numa foto da Guiné, como major) dizia de sua justiça sobre os magnos problemas que afligem aquele clube. Sobre se o património deveria ser alienado, rentabilizado, etc, produziu, a alturas tantas, um floreado de linguagem, qualquer coisa próximo de:

... como diz o ditado, nada se perde, tudo se transforma.

É natural que o Sr General tenha lido umas coisas de química, para além dos livros da cavalaria (como “A arte de bem cavalgar em toda a sela” do Sr D. Duarte, nosso Rei; não confundir com o Sr D. Duarte Pio, nosso Duque). É natural também que não se aperceba que este “ditado” que lhe ficou encolhido num canto da memória não é mais que o princípio de Lavoisier (que poderia ser justamente considerado o pai da química moderna, a par do pai da física moderna - Sir Isaac Newton).

Lavoisier constatou que “na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

E já agora, recordo uma historieta (será verdadeira?) sobre livros, generais e outros que tais que talvez venha a propósito:

Na véspera do aniversário do General, os membros do seu estado maior reuniram-se para decidirem o que lhe iriam oferecer.

Vamos dar uma espada de Toledo ao nosso General”, disse um jovem oficial, impante com o brilho e originalidade da sua ideia.

Espadas, e das melhores, já o nosso General tem muitas”, responderam a uma só voz os mais antigos.

Então, vamos dar-lhe um cavalo árabe”, alvitrou de pronto o mesmo oficial.

“O nosso General já tem a cavalariça bem recheada, e, além disso, o reumático já não o deixa montar a preceito”, informaram os mais antigos, veteranos de outras reuniões semelhantes.

Podíamos dar-lhe um livro...” sugeriu (quase a medo) o intelectual do grupo, lá do seu canto.

O nosso General já tem!” cortaram de imediato os restantes.

(pano rapidíssimo...)


segunda-feira, 20 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Crime e castigo (a la PS)

Sr Director (Público):

Segundo os noticiários da manhã de hoje, o Dr Murteira Nabo terá sido convidado pelo Ministro Cravinho para render o Engº Todo Bom na presidência da Portugal Telecom. Fiquei siderado! Então vejamos:

- o Dr Nabo demite-se do governo por ter comprado um andar furtando-se ao pagamento de parte da sisa que era devida ao fisco (isto é, à tesouraria da comunidade que somos);

- ao demitir-se, declara que o que a imprensa publicou sobre o assunto era, na generalidade, verdade, pelo que ia voluntàriamente regularizar a sua situação fiscal;

- agora é-lhe oferecido um cargo público?! A isto chegou o governo PS em pouco mais de 100 dias?!

O Dr Nabo regularizou a situação depois de ter sido apanhado (ele que me desculpe a expressão, mas foi assim); parece claro que teria continuado no Governo, se não tivesse sido apanhado. Logo, não me parece exagerado supor que só pagou, porque foi apanhado. Isto não é bem o mesmo que pagar voluntàriamente!

Depois desta vergonheira, esperar-se-ia uma “travessia do deserto”, sem prejuízo, naturalmente, para a sua actividade profissional no sector privado, mas com certa e segura abstinência de cargos públicos. Outra coisa não poderia esperar quem usou de artes menos ortodoxas para deixar de pagar ao Estado (a todos nós, recordo) o que ao Estado era devido.

Afinal, como prémio pela sua fuga ao fisco, é-lhe oferecida a presidência da Portugal Telecom, um “tacho” digno de um verdadeiro “compagnon de route”!!

Só me resta esperar que o Dr Murteira Nabo decline a oferta, mostrando ter (para além de vergonha na cara...) mais respeito pelo contribuinte do que tem o Engº João Cravinho.

OPINIÃO 95-96 - Geometria Descritiva II

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Sr Director (Público):

Permita-me que volte à carta do Sr Prof Meira Soares, publicada na edição do passado dia 28. Parece-me meritório que o Professor venha a terreiro, expondo o seu prestígio pessoal, da Cátedra e do cargo de Reitor que vem exercendo há alguns anos. Enternece-me sempre a visão do pastor brandindo o cajado em defesa das suas ovelhas, perante a alcateia que os ameaça.

