quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 14 Quibaxe



Faço agora um salto de vários anos, durante os quais vivi em Lisboa, acabei o Liceu, entrei para a Academia Militar (foto ao lado, no 1º dia, com 17 aninhos...) e saí dela no penúltimo ano.

Fui rapidamente mobilizado e quase não tive tempo para acabar o Técnico[1] (fiz as últimas cadeiras já em Mafra[2]).

Seguiram-se passagens, nem sempre rápidas, por quartéis em Penafiel, Bragança, Vila Nova de Gaia e Santa Margarida, até que embarquei para Angola integrado num Batalhão de Artilharia, o 6222/73, em missão de soberania[3].

O Batalhão sofreu a primeira baixa em Santa Margarida: o nosso capitão (comandante da minha companhia) foi apanhado a sair do quartel com uma mala atulhada de bacalhau e latas de azeite, de modo que foi discretamente afastado. Encontrei-o, meses depois, em Luanda, mas não tive lata de lhe perguntar como é que se safara do imbróglio...

Fomos de avião, a Força Aérea tinha nesse tempo dois Boeing 707 que se revelavam muito mais adequados ao transporte da tropa (e mais económicos) do que os navios (em particular o Vera Cruz, que durante muitos anos transportou militares de e para África). A rapidez do transporte era muito importante, pois evitava que os militares permanecessem sem fazer nada durante os dez ou quinze dias que o “cruzeiro” durava (caso se destinassem respectivamente a Angola ou a Moçambique).

Como a grande maioria ia de má vontade, e a popularidade da missão não era grande, essas viagens demoradas davam azo a todo o tipo de chatices, actos de indisciplina (até levantamentos de rancho, o grande papão dos militares do quadro) e, acima de tudo, à mais desenfreada boataria sobre a situação militar e as perspectivas (negras) da guerra na “província” de destino. O que não era nada bom para o moral das tropas…

De avião, era outra limpeza: o pessoal cantava umas cantigas, bebia uns copos, passava pelas brasas e … estava em Luanda.

Seguia-se um curto estágio no Grafanil (campo militar às portas de Luanda) para todo o batalhão se reunir, ser armado e equipado, acabando por seguir para a localidade de destino.

A minha unidade destinava-se a Quibaxe, em plena zona do café, nos Dembos, que não me era estranha (de nome…), pois o meu pai tinha lá estado cerca de um ano, precisamente no batalhão que íamos render.

A distância a Luanda era relativamente pequena, cerca de 200 Km sempre por estrada asfaltada, de modo que viagem foi relativamente rápida. Fomos integrados na coluna militar que diariamente ligava o Caxito (50 km a norte de Luanda) a Quibaxe (eventualmente teria ligação com outra coluna proveniente de localidades mais distantes), passando pelo Úcua e Piri.

Pelo caminho tivemos um sobressalto, quando se fez ouvir o estrondo de um rebentamento, mesmo junto à estrada. Todo o mundo saltou dos camiões, jipes, unimogs, etc, e, por estranho que pareça, não começámos aos tiros para os ramos com aspecto mais suspeito: portámo-nos na linhaça, deitados de ambos os lados da estrada, tensos e atentos. Quando alguém informou que se tratara do rebentamento de um pneu foi a descontracção total, e foi uma chatice para se conseguir que, pelo menos parte do pessoal, se mantivesse alerta, montando segurança enquanto se mudava a roda.

De resto, a viagem prosseguiu sem incidentes, com paragens no Úcua (nome ligado às chacinas de 61) e no Piri (onde ficaria uma das companhias do Batalhão). Desta última povoação partia um desvio da estrada principal (a estrada do café) que nos levava até Quibaxe.
Quibaxe era em 1973 uma vilória em franca expansão, com várias ruas asfaltadas, mantendo ainda a configuração habitual de uma rua principal com pequenas transversais interligadas já por paralelas à rua principal. Tinha cinema, uma igreja com padre permanente, um hospital também com um médico permanente (o Dr Abrantes que residia há muito tempo na região, desde que se metera em políticas na Metrópole), muitas casas comerciais, estação de correios, uma agência bancária e (luxo supremo!) electricidade 24 horas por dia.

Era sede de concelho, pelo que tinha um Administrador (um furo acima do chefe de posto, figura fundamental na administração colonial) e uma pequena delegação da PIDE (então já na sua versão DGS) com o sr Antunes à cabeça, apoiado num grupo de Flechas (uma secção ou um pelotão, não me lembro já).

A vilória ficava numa zona relativamente plana, e num dos extremos subia pela encosta de um morro, no cimo do qual ficava uma capelinha. A meia encosta ficava o forte a que já me referi, onde a população branca se refugiou aquando dos massacres de Março de 61.

À volta da zona do asfalto ficavam algumas sanzalas, com população local, em construção tradicional (paredes de pau a pique ou adobe, com cobertura de capim ou chapas de zinco). Estava em construção um bairro que seria a futura sanzala da Paz, onde seriam alojadas as “populações recuperadas da mata”. Este bairro não chegou a ser ocupado até eu sair de Quibaxe, se bem que, na sua grande maioria, as casas estivessem concluídas. Entretanto deu-se o 25 de Abril, interrompendo a política de concentração da população em aldeamentos deste tipo, onde (teoricamente...) não teriam contacto com a guerrilha.

Esta política nunca foi levada muito a sério em Angola, mas pontualmente houve algumas tentativas de a implementar. Na zona dos Dembos havia a ideia (realista) de que, por um lado, não era viável meter tanta gente em sanzalas “da paz” e prover as suas necessidades; por outro lado, havia a convicção (que também me parece realista) de que ter um “bando de turras” a controlar o que se passa no quartel e a comunicar ao pessoal da mata, era tudo menos desejável[4]. No leste, onde a população era escassa e a vegetação menos luxuriante que no norte, poderia ser mais fácil concentrar a população e evitar contactos com o IN.

De qualquer modo, no Vietname, em Moçambique ou na Guiné (onde esta medida era um dos pontos essenciais da receita para derrotar a guerrilha) os resultados não foram brilhantes...

O dispositivo militar contava, para além do comando de Batalhão, com uma das companhias, um PAD (Pelotão de Apoio Directo, unidade independente) onde se reparavam armas e viaturas (principalmente viaturas) e um PINT (Pelotão de Intendência). As outras duas companhias do Batalhão ficaram no Piri (na estrada do café, como já referi) e no Bom Jesus, um buraco infecto onde se chegava depois de horas e horas em picada poeirenta.

Para quem não esteja familiarizado com estas guerras, o comando de batalhão era constituído por um núcleo de comando (comandante, 2º comandante, oficial de operações e secretaria) e uma CCS (companhia de comando e serviços) com pelotões de transmissões, material (armamento, munições e viaturas), operações (chefiado por um alferes com o curso de Operacões Especiais, nos Rangers em Lamego) e sapadores (de que eu era o mui ilustre comandante). Havia ainda pessoal de intendência (vagomestre[5], cozinheiros e ajudantes), serviços de saúde (médico, enfermeiro e ajudantes) e serviços religiosos (padre e sacristão).

O sacristão tinha a designação pomposa de Auxiliar de Serviços Religiosos e o cargo era um tacho muito cobiçado, pois, para além das missas dominicais na sede do Batalhão e de algumas deslocações às companhias destacadas, nada de perigoso constava das suas funções. Ficava com imenso tempo livre, que podia dedicar a outras funções úteis. O nosso Auxiliar de Serviços Religiosos, o Martins[6], acumulava as funções de barman na messe de oficiais, e desempenhava-as com primor e savoir faire. No fim da comissão fiz uma proposta para lhe ser atribuído um louvor, e redigi-a nos termos habitualmente reservados aos oficiais (“militar educado e de fino trato” etc e tal). O comandante percebeu (ou, pelo menos, desconfiou) que era gozo e não lhe deu seguimento.


Aliás, o BART 6222/73 deve ter sido das poucas unidades sem louvores no fim da comissão. Não porque fosse pior que as outras, mas por ter apanhado um período pouco dado a feitos guerreiros (chegámos a Angola em Novembro de 1973, passámos o 25 de Abril menos de seis meses depois, e daí para a frente pouco mais se fez do que passar tempo para voltar a Portugal).