Acontece que o Professor Meira Soares não está defender um rebanho de ternas ovelhinhas. Está a defender o trabalho (neste caso, um erro) de uma Comissão que superintende provas que regulam o acesso a instituições que terão a seu cargo parte importante da formação dos nossos filhos. Não pode haver, pois, lugar a enternecimento, mas a indignação!

O prestígio das instituições não se defende negando e escondendo os seus erros, mas reconhecendo-os, corrigindo-os e compensando de forma adequada quem foi prejudicado pela sua ocorrência. O Professor não está, afinal, a fazer mais do que seguir os maus exemplos do ministro Dias (Manel) Loureiro, que tanto tem prestigiado a Polícia...

Na sua rica argumentação, o Professor Meira Soares mobiliza em defesa da prova de Geometria Descritiva o facto de muitos alunos não terem sequer passado do seu início (so, what? perguntaria, e muito bem, o meu filho, de 13 anos).

O argumento para mim mais difícil de compreender (penso ter percebido, passe a imodéstia, mas tenho ainda dúvidas) diz respeito aos critérios usados pelo júri, muito claramente (?!) expressos nos princípios orientadores, que não resisto a transcrever:

Ao critério da performance, relativo às acções definidas com rigor num contexto pré-determinado, sobrepõe-se o critério da competência, que pressupõe a disponibilidade para a realização de várias acções em contextos diferentes, pondo a tónica nas qualidades intelectuais (aptidões, operações mentais, conceitos...) e nas potencialidades da sua evolução

A única conclusão que consigo tirar é que a Comissão Nacional de Provas Específicas esteve desde Maio a redigir textos herméticos e pretensiosos, em vez de elaborar, avaliar, escolher, afinar, testar e produzir provas específicas capazes.

Permita-se, sr Director, que dedique ao Professor Meira Soares, mais à douta Comissão a que preside, um poema consentâneo com a prosa de que tanto parecem gostar:

Há no hipotético hípico tanto de típico e exótico
Como de túrgido e óptico no pirotécnico lípido!

Nas virações aquáticas das represálias magnéticas
Existem ondas sintéticas infinitamente estáticas.

Daqui, resulta um mito que pode causar a morte
Lá para os confins do Norte, donde se divisa o Infinito...

Como diria uma amiga minha: “não se percebe nada, mas é tãããão lindo!

domingo, 19 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Geometria Descritiva I


Sr Director (Público):

Tenho acompanhado a questão da prova de Geometria Descritiva e confesso que fiquei estupefacto com a carta do Sr Prof Meira Soares, publicada na edição do passado dia 28.

Afinal o Professor aceita que o problema não tem solução (como ele matemàticamente verificou), mas tem-na num outro contexto, conforme lhe demonstraram dois pares seus, membros do júri, certamente mais versados na matéria.

O Professor terá ficado, assim, a perceber que em Geometria Descritiva a tangência ou não entre duas linhas é função da espessura do traço. Poderemos, pois, enunciar um novo Teorema, que deveria, com toda a justiça, levar o nome do seu autor. Seria o Teorema de Meira Soares, a seguir enunciado, do qual me parece legítimo retirar o Corolário 1 (não lhe chamo Corolário de Marques Correia porque para tanto me falta o atrevimento e os pergaminhos académicos).

TEOREMA: Para todo o par de linhas no espaço tridimensional existe uma espessura de traço e só uma que as torna tangentes;

Corolário 1: todas as linhas são tangentes, mas há umas mais tangentes que as outras.

A rica argumentação do sr Presidente da Comissão Nacional das Provas Específicas presta-se a comentários mais extensos e elaborados, mas penso que esta conclusão, de inegável valor científico, deve ficar isolada para reflexão e crítica da nossa comunidade académica.

OPINIÃO 95-96 - Coisas boas e coisas originais


Sr Director (Expresso):

No número de hoje (dia 10/2), na página em que os ex ministros avaliam a performance dos seus sucessores, deparei com o depoimento do ex-subsecretário de Estado Manuel Frexes, lamentando que as ideias apresentadas pela actual equipa não sejam boas e as boas não sejam originais. Em consonância com estas declarações, o título é “sem ideias boas nem originais”.

Acho que seria interessante recordar um episódio antigo, do qual Manuel Frexes certamente se recordará (e aí terá ido buscar a inspiração...), cujo protagonista, o Prof Marcelo Caetano, é lembrado mais como o político pouco bem sucedido que foi, e menos como professor e autoridade eminente em Direito Administrativo que era antes de suceder a Salazar e continuou a ser depois de ser deposto.

A cena passa-se numa prestação de provas académicas (não saberia precisar de que grau) pelo actual Prof Soares Martinez. No júri pontificava o Prof Marcelo Caetano que, no final, fulminou o candidato com a frase lapidar que ficaria célebre:

“...no seu trabalho diz coisas boas e coisas originais; porém, as originais não são boas, e as boas não são originais”.

Registe-se que só com a saída do Prof Marcelo da Universidade, Soares Martinez conseguiu ascender à posição que tem hoje. Ao que parece, o mérito deste professor tão contestado por antigos e actuais alunos, já o era pelo próprio Prof Marcelo Caetano, décadas atrás.

sábado, 18 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Tachos & Nabos

Sr Director (Público):

Constatei com apreensão que o Secretário de Estado do Turismo, Dr Ismael Ribeiro da Cunha, saiu (ou está em vias de sair) do Governo.

Não sei se o Eng Guterres percebe em que se está a meter, se compreende toda a extensão do drama que, em breve, se vai abater sobre a sua cabeça, perturbando-lhe a rotina diária, retirando-lhe a paz de espírito para tratar dos assuntos magnos da governação. O Sr Ismael não se vai conformar com o despedimento e vai voltar ao método epistolar que, não tendo resultado no consulado do Prof Cavaco, acabou por resultar tão bem com o Eng Guterres.

O Sr Ismael Ribeiro da Cunha, com o poder de decisão que move os grandes homens, com a persistência inabalável que os mantém no rumo traçado, não deixará de escrever cartas ao novo Ministro da Economia, tantas quantas as necessárias para lhe amolecer o ânimo, ou quebrar a paciência.

Se o novel Ministro se mantiver firme e negar o pretendido tacho ao inefável Ismael, estejamos certos de que o alvo epistolar será ajustado, e o Engenheiro Guterres passará a ser assediado com pedidos e mais pedidos, veiculados por cartas e mais cartas. Cavaco e Ferreira do Amaral receberam, a seu tempo, largas dezenas!

E afinal, por que razão deixar o bom do Ismael no desemprego? Direi mesmo mais, por quê negar-lhe uma sinecura onde ganhe honradamente a vida, de preferência sem staff que o incomode e o ponha em cheque demitindo-se em bloco? Será ele mais nabo (ou menos hábil na fuga ao fisco) que o novo Presidente da Portugal Telecom, também ele ex membro do Governo?

Se a lógica do tacho não é uma batata, a Ismael deveria caber um tacho melhor que o do Dr Nabo: aquele sai do governo, no âmbito de uma remodelação do Ministério ditada pela demissão do Ministro; este saiu sem aquecer o lugar, apanhado em situação de fuga ao fisco (ou seja, por indecente e má figura, como se dizia dantes).

Francamente, já não há justiça!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - EXPO 98


Sr Director (INGENIUM - Revista da Ordem dos Engenheiros):

Seguindo as preocupações manifestadas quando era oposição, o PS, agora governo, tem progressivamente apertado o controlo sobre a Expo 98. Até aqui, parece-me bem. Penso que ninguém gostaria que se passasse com a Expo o que se passou com o Centro Cultural de Belém.