Pelo meio houve pequenas chatices, tricas e mal entendidos (não vale a pena entrar em detalhes nesta matéria chata) de modo que dos louvores que habitualmente pontuam a folha de serviços dos militares de carreira, quando terminam uma comissão de serviço ou mudam de unidade[7], não houve nada para ninguém.

O médico e o padre eram de rendição individual (não vinham com o batalhão), de modo que os herdámos da unidade que rendemos. O médico era um familiar da poetisa Sofia de Melo Breyner Andresen, estava já um tanto cacimbado e não tive tempo para o conhecer[8]. Foi rendido pelo Dr Defensor de Moura (foto actual, ao lado), um tipo estável e bem disposto que contribuiu ao longo da comissão para desanuviar o ambiente[9]. Voltei a ouvir notícias dele há poucos anos, estava no Hospital de Viana do Castelo. Nas últimas autárquicas (1993 e 97) viria a ser eleito e reeleito Presidente da Câmara Municipal dessa cidade. Em 2009 continua firme e hirto no posto, tentando derrubar o edifício Coutinho, até agora em vão...

As amenidades de Quibaxe e a relativa paz que reinava na região fizeram com que rapidamente parte dos oficiais mandassem vir as caras metade, e alguns (o 2º Comandante) até os filhos e a sogra…

A esposa do Comandante tornou-se directora da escola e as restantes levavam a vida possível de domésticas, pois a vilória era grandinha mas não tinha empregos para todas elas.

A actividade militar do IN[10] era escassa, de modo que a nossa não ia muito além de operações um pouco por toda a área que nos estava atribuida[11]. Mantinhamos uma presença constante que dava confiança (pensávamos nós) aos fazendeiros e às populações, em cujo coração (era garantido!) o amor a Portugal só vacilava ante a ameaça de terríveis sevícias por parte dos terroristas que do exterior moviam contra nós uma guerra inspirada, municiada e comandada por Moscovo!(catecismo, vulgata lusitana).

Escuso de dizer que a seguir ao 25 de Abril descobri rapidamente que o MPLA estava activo na região, abstendo-se de acções militares, mas mantendo uma intensa acção de mobilização junto da população que lhe permitiu surgir com uma implantação muito forte (inclusive em Quibaxe) logo após a queda do antigo regime.

Quanto aos fazendeiros, se bem que não fossem à bola com o MPLA, mantinham com ele um modus vivendi que permitia que vivessemos todos em boa harmonia (ou pelo menos, evitando chatices onde elas não existiam...)

As operações eram realizadas pelos pelotões das companhias de atiradores e pelo pelotão de operações da CCS. Ao meu pelotão, sapadores, competia erigir fortificações (felizmente estavam todas erectas), reparar picadas, fazer pequenas construções, proceder a demolições com explosivos e (claro!) desactivar minas e armadilhas.

Esta coisa das minas, felizmente, nunca foi biscate que nos tocasse, e estou muito satisfeito por não ter tido oportunidade de adquirir experiência nesse ramo.

A nossa actividade principal, quando não estávamos destacados a reparar picadas ou a fazer paióis (lá iremos) consistia em pequenas missões de recolha de GEs, que participariam nas operações dos pelotões de atiradores.

Os GEs, Grupos Especiais, eram uma espécie de milícias constituídas pela população local, mantendo-se nas suas sanzalas e levando uma vida normalíssima, até que as NT os fossem recolher para participarem em operações. Como bons conhecedores da região serviam de guia levando-nos onde nós queríamos (e evitando os locais que não convinha[12] muito que visitássemos).

Essas deslocações eram, a bem dizer, verdadeiras passeatas, com paisagens muito belas, alternando matas com zonas de vegetação rasteira, com muitos riachos, cuja travessia nem sempre era um mar de rosas. Por vezes tivemos que usar o guincho de um Unimog para libertar outro com uma (ou mais) roda num buraco, no meio do riacho. É claro que íamos sempre inquietos ante a possibilidade de emboscadas, pois a paz e o modus vivendi atrás referidos foram ciência adquirida apenas depois do 25 de Abril...

Um aspecto que me impressionou então foi a quase omnipresença do pequeno comércio (quase sempre representado por um branco já entradote a falar achim, casado com uma preta e tendo, muitos deles, um capataz cabo verdiano).

Depois de uma horitas de bate-cú no Unimog (a estrada até Luanda era asfaltada, havia umas estradas decentes até Bula Atumba e Pango Aluquem, mas o resto eram picadas execráveis e poeirentas), era muito agradável parar numa dessas lojecas de comércio geral, beber umas Cucas ou Fantas fresquinhas, comer uma boa bifana entalada num papo seco e espairecer um bocado antes de retomar a marcha. Nalgumas, até uma mesa de matrecos havia!

O meu pelotão esteve destacado numa fazenda não muito distante do fortim do Dange, a reparar a picada que conduzia àquele fortim. Tratava-se de uma construção isolada destinada a proteger uma pequena ponte que atravessava o rio Dange, numa zona crítica nos tempos heróicos de 61-62.

No tempo em que lá estive a região não era particularmente perigosa, mas o fortim dava ideia do que terá sido a guerra nesta região quando a FNLA (nesses tempos ainda UPA) dominava o espaço fora das estradas e povoações, e a actividade económica não tinha ainda sido restabelecida. As emboscadas aconteciam em quase todas as deslocações e as flagelações a aquartelamentos isolados não deixavam ninguém dormir em sossego.

Com o tempo tudo voltou ao normal, as roças voltaram a produzir em grande, as estradas asfaltadas progrediam a ritmo vivo e a guerrilha foi progressivamente empurrada para as regiões fronteiriças, próximas dos santuários nos países vizinhos.

O MPLA acossado pela FNLA e pelo exército português e tendo perdido os santuários no Zaire, abriu as hostilidades na frente leste. Nos Dembos remeteu-se a acções de mobilização das populações, evitando contactos com as NT.

Com a reactivação das actividades económicas, recomeçou a contratação de bailundos, arrebanhados do planalto central para servirem no norte, cujas populações manifestamente não davam garantias nenhumas de produtividade nem de docilidade.

A Fazenda Maria Manuela era um bom exemplo do que se passava com a mão de obra semi escrava: o dono era um senhor já nos seus sessentas, boa pessoa, a quem nunca vi atitudes ou palavras que revelassem índole violenta ou desrespeito pelo pessoal. O capataz, um tipo mais novo, referia-se aos pretos de forma mais desabrida, mas também não seria por aí que vinha mal ao mundo.

O que efectivamente estava errado era a cultura subjacente a esta sociedade que permitia que os contratados trabalhassem de sol a sol, vivendo em instalações absolutamente indignas (a ideia era que nas sanzalas não viviam melhor, portanto, tudo bem…), ganhando o estritamente necessário para pagar na loja da fazenda o que consumiam durante o mês. O Chefe de Posto e os seus sipaios zelavam para que tudo corresse bem e para que o contrato fosse cumprido até ao fim.

Havia casos em que, findo o contrato, a conta na loja da fazenda estava por pagar. A coisa resolvia-se na hora: o contrato era prorrogado por mais um ano para saldar a dívida. O contratado tinha que ter muito cuidado, consumindo o indispensável e evitando multas (por danos provocados na propriedade do patrão), para que não se desse o caso de a dívida, findo o período adicional, ser maior que no seu início.

O dono da roça podia temperar este regime com bondade, boas palavras e tentando levar os recalcitrantes às boas, mas não podia mudar o sistema. É que o sucesso de uma exploração agrícola era (e não o será ainda hoje?) baseada precisamente na existência de mão de obra disponível a custos quase nulos.

Nesta óptica, era fatal que a continuação da generalidade dos portugueses nos novos países independentes era perfeitamente inviável, qualquer que fosse o partido a mandar.

Em Portugal triunfou a ideia de que as nacionalizações eram desejáveis e que as cooperativas agrícolas e as unidades colectivas de produção (as famigeradas UCP) eram viáveis. Mais ainda, que o caminho certo era o que conduzia ao socialismo. Esta ideia foi defendida não só pelo PCP e PS, mas também pelo PPD que votou favoravelmente leis e uma Constituição que previam tudo aquilo.

Parece-me muito natural (e saudável!) que os pretos, ao fim de séculos de humilhações constantes (sentidas principalmente pelos que adquiriram alguma instrução e cultura) desejassem a saída dos portugueses, mandar em si próprios e que quisessem operar todo o aparelho económico em proveito próprio.

A coisa não está a correr bem, mas o princípio parece-me sólido e continua perfeitamente válido:

- nada justifica que um país se instale num território onde a sua presença não é desejada e o organize segundo os seus interesses, secundarizando completamente as pessoas que já lá viviam e os seus descendentes.

Custa-me imenso ouvir pessoas de bem defenderem a presença portuguesa em África sem estranharem que ao fim de 500 anos a alfabetização mal tivesse começado, a burguesia urbana e rural fosse quase inexistente, as amenidades básicas da civilização (mesmo nas cidades) apenas fossem extensivas à população branca e o acesso à justiça fosse pouco mais que uma figura de retórica. Pior que tudo, a Igreja abençoava este estado de coisas, como já o fazia no tempo da escravatura.

Aliás é bom que nos habituemos à ideia de que não é possível esconder por muito mais tempo (e o 25 de Abril já foi há mais de 20 anos) que os escravos foram a principal riqueza que os portugueses “extraíram” das terras que colonizaram em África. Para nossa vergonha, até em Macau nos primeiros 20 anos de domínio, já na segunda metade do século XIX, foi precisamente o tráfico de escravos para Cuba e Peru a principal actividade económica do território (1845 a 1874).

Na Angola por onde andei o preto era um acessório indispensável ao progresso e ao desenvolvimento económico, do qual beneficiava apenas o estritamente necessário para que o desenvolvimento se mantivesse. De certo modo, os regimes coloniais foram os criadores do conceito de desenvolvimento sustentável:

- o preto era espremido de modo a prover as necessidades presentes, mas com conta peso e medida para não comprometer a capacidade das futuras gerações de colonos disporem desse recurso para proverem as suas necessidades.

Não notei que em Angola fosse diferente.

Da Fazenda Maria Manuela fomos, após curta passagem por Quibaxe, mandados para o Quiage, que não era mais que meia dúzia de casas, paredes meias com o quartel onde uma companhia independente estava instalada.

Na região teria havido alguma actividade do IN até pouco tempo antes da nossa chegada, mas enquanto lá estivemos, nunca houve ataques nem emboscadas a viaturas ou tropa em operações.

De resto, alguns dos furriéis tinham lá as mulheres o que era sintoma de relativa segurança.

A nossa missão era construir um paiol. De dia, depois do trabalho, jogávamos futebol; à noite fumávamos (tabaco "local"...), bebíamos, e observávamos as osgas a paparem moscas (à luz de velas, depois do gerador ser desligado), e conversava-se até o sono começar a apertar. Num dos jogos de futebol lesionei-me (a sério, não foi como o “desvio para a esquerda” de que falarei mais à frente…), dei cabo de ligamentos e de um menisco, e abalei para Quibaxe, com o joelho num trambolho.

Não voltei ao Quiage. Aleluia!

. . . . . .

NOTAS:

[1] Instituto Superior Técnico.

[2] Escola Prática de Infantaria, uma espécie de linha de montagem (sem malícia...) de oficiais milicianos instalada no convento de Mafra.

[3] Esta expressão já não era muito usada, no tempo do Marcelo as coisas mudavam de nome, mas na essência continuavam a ser as mesmas. Na expressão de um soldado a quem dei instrução, nós íamos para Angola “defender o que era nosso”. A malta desse grupo tinha ideias estranhas: um respondeu-me com toda a convicção que o nosso Presidente era o Salazar (que já fazia tijolo há uns anitos); outro, que quando os pretos chegaram “à nossa África já nós tinhamos lá chegado primeiro”.

[4]O tal bairro, serviu, contudo, um fim muito louvável: era um bom local para se mandar umas quecas (só para quem tinha acesso às chaves...), até porque algumas pequenas acreditavam estar a contribuir, com o seu piedoso acto, para que lhes fosse atribuída uma daquelas casas. Malandrice!

[5] Vá ao dicionário, vá lá, que não lhe posso dizer tudo...

[6] Comecei a tratá-lo por “Irmão” (tratamento que ele retribuia) alcunha que me pareceu adequada às funções espirituais que ele desempenhava. A alcunha pegou.

[7] Bastando para tal não terem sido castigados, não terem tido um desempenho abaixo do normal, nem arranjado atritos com quem propõe os louvores ou lhes dá seguimento...

[8] até porque não parei muito por Quibaxe: fui destacado, em rápida sequência para uma roça de café e para uma unidade vizinha, no Quiage (não vem no mapa), com os sapadores para reparar picadas, construir um paiol, etc...

[9] repito que não vou entrar em detalhes sobre as questiúnculas que, nestes meios pequenos e fechados, se geram entre pessoas obrigadas a viver (e fatalmente conviver) durante um período relativamente longo.

[10] IN, recordo, designa o Inimigo; a nossa malta, a Nossa Tropa, era designada por NT.

[11] a cada batalhão, normalmente reforçado por algumas pequenas unidades como as que referi (PAD e PINT) e eventualmente com companhias independentes, estava atribuída na quadrícula um espaço designado sub-sector que por sua vez estava na dependência do comando de sector, à frente do qual estava um coronel tirocinado (a estagiar para o generalato, para os leigos na matéria). O nosso sector tinha sede em Salazar (actual N’Dalatando) e era comandado por um irmão do Prof Moniz Pereira (treinador de atletismo do Sporting) e depois por um conterrâneo meu, o Coronel Renato Xavier. Este último a seguir ao 25 de Abril andava chateadíssimo por ninguem o ter posto ao corrente do que se preparava, ficando, assim, fora do barco. Acabou por não atingir o generalato.

[12] Naturalmente, só posso falar pelo que se passava na “minha zona”. Após o 25 de Abril vi alguns dos GEs tranquilamente misturados com o MPLA alguns dos quais, segundo me deixaram entender, já estavam com o movimento desde há muito. Esta promiscuidade era possível com o tipo de paz em que vivíamos; já os Flechas (uma espécie de PIDE preta) tinham pouca margem para ambiguidades e faziam mesmo serviço “à séria”, como os comandos africanos na Guiné. Mas isso são outras histórias...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 13 Luanda


Depois de uma curta estadia em Faro, o meu pai foi de novo mobilizado para Angola (não chegou a estar seis meses na Metrópole). Esteve numa companhia instalada num lugarejo chamado Casa da Telha, relativamente perto de Ambrizete.

Quando o batalhão rodou para Luanda[1], nós (a minha mãe, a minha irmã e eu), que entretanto ficáramos em Faro, rumámos a Angola reunindo-nos ao meu pai naquela cidade.

Luanda era muito maior que Nova Lisboa e muito mais antiga. Esta antiguidade reflectia-se, para além de prédios de traça colonial, na quantidade de mulatos que indiciava uma interpenetração de raças considerável, e na existência de uma mentalidade “luandense” muito própria, um misto de bairrismo e de consciência de uma cidadania angolana emergente, que só encontrava paralelo em Benguela.

Pela primeira vez tive consciência de que a tropa não era benquista, e que os colonos já não olhavam os soldados como seus salvadores e defensores, como nos tempos do “para Angola rapidamente e em força”.

A chegada das unidades militares deixara de se fazer com a pompa e circunstância iniciais. Acabou o desfile pela Marginal[2] fora ao som das aclamações populares, e a tropa limitava-se a fazer o transbordo do barco para os camiões que a levariam para o quartel do Grafanil, na periferia da cidade. Tudo se passava, pois, sem margem para exaltações patrioteiras, e na mais perfeita normalidade de uma operação logística.

Nesse tempo, Angola entrara num período de desenvolvimento acelerado em quase todas as esferas de actividade. O boom económico era patente na agricultura, nas pescas, nas indústrias extractivas (com destaque para o ferro, diamantes e petróleo), nas indústrias transformadoras. Nas obras públicas estava-se na guerra do asfalto, com a construção de estradas que iriam unir todas as capitais de distrito, e ligar a rede viária da província à do sudoeste africano, permitindo que as idas de carro a Windhoek (destino calisto das viagens de fim de curso) se fizessem com todo o conforto. A educação começou a estender-se (finalmente!) a todo o território, multiplicando-se as escolas e liceus e criando-se os Estudos Gerais Universitários, embrião da futura Universidade de Angola.