Não gostaria, acima de tudo, que se chegasse a um valor final múltiplo do orçamentado no início do empreendimento, sem se saber com detalhe quais os projectos cujos custos dispararam, e porquê, quais os atrasos cuja recuperação determinou custos adicionais, quais os projectos cancelados e porquê, e quais os custos resultantes. Por outro lado, quais os concursos que foram cancelados, por que motivos e quais as consequências no andamento global do empreendimento e nos custos.

Os dados acumulados, devidamente estruturados em bases relacionais poderiam, eventualmente, levar a conclusões quanto a medidas a adoptar em empreendimentos futuros, nomeadamente no tocante à escolha de consultores e à selecção de empresas para participar em concursos. E, naturalmente, poderiam servir também para apoiar acções contra pessoas ou empresas cuja acção fosse passível de procedimento judicial.

Contudo, é preciso não perder de vista o objectivo final: a realização da Expo 98, cuja data de abertura está fixada e cujo adiamento ou cancelamento seria, no mínimo, desprestigiante para o País. Parto do princípio que a posição do Governo quanto a este objectivo é a sua clara assunção.

Assim sendo, o controlo das contas da Expo pelo Estado não poderá constituir um instrumento de burocratização do processo decisório, sob pena de comprometer definitivamente um empreendimento cuja realização no prazo previsto está, se não comprometida, pelo menos bastante dificultada. Um modelo de controlo baseado no “visto prévio do Tribunal de Contas” ou em despacho prévio da tutela conduziria, irremediàvelmente, ao insucesso.

Num empreendimento com a complexidade da Expo 98, envolvendo centenas de empreiteiros e sub empreiteiros em múltiplos projectos, com milhares de actividades, muitas delas interdependentes e ligadas por relações de precedência de vários tipos, a probabilidade de cumprimento do prazo é muito inferior à probalidade do seu incumprimento. Não se trata de especulação, mas de estatística.

A gestão integrada dos projectos envolvidos é capital para antecipar atrasos em actividades críticas e mobilizar os recursos (ou refazer a rede) para garantir que a data de conclusão do empreendimento seja cumprida.

A tutela tem que estar preparada para mais que prováveis reforços orçamentais, pois a ocorrência de atrasos, por via de regra só é evitável por degradação da qualidade ou por acréscimos na afectação de recursos, acarretando aumento de custos. Ora nesta obra não é aceitável a degradação da qualidade. A tutela deverá estar ciente, por outro lado, de que toda a turbulência que introduzir no sistema redundará inexoràvelmente no aumento da probabilidade de incumprimento de prazos.

O melhor método a adoptar será, provàvelmente, dar carta branca ao Comissário, dentro do orçamento aprovado (215 Mc, creio), com controlo a posteriori dos actos de gestão, e avaliação no final da exposição.

Quanto ao Engº Cardoso e Cunha, não recomendaria a sua substituição: é competente, está envolvido no projecto desde o seu início, e... serviria de desculpa a qualquer substituto que não conseguisse levar a bom porto um navio cujo comando só teria assumido a meio da viagem.

Iria mais longe: o Comissário e a sua equipa deverão ter todo o apoio do Governo e da Oposição (penso que o tem do PSD) e o actual ambiente de suspeição deve cessar imediata e completamente.

Doutro modo, não teremos Expo. A manter-se o actual faz-que-apoia-mas-não-apoia, tenho poucas dúvidas em apontar o dedo ao Governo se isso vier a acontecer.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Arquivos da PIDE II


Ao Diário de Notícias - “Opinião”

A secção de Opinião insere hoje, 5/3, um texto em que Carlos Pacheco explana a sua posição sobre o debate lançado por António Barreto a respeito da legitimidade de o Estado guardar, como documentos históricos, cartas, fotografias e outros artigos pessoais, constantes dos arquivos da Pide.

Carlos Pacheco considera que se trata de um falso problema, pois em nenhum outro país “jamais se pôs em causa o facto de aqueles arquivos terem em seu poder documentos privados”. E acrescenta: “Naqueles países, nunca se conclamou contra o Estado, exigindo a devolução aos particulares de objectos que lhe foram subtraídos.” E remata: ”O que aconteceu aconteceu. Faz parte da história.” E ainda ”...é património da Nação. Ponto final”.