Esta vitalidade estendia-se às indústrias do lazer e do prazer, tornando as principais cidades, em particular Luanda e em menor escala o Lobito e Nova Lisboa, em locais muito agradáveis para se viver. As praias, restaurantes, esplanadas, cafés, cinemas, boites, dancings, cabarets[3] garantiam ao cidadão uma razoável variedade de opções, com animação dia e noite, desde que o ânimo (e o dinheiro) não faltassem de todo.

Publicavam-se em Luanda quatro jornais diários (a Província de Angola, Comércio, matutinos; o Diário de Luanda e o ABC, vespertinos) e várias revistas, das quais o Notícia (que viria a ter edições em Luanda e em Lisboa) era a de melhor qualidade, com uma equipa de jornalistas aguerridos e com espírito “angolano” em que pontificavam Charulla de Azevedo e João Fernandes (que assinava já então “a chuva e o bom tempo”, coluna com que se transferiu para o Diabo, de Vera Lagoa).

A televisão só em vésperas do 25 de Abril faria a sua aparição, mas a rádio estava nos seus melhores dias, passando uma mensagem do tipo Brasil dos anos 70 “ninguém segura!”. Os programas da série Luanda 64 (e daí por diante até 74), a Grande Roda[4] e outros mantinham o ouvinte informado e interessado sobre temas de interesse local e regional, deixando para segundo plano o que se passava lá longe, no putu.

Havia um programa em kimbundo (ou seria umbundo?) dirigido à população do musseque. O palavreado era, para mim, impenetrável, mas a música era do melhor que os agrupamentos musicais angolanos produziam, à mistura com os merengues que começavam a chegar. O programa era o tondoya ‘muquino kizomba , que lançava o convite aos ouvintes: “vamos dançar a batucada em nossas casas”. Daí para a frente, era tudo em kimbundo, inclusive a publicidade[5].

Não me lembro de concertos[6] nem de teatro, mas por volta de 1965 passou por Luanda uma companhia de Ópera (do Trindade, se bem me lembro) que apresentou o Rigoleto, a Lucia de Lamermoor e a Carmen.

A sociedade luandense estava a mexer em todos os sectores e o desenvolvimento acelerado que se vivia, era quase palpável.

E no entanto…

No entanto, a guerra prosseguia morna no norte, mais violenta no leste (violência atenuada pela distância e pela menor implantação portuguesa naquelas paragens). Nas cidades quase nada se passava, para além de umas rusgas de que nos apercebíamos quase por acaso, e que pouca divulgação mereciam.

Seguia-se com atenção o que se passava na Rodésia (o Ian Smith, foto a seguir, era uma espécie de herói) e não se duvidava nem por um instante de que a África do Sul permaneceria um firme baluarte do poder branco[7] (afinal os brancos de lá não tinham outra terra, não tinham para onde ir, portanto…), e com ela o Sudoeste Africano no nosso flanco sul.

E lá iam aparecendo os autocolantes e pinturas nos embondeiros à beira da estrada, proclamando que “ASPRO só faz bem!”. ASPRO era uma marca de comprimidos no género da aspirina. Só que neste caso o significado era outro:

AS África do Sul;
P Portugal;
RO Rodésia.

Ficava, pois, a sugestão de que o reduto da civilização ocidental (ou o reduto branco) devia aumentar a sua coesão, unindo-se contra a barbárie que o ameaçava.

A questão era complicada: os bárbaros eram apoiados pela União Soviética (e pela China) ou pelos Camones (se bem que com as ambiguidades habituais) e a ASPRO não era apoiada pelo Ocidente (cristão e democrata) com grande entusiasmo. Parecia lógico que os bons se deviam unir, e com caracter de urgência.

Desta minha passagem por Luanda, que durou dois anos, não há muito que contar.

O Liceu Salvador Correia não era muito diferente dos outros liceus por onde andei, quer nos edifícios, quer nos professores, quer nos colegas, quase todos brancos. As excepções habituais eram um colega preto (o Saci – a alcunha era fatal como o destino – que voltei a encontrar anos depois como médico militar, em altas pescarias e fins de semana no Mussulo), um ou dois cabritos e um indiano.

O colega indiano, o Edgar Valles e a irmã, Sita Valles, futura militante da UEC, viriam a ser mortos no rescaldo do golpe sangrento de Nito Alves, em 27 de Maio de 1977 . (Atenção que o filme é nitidamente de apoio ao grupo do Nito Alves e da sua "Revolução"; mas é uma maneira de começar, se ainda não leu Purga em Angola, de Dalila Cabrita e Massacres em África, de Felícia Cabrita; deste último, o capítulo a Revolução Perdida de Sita Valles trata precisamente do 27 Maio, em particular a sua preparação - aspecto descurado pela maioria dos livros sobre este tema).

O irmão mais novo, também muito ligado ao grupo do Nito, regressou a Portugal pouco antes do golpe, o que lhe terá salvo a vida. Exerce por cá advocacia e tem um "consultório" digital no Público.

. . . . .
NOTAS:

[1] Os batalhões tinham, em geral, as companhias distribuídas por vários locais, e algumas delas destacavam pelotões para pontos que interessava controlar. Desse modo, a cobertura do terreno era, ou esperava-se que fosse, mais efectiva. Ao fim de certo tempo, mais ou menos a meio da comissão, o batalhão mudava para outro local, donde por sua vez saíra outra unidade e assim sucessivamente. Esta rotação evitava que as unidades fizessem toda a comissão em zonas boas, ou em zonas más; por outro lado, evitava que se estabelecessem hábitos, rotinas, padrões de comportamento de que o IN (sigla que designa o inimigo) se pudesse aproveitar.

[2] Avenida à beira mar que se desenvolve desde o porto marítimo até à ponte que liga a ilha de Luanda à cidade.

[3] o advento das discotecas ainda vinha longe, mas será de toda a justiça incluir no rol as casas de pêgas (finas, menos finas e vagabundas), destacando a da D. Nanda na estrada da Samba, e o nº 28, à Mutamba, com clientela selecta e meninas “de família e estudantes”, mas também serviam mulatas e pretas “limpas” para os clientes amantes do exótico...

[4] A frase chave era “porta aberta, mangas de camisa, Grande Roda, TAC, TAC!”

[5] como por exemplo às máquinas de costura Oliva, oió maquin’ó cutonga, etc, etc (soava mais ou menos assim, e não me lembro do resto).

[6] Se bem que existisse então, há alguns anos, uma Academia de Música onde as meninas prendadas aprendiam piano e solfejo…

[7] Claro que não era habitual ouvir-se defender o apartheid (afinal a colonização portuguesa era diferente), mas toda a gente tinha esperança de que a África do Sul não se deixasse submergir pela bandalheira que grassava no resto do continente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 12 O Regresso

Com o início da guerra em África e desfeitas as ilusões de que umas tantas operações de limpeza poriam rapidamente fim ao terrorismo, começou para os militares de carreira um vai vem contínuo entre a Metrópole e África, em sucessivas comissões, que só viria a terminar com o 25 de Abril de 1974.

Para os portugueses, os tempos dourados da África romântica, das pescarias na Barra do Dande (ou simplesmente na baía do Mussulo), das caçadas, dos safaris às terras do fim do mundo, intervalados pelos seis meses de licenças graciosas na santa terrinha, esses tempos estavam condenados, muito em breve, a não serem mais que uma doce recordação.

E assim, ao fim de cinco anos de Angola eis-nos de volta a Portugal.

O nosso regresso coincidiu com uma viagem do Almirante Tomás ao Ultramar, na qualidade de Presidente da República.

O Venerando Chefe de Estado (chavão com que habitualmente a imprensa da época o designava) regressava a Lisboa no paquete Infante D. Henrique e, para não se expor a chatices e acidentes, fazia-se acompanhar quase só de polícias, Pides e militares em fim de comissão (com as respectivas famílias).

Para além do folclore aquático em Luanda e S. Tomé, onde fizemos escala, a viagem não teve motivos especiais de interesse. O folclore a que me refiro consistiu num desfile de barcos de todo o tipo que coalhavam o mar junto do Infante D. Henrique, atestando o portuguesismo das gentes daquelas províncias que, sendo ultramarinas, pediam meças em portuguesismo às Beiras ou ao próprio Minho, berço da nacionalidade (como diria a inspirada imprensa da época).


É claro que a quase totalidade dos barcos eram propriedade de colonos portugueses, mas isso não vem agora ao caso...

Naqueles tempos, à falta de melhor sufrágio, eram as manifestações, espontâneas ou não, que davam ao governante a sensação de ser amado pelo seu povo. A este não era, pois, necessário perguntar o que queria, e muito menos deixá-lo responder colocando uma anónima cruzinha num papel cuidadosamente dobrado e logo metido numa caixa, onde se misturaria com outros iguais...

E assim, de manifestação em manifestação, hoje carregado em ombros pelas quitandeiras de Angola (foto ao lado) amanhã aclamado pelos pescadores da Nazaré, o nosso Venerando Presidente acabou deposto, quando tanto havia ainda a esperar dele[1]. Oiçam aqui a voz do cromo.



NOTAS:

[1] Pelo menos, em broncas e gafes. Enternece o coração mais empedernido lembrar o Almirante Tomás a discursar em Santarém, uma linda cidade que não sendo grande, era das maiores entre as mais pequenas, ou a célebre tirada das barragens, qualquer coisa como: venho hoje inargurar a n ésima barragem… desculpem, a n ésima primeira; bem, o Presidente não deve pedir desculpa, por isso, peço desculpa por ter pedido desculpa. (fabuloso!!!)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 11 O Bairro Militar, a Tropa

O Bairro Militar em Nova Lisboa ficava junto ao Bairro de Santo António, a meio caminho entre este e a cidade alta, para onde se ia por uma rua ainda por asfaltar. O asfalto começava num largozito triangular (em forma de ferro de engomar, como se dizia dantes) onde se erigiu um monumento aos heróis de Mucaba[1].

O bairro militar não tinha qualquer comparação com o seu congénere de Sá da Bandeira, pois era muito maior, com os blocos de apartamentos para sargentos e oficiais do tipo dos existentes naquele, e ainda vivendas unifamiliares, de dois pisos com jardins à volta, dispostas de ambos os lados da avenida central e destinadas a oficiais superiores.

Para além disto, havia mais algumas construções antigas e de arquitectura sui generis, sem qualquer traço em comum com as anteriores.

O bairro era todo cercado por uma fiada cedros, e as entradas de viaturas faziam-se apenas por dois pontos. Essas entradas não eram controladas, mas podiam sê-lo caso as circunstâncias o justificassem. Havia um clube de Sargentos[2], com bailaricos de vez em quando, e um barzito para se beber uns copos ao fim da tarde.

Havia um ringue de patinagem, mais um campo para futebol de salão, andebol, e desportos ditos pobres. De resto, muito espaço e muitas árvores (nespereiras e cerejeiras em profusão) para o pessoal brincar.

Em Nova Lisboa havia muito mais tropa que em Sá da Bandeira, daí que o bairro militar fosse tão grande. Para além do Regimento de Infantaria, havia um Grupo de Artilharia de Campanha (unidade equivalente em efectivos a um batalhão de Infantaria) e uma Escola de Aplicação Militar que formava sargentos milicianos e onde mais tarde (1966) decorreria parte do primeiro COM[3] realizado em Angola.

Estando grande parte da população branca concentrada em Luanda, muitos dos formandos do CSM[4] eram oriundos da capital. Aos fins de semana, formavam-se autênticas caravanas de carros cheios de tropas a caminho de Luanda, na sexta feira à tarde, e de regresso a Nova Lisboa, no domingo pela noite dentro.

É claro que a viagem se fazia sem escolta, pois os perigos nessa estrada não eram de cariz militar. Mortes havia-as e não eram poucas, não devido a emboscadas, mas devido aos acidentes. A estrada era de asfaltagem recente, o trânsito era escasso, as rectas eram muitas e longas, de modo que o acelerador ia a fundo a maior parte do tempo. Bastava o sono apertar, um carro parar para lá de uma lomba, ou qualquer incidente do género, para se criar uma situação perigosa que por vezes redundava em tragédia.
Mas a malta era jovem, e o que interessava eram umas horas bem passadas em Luanda para esquecer as agruras da tropa.

Por essa altura (terei morado no Bairro Militar em 1962-63), com o aumento dos efectivos para fazer frente ao terrorismo, as Zonas Militares passaram a ser comandadas por Brigadeiros. O Bairro passou a albergar um novo inquilino, circunspecto no seu Volkswagen preto (nesses tempos havia alguma parcimónia na utilização de viaturas do Estado, e os Mercedes não eram para qualquer um...), dando nas vistas cheio de estrelas e passadores vermelhos.

Tratava-se do Brig Arnaldo Shultz , de passagem entre dois cargos mais relevantes. Antes fora Ministro do Interior, depois viria a ser Comandante em Chefe e Governador da Guiné (na foto, é o da esuqerda, de óculos escuros). Se aquele cargo no Governo não o preparou para comandar a guerra da Guiné, a pacífica passagem por Nova Lisboa muito menos o fez.

E assim, este Ministro de Salazar implantou na Guiné um dispositivo puramente defensivo, com a tropa macaca[5] acantonada nos quartéis donde partia em patrulhas pela zona que lhe estava destinada, sempre sob o fogo do PAIGC, cada vez mais agressivo e bem armado. Spínola inverteu o rumo dos acontecimentos, e aguentou mais cinco anos, de vitória em vitória até a situação se aproximar da derrota final.



Spínola, com as suas duas Torre e Espada[6], falhou as três principais apostas em que se traduziu a sua actuação na Guiné[7]:

A. Não conseguiu atingir o PAIGC nos santuários além fronteira, nem quebrar os apoios de que lá desfrutava (a operação Mar Verde não matou Cabral, não depôs Sekou Touré, e desencadeou um quase bloqueio da marinha soviética, ávida de protagonismo);

B. Não conseguiu convencer os guinéus da sua condição de Portugueses (esta, realmente, não lembrava ao menino Jesus!), atacados por bandidos vindos do exterior. Quando muito, conseguiu cumplicidades entre algumas etnias e uma pequena “vietnamização” da guerra que não foi muito além das unidades de comandos africanos. Muitos destes infelizes pagam agora no exílio, ou marginalizados na Guiné (os que não foram fusilados), o feio acto de se terem juntado ao colono, pegando em armas contra os seus conterrâneos (para não dizer irmãos...).

C. Quanto às operações levadas a cabo pela tropa de intervenção, teve bastantes sucessos, mas nenhum decisivo per se, nem decisivos no seu conjunto. A tropa de intervenção por si só não ganha nenhuma guerra. Pode fazer um brilharete, com uma elevada contagem de corpos, mas quando se retira fica o vazio, ou quando muito ficam as unidades de quadrícula, em geral sujeitas a bombardeamentos quase constantes durante meses, acabando, muitas vezes, por se remeter a uma posição totalmente defensiva.


Quando a tropa de elite regressava aos seus quartéis, finda a operação, o PAIGC voltava calmamente a ocupar o terreno, a flagelar as posições de quadrícula, a aproximar-se um pouco mais da vitória.

Esta aposta na tropa de intervenção levou Spínola a cometer um grave erro estratégico. Retirou unidades de quadrícula de uma vasta área desabitada (não havia populações para defender...) deixando-a ao PAIGC que a usou como zona libertada para mostrar ao Mundo e para lá declarar a independência. Este erro de Spínola permitiu ao PAIGC deixar de ser apenas um partido em luta contra a potência colonial para passar a constituir um governo legítimo (reconhecido por quase 100 países) de um Estado independente, com parte do seu território ocupado por uma potência estrangeira. Se quisermos uma data para a derrota portuguesa na Guiné, não arranjaremos melhor que a data da proclamação da independência em Madina do Boé.


Voltando a Nova Lisboa, resta dizer que esta cidade viria a ser quase totalmente destruída após a independência, tendo estado sucessivamente na posse dos Sul Africanos, FNLA, UNITA, MPLA (cercada pela UNITA durante vários anos sem electricidade e com pouca água). Acabou por ser evacuada pelo MPLA, e ocupada pela UNITA, para ser recuperada pelo MPLA, anos depois.

Durante os períodos de domínio da UNITA, os poucos brancos que restavam (portugueses e angolanos) foram desaparecendo (saíam da cidade, se o conseguiam, ante a iminência da entrada da UNITA) buscando em Luanda ou em Portugal ares mais saudáveis (e autoridades menos arbitrárias...) para viver.

A acção da Unita nas zonas que ocupou pautou-se pela destruição sistemática de tudo o que não é usável no quimbo, desde grupos geradores de barragens, a postes de alta tensão passando por escolas, pontes, Instituto de Investigação[8]. Sobre este assunto, o Anexo 7, se bem que essencialmente opinativo, traz mais algumas achegas.