Mais à frente, apresenta como argumento de peso que se se começasse a remexer e a tirar documentos privados, “...seria o caos, a desarticulação, o desmembrar de um repositório único no seu género (...) que imediatamente afectaria a memória de todos os povos envolvidos.”

Quanto à legitimidade do Estado deter “papéis absolutamente privados, roubados pelas polícias”, é definitivo e lapidar: “À luz da História, esta legitimidade nem se discute. Só o Estado, e mais ninguém, pode ser o guardião desse património”.

Fernando Rosas, há algumas semanas, manifestara opinião semelhante, opondo-se a que se tocasse no acervo, pois correr-se-ia o risco de que lhe fossem retirados documentos que diminuissem o seu valor como testemunho de um período da nossa história cuja memória deve ser preservada. A questão dos documentos pessoais resume-se, no seu entender, à garantia de que a sua consulta e divulgação não serão feitas se tal fôr a vontade das pessoas visadas em tais documentos.

Esta polémica tem subjacente a questão da propriedade, logo, é uma questão muito sensível. Trata-se de definir em que condições a propriedade de um objecto passa de um indivíduo para o Estado. Por outro lado, um dos aspectos polémicos é precisamente se cartas pessoais e outros “papéis” sem “políticas” à mistura devem ser classificadas como património, ou não.

De passagem, e sem me deter muito na argumentação de Carlos Pacheco, parece-me que tudo se deve discutir, a começar pelo próprio Estado. As expressões “ponto final” (na discussão), “nem se discute”, “não se toca”, “só o Estado, e mais ninguém”, “categorias ideológicas sacrossantas” que pontuam o discurso deste historiador, por irónico que pareça, pontuavam também o discurso do poder do tempo de Salazar. A Pide existia, entre outras coisas, para evitar que se discutisse o que não se devia...

Parece-me pacífico que se uma das cartas dirigidas a António Barreto e surripiadas pela Pide contivesse um documento vivo, com valor real (por exemplo, um maço de acções da IBM) enviado por sua mãe, ser-lhe-ia muito fácil reavê-la. Qualquer tribunal negaria ao Estado a legitimidade da sua posse e determinaria a sua restituição ao legítimo proprietário. Por quê, então, uma carta pessoal, com uma fotografia, sem qualquer referência a actividades políticas, deverá ser propriedade do Estado?!

Os arquivos da Pide são constituídos por fichas das pessoas visadas, relatórios dos informadores, actas de interrogatórios, relatórios médicos, actas de buscas domiciliárias (ou outras), transcrições de escutas telefónicas, fotografias do visado em várias situações tiradas por agentes encarregados de o seguir, correspondência respeitante às actividades políticas, panfletos e livros proibidos (ou suspeitos...), objectos confiscados susceptíveis de caracterizar as actividades suspeitas e constituindo, eventualmente, matéria probatória, etc, etc, etc.

Parece-me razoável que o Estado detenha esses arquivos e regulamente a sua consulta e divulgação, salvaguardando o direito dos visados à privacidade.

Quanto a objectos estritamente pessoais, sem ligação directa a actividades políticas (ou criminosas) e cuja posse por parte da Pide não tenha resultado de um acto voluntário e livremente assumido pelo seu legítimo proprietário
[1], deveriam ser-lhes devolvidos (ou aos herdeiros constituídos), caso o desejassem.

Não vejo em que é que o arquivo ficaria desvalorizado. Por outro lado, acho errado (para não dizer idiota) que se proíba o razoável por se recear, com isso, abrir a porta ao inaceitável. Só essa óptica estulta impediria que fossem devolvidos papéis tão pessoais como as cartas de amor (de mãe, ou de esposa), a fotografia da prima Ernestina (cresceu imenso!) ou o livro com dedicatória da professora da 4ª classe.