. . . . . .

NOTAS:

[1] Mucaba era uma terreola mínima, no norte de Angola, que ficou como um dos símbolos da resistência portuguesa ante as hordas da UPA. A população refugiou-se na igreja e esteve sitiada vários dias, quase sem munições nem víveres até à chegada de uma coluna militar. Veja mais sobre o que se passou em 1961.

[2] Os oficiais tinham um clube na cidade alta, a que tinham acesso, para além dos ditos, as forças vivas da cidade. Era, por assim dizer, um clube entre o in e o finaço.

[3] Curso de Oficiais Milicianos.

[4] Curso de Sargentos Milicianos. Eram cabos milicianos durante a instrução e Furriéis após o CSM, durante o tempo de serviço militar até passarem à peluda.


[5] Designação da gíria militar para a tropa de quadrícula, aquela que tem à sua responsabilidade um certa área (o território é, para o efeito, dividido numa quadrícula) onde tem o seu aquartelamento, cabendo-lhe manter os itinerários desimpedidos e seguros, as populações livres de influências subversivas e o território limpo de acampamentos inimigos. Em contraposição tínhamos a tropa de intervenção (comandos, páraquedistas, fuzileiros, caçadores especiais, rangers etc), sediada normalmente em cidades. Saía, de tempos a tempos, para operações com objectivos bem definidos, normalmente com bom apoio logístico e de fogo (aéreo, naval ou outro, conforme os casos). Feita a operação, regressava a penates. As suas operações eram muito mais eficazes que as da tropa macaca, as suas baixas maiores, as suas medalhas muito mais numerosas, e a sua “cagança” desmesurada. Basta ver e ouvir a rapaziada barriguda, de boina, crachá e medalha que se reúne no 10 de Junho junto ao monumento aos combatentes da guerra de África, para perceber que ainda se sentem, de facto, os maiores!

[6] trata-se da mais valiosa das antigas ordens militares, a ordem da Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito. Foi outorgado a Spinola o grau de Grande Oficial, durante a sua missão na Guiné, e muito mais tarde, em 1987, (sem que outros feitos relevantes tenham sido cometidos) foi-lhe outorgada nova Torre e Espada, desta vez a Grã Cruz (acima da qual só há o Grande Colar, em geral só atríbuído a Chefes de Estado). Esta segunda condecoração terá tido um sabor semelhante ao Óscar de “life time achievement”...

[7] No Anexo 5 insere-se um texto com mais uns elementos sobre este tema.

[8] Refiro-me a um Instituto de Investigação situado próximo de Nova Lisboa que foi totalmente destruído pela UNITA, não se percebendo bem qual o valor deste objectivo militar (?!). A sanha deste bando mereceu-lhe, com toda a justiça, a alcunha de javalis, que, ao que dizem os entendidos, para comerem um grão destroem toda a plantação...

sábado, 3 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 10 O Liceu Nacional de Nova Lisboa

As minhas primeiras impressões de Nova Lisboa ficaram fortemente marcadas pelo terrorismo, assunto de conversas e noticiários durante praticamente todo o ano de 61, e parte de 62. Tive alguns professores provenientes do norte, de Carmona (actual Uíge), cujo Liceu fechou durante uns tempos, por o grosso da população branca, à excepção dos homens, se ter refugiado em Luanda, na Metrópole, ou nas regiões não afectadas do centro e sul de Angola.

Um desses professores ficou famoso pelo mau vinho e mão leve. Logo num dos primeiros dias depois da sua chegada ao Liceu terá dado um monumental arraial de porrada num dos poucos pretos que o frequentavam, por um motivo qualquer (não foi na minha turma, de modo que desconheço os pormenores). O homem perdeu completamente o controlo e, enquanto batia no aluno, chamava-lhe preto, terrorista, etc. A partir daí, passámos a tratá-lo com mil cuidados, em particular quando chegava à aula com os olhos injectados e turvos.

Olhava-nos com ar sonolento, percorria a caderneta até escolher um aluno. A potencial vítima era então a convidada a abrir o livro na página tal e, com um arrastado “leia alto e debagar”, começava a sua actuação. Não me consta que o Carneiro Leão, era essa a sua graça, tenha voltado a bater em alguém. A fama de bera chegava para nos manter em respeito.

Para além do Carneiro Leão, este Liceu tinha a maior colecção de tipos curiosos que encontrei ao longo da minha vida escolar. O máximo era o Barbeiro, Vieira de seu nome. Começou como professor de substituição, que lhe valeu uma primeira alcunha de Tapa Furos. Passou depois a professor permanente da disciplina de Físico Químicas. A alcunha de Barbeiro era-lhe devida pela bata branca que usou desde o primeiro dia.

Não frequentava a sala dos professores, passando os intervalos nas varandas (o liceu tinha em cada piso amplas varandas, com escadarias nos topos, para onde davam as portas das salas) a olhar o infinito, agarrado à pasta de couro que nunca largava.

Com o tempo, as costas das batas passaram a ter marcas permanentes de tinta projectada pela malta à passagem do Barbeiro[1]. Era uma pessoa extremamente solene e séria, falava numa linguagem rica em palavras caras e citações avulsas. Raramente ria e não gostava muito que o fizéssemos nós. Não se zangava, mas fulmináva-nos com “o tolo não sabe de que se ri!”.

Quando entrava na sala e o cumprimentávamos com o habitual “bom dia, sô tôr”, olhava-nos de revês enquanto caminhava para a secretária e resmungava um “palavras inúteis!”.

Se fazíamos barulho (o que não era raro), interrompia a aula dizendo-nos qualquer coisa como “ouvi um murmúrio isolado; quem murmurou?”. Como ninguém se acusava (claro!) nomeava vigilantes, a quem pedia para indicarem a direcção donde o murmúrio provinha. Só da primeira vez, por estarmos ainda desprevenidos, é que as três direcções se intersectaram num ponto. Daí em diante as direcções indicadas pelos vigilantes eram totalmente desconexas, o que o deixava perplexo. Acabou por abandonar de vez este método.

A tabela de classificações que usava era muito diversificada e expressiva. Os suficientes podiam ser mínimo, médio e quase médio, afectados de vários pontos de interrogação (tive, por exemplo, um suficiente mínimo com cinco interrogações). O medíocre médio era uma classificação razoável: dava 10 no fim do período.

Não me lembro de ter tido (ou de alguém ter tido) mais que suficiente médio, que era uma boa classificação: dava 13 no fim do período. Treze era, aliás, o seu número preferido. Com o tempo, apercebemo-nos de que os problemas davam sempre 13, de modo que, quando não sabíamos resolvê-los, podíamos sempre misturar os dados até dar treze. Este expediente provocava grande profusão de rabiscos, interrogações e comentários escritos à margem do ponto, mas garantia um medíocre médio. Dava dez no fim do período, do mal, o menos!

As notas das chamadas eram uma coisa perfeitamente louca. Basta referir uma chamada no seguimento da qual ficou registado no meu caderno um “chamada algo regular, com passos algo aproveitáveis de um passado próximo”. Não dá para acreditar. E de Barbeiro, estamos conversados!

A professora de desenho, mulher do reitor, era uma brasa já a entrar na meia idade, ainda com os seus abundantes atributos perfeitamente em forma[2]. Como alunos respeitadores, esperávamos a chegada do reitor debruçados nas varandas, e cumprimentávamo-lo quando saía do seu Taunus 17 M que arrumava nas traseiras do edifício. As varandas ficavam quase à vertical do pára brisas, o que nos proporcionava o espectáculo da Piedade[3] a sair do carro, qual Vénus a sair do banho.

(Na foto a seguir, a Piedade enquadrada pelas meninias da turma da minha irmã, a 4ª a contar da direita, de pé).

O espectáculo era reposto em várias sessões na sala de aulas, quando a secretária era rodeada por artistas interessados em esmiuçar determinados pormenores de um desenho. Quando o debate estava bem aceso, e a Piedade empolgada a discorrer sobre a temperatura da escala cromática, um lápis desgarrado caía ao chão, quase sempre à frente da secretária. Naturalmente, alguém tinha que se baixar para o apanhar (às vezes, o raio do lápis demorava um tempão a achar...). Um belo dia, o Marinheiro deixou cair uma borracha, que saltou mesmo para os pés da professora. No preciso momento em que ele se preparava para lhe deitar a mão (à borracha, não à professora), ela descruzou as pernas. Foi terrível!

Ela não só lhe deu um pontapé, como ainda por cima o acusou de lhe estar a espreitar para as pernas (incrível!) e não acreditou que ele só estava a apanhar a borracha!

Continuando com bizarrias, um dia o Anacleto Ferramenta Isaías, um dos poucos colegas pretos (era o melhor aluno do 3º ano)[4] pirou de vez. Faltou às aulas durante uns dias e voltou com uma história complicada um tanto lafontainiana. Fora visitar um tio que vivia no mato, perdeu-se, fartou-se de andar a pé até que chegou a um sítio onde havia uvas. Ele estava cheio de fome, mas as uvas estavam verdes, verdes que nem os cães as podiam tragar. Não me lembro do resto da história, mas o mote era este. Creio que acabou por deixar o Liceu, e nunca mais soube dele. (*)

No ano em que cheguei a Nova Lisboa, o Liceu acabara de ser inaugurado, compreendendo apenas o corpo principal, de dois andares, cuja frente seria a fachada principal do edifício. O resto continuava em construção, e viria a ser um conjunto imponente, com um segundo corpo paralelo ao principal, interligados por três blocos perpendiculares àqueles, um central e dois laterais. Destes últimos partiam dois ginásios, paralelos ao corpo principal. Quando regressámos à Metrópole, estava eu no início do 4º ano, as obras estavam quase terminadas.

Nesse tempo, a rua de acesso ao Liceu estava ainda por asfaltar, de modo que o percurso desde a Granja era um monumental lamaçal no tempo das chuvas. Melhor sorte tinha o pessoal que frequentava a escola Industrial e Comercial (foto acima) que ficava mesmo junto à Granja, quase em frente do Palácio do Bispo. Se bem que o asfalto não chegasse à escola, o trajecto por asfaltar não teria cem metros.

A rua do liceu conduzia ao Benfica, um complexo desportivo, com uma pequena piscina para onde a malta ia dar uns mergulhos quando algum professor faltava. Entre o largo do liceu e o Benfica havia uma mata onde apareceu uma vez um tipo morto a tiro, tendo ficado por esclarecer se se tratara de crime passional (a mata era ponto escolhido para encontros discretos), se teria alguma coisa que ver com actividades terroristas.

O largo do Liceu ficava numa encosta suave que começava no Hospital (de cuja morgue já falei mais atrás) e ia até um riozito que nascia algures atrás do palácio do Bispo, entre a Granja e a 5 de Outubro, e seguia em direcção à mata do Benfica. Se bem que o riacho fosse, nesse trecho, um simples fio de água, alargava-se em lagoas onde a malta nadava, e em cujas margens fazíamos altas guerras de goiabas verdes. O resultado não ia além de galos resultantes do impacto das ditas que, se bem que pequenas, são bastante duras e compactas quando verdes.

Foi no regresso de uma dessas expedições ao rio que alguém nos trouxe a notícia de que o Carneiro Leão se passara com o tal aluno preto. Lembro-me que ficámos a congeminar revoltas contra a patibular personagem, até que tocou a campainha para a próxima aula, e a revolta ficou por aí mesmo.
. . . . . .
NOTAS:

[1] A esferográfica não fizera ainda a sua aparição.

[2] Georges Brassens, no Bistro, cantava uma balzaquiana quejanda, “avec ses appas bien en place”. Voilá!
[3] assim se chamava a matrona

[4] a minha proverbial modéstia impede-me de revelar quem era o segundo, logo, logo a seguir ao Anacleto.

(*) Graças à Internet, soube agorinha mesmo, numa pesquisa "por descargo de cosciência", que o Anacleto era em 1999 Presidente da Câmara, ou Comissário Municipal, do Bailundo; vejam a notícia de 16/7/99 no link das Notícias da Unita; porreiro, pá! vou tentar localizá-lo e entrar em contacto com ele)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 9 Nova Lisboa

Pouco depois do regresso do meu pai a Sá da Bandeira (acompanhado do inevitável papagaio cinzento e rabo vermelho, ex libris de Cabinda), fizemos as malas, encaixotámos as bicuatas[1], e rumámos a Nova Lisboa, em cujo regimento o meu pai fora colocado.

Fizemos a viagem numa camioneta de carreira típica das áreas rurais desse tempo. A viatura era um cruzamento entre autocarro e camião, sendo a metade dianteira destinada a passageiros, e a traseira, caixa de carga, destinada à carga e bagagem.

Angola era nesse tempo, tal como continua hoje, servida por uma rede ferroviária de penetração, com três linhas[2] que partiam dos portos de Luanda, Lobito e Moçâmedes e terminavam, respectivamente, em Malange, Teixeira de Sousa, na fronteira do Catanga, e um pouco antes de Serpa Pinto[3].

As comunicações norte-sul, no interior, faziam-se por estrada. A rede de estradas era considerável, mas no tocante a estradas asfaltadas era quase inexistente. As empresas de camionagem tinham uma actividade intensa e eram várias, a EVA[4], a Socotral, a Venâncio Guimarães (de uma das famílias mais ricas de Sá da Bandeira), etc.

Assim, a nossa viagem para Nova Lisboa foi feita por estrada de terra batida, desde madrugada até ao fim da tarde. Passámos por diversas povoações, mas, para além de paisagens espectaculares, não vimos nada de especial: a viagem foi uma pasmaceira, para além de muito incómoda. Não levámos qualquer escolta, nem íamos na companhia de nenhuma outra viatura.

Mesmo depois do início do terrorismo as viagens no centro e sul continuaram a fazer-se na melhor paz possível, pois as áreas de guerra estiveram sempre circunscritas ao norte e, a partir de certa altura, estenderam-se ao leste.

Nova Lisboa (fotos da autoria de MGV) era uma cidade muito maior que Sá da Bandeira, quer em população, quer em área. O núcleo central, constituído pela Baixa e pela Alta, era envolvido por uma série de bairros periféricos, quase todos com nomes de santos. Nós ficámos instalados no Bairro de Santo António, que tinha a vantagem de ficar relativamente perto da zona dos quartéis. A Alta e a Baixa estendiam-se ao longo da linha de caminho de ferro, paralela à qual se alongava a avenida 5 de Outubro, desde a zona das oficinas do CFB[5] até ao largo Norton de Matos.

(Veja mais fotos aqui) A outra ligação era muito mais curta, numa zona com um declive acentuado, e ia do largo do mercado, na baixa, até ao largo dos correios velhos, na alta. Esta rua era a Granja (desconheço se tinha algum daqueles nomes postiços tipo efeméride patriótica ou nome de um qualquer morcão que matou muitos pretos ou enganou muitos brancos) (foto à direita - o morcão era Paiva Couveiro...).

De um dos lados da Granja, à esquerda de quem desce, ficava uma mata, com estufa fria, jardins e um lago, e quase nenhumas construções, para além do palácio do Bispo.

Do outro lado erguiam-se algumas casas, quase todas baixas e antigas, e uma transversal (na realidade um enorme descampado) que conduzia ao Liceu, passando, logo no início, pela Escola Industrial.

Para lá da linha de caminho de ferro ficava o bairro de S. Pedro, com algumas fábricas, entre elas a da Cuca (cerveja), e o bairro do Ferrovia, com as oficinas do CFB, as instalações do Clube que deu o nome ao bairro, de que se destacavam o campo de tiro aos pratos e a piscina. À falta de praia, a piscina era absolutamente vital para o pessoal dar uns mergulhos ao fim de semana.

A piscina do Ferrovia (foto ao lado, tirada da Sanzala Angola) não era a única da cidade, mas era de longe a maior, pelo que o meu pai se fez rapidamente sócio do clube.

Pouco depois da nossa chegada, deu-se um acidente no extremo sul de Angola, no Chitado, com um avião militar, um Nord Atlas, no qual morreu quase toda a cúpula das forças armadas na província, incluindo o comandante em Chefe, General Silva Freire. (Tenho que fazer uma correcção: o desastre ocorreu com um Dakota e não com um Nord Atlas).

Curiosamente, foi dado o seu nome a uma rua de Lisboa, nos Olivais-Norte. A placa toponímica refere que o senhor general morreu em 1961 em Angola ao serviço da Pátria, deixando que o transeunte desprevenido pense que morreu em combate ou, ao menos, numa zona de guerra.