Seria interessante que António Barreto entrasse com um processo para reaver a correspondência de sua mãe e irmãos, cuja propriedade, à data em que foram escritas será fàcilmente estabelecida. Para convencer o Tribunal de que tais cartas são documentos históricos, essenciais à caracterização de uma época, e que por isso, passaram a constituir propriedade sua, que argumentação aduziria o Estado?

. . . . .

NOTA:

[1] Isto é, se foi subtraído à força ou à surrelfa pela Pide.

terça-feira, 14 de abril de 2009

OPINIÃO 95-96 - Arquivos da PIDE I

Sr Director (PÚBLICO):

A polémica que António Barreto iniciou, com a sua rubrica Retrato da Semana, a respeito do destino a dar a objectos estritamente pessoais constantes do arquivo da Pide, parece ter-se instalado na comunicação social.

É um tema com um cariz emocional muito marcado, reportando-se a um período da sociedade portuguesa em que a vida de muito boa gente foi perturbada, ou mesmo prejudicada, mas foi também um período de grandes esperanças no ciclo seguinte (“quando houver paz e socialismo”, dizia a canção), quando o regime autoritário fosse derrubado.

Um dos intervenientes nesta polémica é Fernando Rosas. Opõe-se à devolução do que quer que seja. Ao que parece, as cartas e fotografias absolutamente privadas que tanto perturbaram António Barreto, ao encontrá-las no dossier que a Pide reuniu sobre a sua pessoa, são, para Fernando Rosas, documentos imprescindíveis para caracterizar o Estado Novo e as suas polícias.

Isto trouxe-me à memória um episódio saboroso dos tempos gloriosos da minha juventude, antes do 25 de Abril. No início dos anos 70 eu interessava-me muito pela acção directa, como participante anónimo em comícios, manifs, provocações aos “gorilas” da cidade universitária e fugas à frente da polícia de choque, quando a ocasião se proporcionava: era um bom exercício, e muito menos chato que correr às voltas na pista do estádio universitário.

A parte ideológica não me motivava, enfadando-me mortalmente as minúcias que distinguiam o Glorioso (MRPP, claro!) da UDP, o grupelho de Mendes do PC de P (ml) do renegado Eduíno Vilar. Secretamente, achava disparatada a questão que dividia o Glorioso, numa luta fraticida entre a linha negra do renegado (já vamos em dois, mas havia mais) Saldanha Sanches e a linha vermelha (a justa!) do Camarada Arnaldo Matos.

Não tinha adquirido, pois, a segurança teórica que me teria permitido invocar a meu favor os autores certos nos locais e nas circunstâncias certas. O que não era dispiciendo, pois em Lisboa alinhava com o citado Glorioso, no Algarve, com o grupelho de Mendes, e em Angola, com o MPLA (o que me levava a ter que conviver com os revisas do PCP).

Um belo dia, fui a uma manif para exigir a libertação do Camarada Arnaldo Matos (ou seria para celebrar a sua libertação pelo Povo, já não me lembro). Começaram a ouvir-se os acordes da Internacional, e o pessoal começou a acompanhar, não com palavras, mas com lá-lá-lás, em surdina. “Esta malta não sabe a letra”, pensei eu. “Vou brilhar!” E com voz forte e sonorosa comecei a cantar “...de pé famélicos da terra, de pé, oh vítimas da fome, pó, pó, pó!”, e fui imediatamente abafado: aquela letra não era a correcta, mas a letra revisas, disseram-me (realmente, aprendera-a em Luanda, com os PCs, conferi).

Pedi, então, que alguém me mostrasse a letra aprovada, para que a cantasse. Foi aí que me contaram a desgraça que acontecera. O camarada Fernando Rosas (director do Luta Popular e membro do Comité Lenine, Comité Central do MRPP) quando fora preso na véspera, pela Pide-DGS, levava no bolso do casaco o papel com a letra da Internacional, na versão proletária, devidamente aprovada pelo atrás referido Comité Lenine, Comité Central do MRPP.

Por isso, nesse tempo, nas manifs do Glorioso, só se cantava lá-láááá, lá-lá, lá-lá, lá-lá (pó, pó-pó).