Os ecos do 4 de Fevereiro[6] chegaram-nos mais como um incidente pontual, um acto de banditismo, sem consequências de maior, já que a nossa tropa, secundada (ou ultrapassada...) pelas milícias que rapidamente se formaram, chegou e sobejou para repor a ordem.

Com o 15 de Março, a música foi outra. Tratou-se de um revolta de rara violência, que se generalizou a todo o norte de Angola, tendo algumas cidades chegado a estar cercadas. Carmona, actual Uíge, que o diga!

A estratégia usada parece ter sido a de aterrorizar a população branca[7], por meio de morticínios perpetrados por hordas ululantes e drogadas que matavam com requintes de crueldade, esquartejando e esventrando as vítimas que lhes apareciam à frente. Assim morreram brancos, homens, mulheres e crianças, e pretos bailundos, infelizes contratados, trazidos do planalto central por tuta e meia, para serem vitimados pelo ódio tribal que a UPA começou desde cedo a destilar de forma inequívoca. (Veja este pequeno filme)

Mais tarde, dir-se-ia da FNLA, sucessora da UPA, que era como um conhecido detergente: o OMO lava mais branco, e a FNLA limpa mais brancos.

Estas matanças tiveram um impacto muito forte em toda a província, circulando fotografias macabras do que os soldados encontraram, à medida que as colunas que partiam de Luanda iam chegando aos palcos das tragédias de Março de 1961.

Nas áreas não afectadas começou-se com rusgas e inquirições, com algumas prisões de suspeitos. Assim foi preso o faxina de um nosso vizinho em Sá da Bandeira, em cujos pertences foram encontradas estrelas de general e propaganda do MPLA.

A população branca formou milícias de auto defesa, e todo o mundo passou a receber instrução no manejo de arma. Passámos a ter em casa uma espingarda Mauser, com vários pentes de munições, para o que desse e viesse.

A nossa casa ficava junto a uma mata enorme[8], pertencente ao Instituto de Investigação Agro-Pecuária do Huambo. Uma noite, estava o meu pai de serviço no quartel, começámos a ouvir grande gritaria vinda da mata acompanhada de rufar de tambores, primeiro muito ao longe, depois o ruído foi crescendo como se a sua orígem se estivesse aproximando. Pensámos, claro, que os terroristas nos vinham atacar[9]. A minha mãe não se perturbou, agarrou na Mauser, pôs um avental em cujo bolso da frente meteu pentes de munição, carregou a arma, e ficámos à espera, de luzes apagadas.

Como a gritaria parecia já muito próxima, nem sequer cuidámos de ir às casas vizinhas, nalgumas das quais também viviam militares, para concertar a acção defensiva. Ficámos simplesmente a postos para o que desse e viesse.

Consta que terei perguntado à minha mãe se íamos morrer. Não me lembro de ter propriamente tendência para dramatizar, mas nesses tempos era comum ouvirem-se histórias de famílias dizimadas no norte, ou encontrarmos colegas de Liceu cujos pais tinham fazendas no Uíge ou nos Dembos, e lá tinham sido mortos e esquartejados.

Afinal a barulheira era uma batucada dos trabalhadores da Pecuária e a ilusão que tivemos de aproximação ter-se-á devido aos caprichos do vento.

Com o tempo, a sensação de catástrofe iminente em que se vivia após os massacres de 1961 foi-se atenuando, e a vida no centro e sul prosseguiu na velha paz de sempre.

Havia agora uma política nova para com o preto, a par de um esforço para desenvolver a economia da província. A acção psico social (ou Apsic) consistia, resumidamente, em tentar conquistar a população para a nossa causa, mostrando-lhe que os portugueses estavam a combater os terroristas que só queriam matar o branco e mandar no preto. O interesse da população seria denunciar os terroristas e trabalhar ao lado dos brancos.

A desumanidade dos contratos de trabalho foi aligeirada, a brutalidade indiscriminada sobre os pretos tornou-se menos ostensiva. Em contrapartida, o terrorismo proporcionou às “forças da ordem” uma arma que fazia calar qualquer Apsic e permitia todas as arbitrariedades. Se um preto era terrorista (ou rotulado como tal), o seu destino estava traçado e o tratamento era agora mais radical que as velhas palmatoadas...

Quando, muitos anos depois, estive em Quibaxe, na tropa, os colonos da região chamaram-me a atenção para o capim que crescia viçoso numa zona junto ao forte (foto actual, ao lado) onde a população branca se refugiou em 1961, adubado por cerca de 400 turras[10] enterrados numa vala, à força de bulldozer.

Uns menos mortos que outros, uns mais turras que outros.

. . . . . .

NOTAS:

[1] palavra Mumuila de uso tão abrangente como a nossa coisas; a palavra mais divulgada, com o mesmo significado é imbambas.

[2] Não incluo as pequenas linhas do Cuio ao Dombe Grande e de Porto Amboim à Gabela, linhas de bitola estreita (60 cm) e servindo áreas muito restritas.

[3] Depois da independência, Teixeira de Sousa deu em Luau (nome do rio que lhe passa próximo) e Serpa Pinto em Menongue.

[4] Empresa de Viação de Angola. Desconheço se tinha alguma relação com a homónima do Algarve.

[5] Caminho de Ferro de Benguela, empresa mais rica e mais influente na faixa servida pelo comboio entre o Lobito e Teixeira de Sousa, na fronteira leste.

[6] Ataque à cadeia em Luanda, pelo MPLA, que desencadeou uma onda de violência branca nos muceques.

[7] por este motivo, considero perfeitamente razoável utilizar a expressão terrorismo para o início da luta armada contra Portugal. Não duvido de que essa luta se destinava a libertar o país dos estrangeiros que lá se instalaram e que medravam à custa da população autóctone. Só que essa luta começou com actos de terrorismo nu e cru, sobre a população civil.

[8] Ocupava uma área de cerca de 100.000 hectares, dispondo de vacarias, viveiros de plantas, laboratórios, constituindo o núcleo que anos mais tarde deu origem à Escola Superior de Medicina Veterinária.

[9] Segundo as histórias que se contavam sobre os ataques no norte, os terroristas investiam ao som de tambores gritando “UPA Lumumba!”. Não temiam as balas do branco, pois os feiticeiros ter-lhes-iam dado uma beberagem que os tornava imunes a elas. Daí a frase “bala de branco não mata preto”. Assim, chegavam a encaixar várias descargas, avançando sempre, até caírem junto às trincheiras. O efeito psicológico sobre os defensores deve ter sido deveras devastador.

[10] Versão simplificada de terrorista. Nós, os tugas, eles, os turras.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 8 O Início do Terrorismo


Nessa altura, estaríamos em 1959, o eco da agitação nos Congos antes e após as independências fazia-se ouvir em Angola, em parte pelos noticiários e pelos jornais, atenuados pela censura, em parte pela Rádio Brazzaville. Esta emissora francesa captava-se muito bem e tinha programação em português [1]. Os noticiários eram muito mais sumarentos que os das rádios locais (radio clube da Huíla) e das que emitiam a partir de Luanda (Emissora Oficial, Rádio Clube de Angola e Radio Eclesia ou emissora católica).

Era pela Radio Brazzaville que sabíamos de algumas coisas que se passavam em Angola, ou com ela relacionadas. Falava-se muito sobre os refugiados de Angola nos Congos e em questões na fronteira de Cabinda com o Congo Brazzaville (ex Congo Francês, mais tarde República Popular do Congo). Falava-se também de novos personagens, uns que mandavam, outros que queriam mandar, como o abade Youlou, o Lumumba (à esquerda), o Kasavubu, o Moisés Tschombé[2], mais tarde o coronel Mobutu.

Um nome habitualmente ouvido nessas emissões era o de Dag Hammarsjoeld (foto a seguir), o nórdico secretário geral da ONU, que andou a mediar conflitos na zona, acabando por morrer num acidente de aviação. A primeira impressão que tive da ONU identifica-se com a sua imagem de homem de acção, com um toque de herói abnegado, em contraste com os seus sucessores cinzentões, e com o mastodonte burocrático em que a ONU se tornou.

Estava-se, nesse tempo, no limiar de uma situação nova, que nunca ocorrera durante os séculos que já levava a presença portuguesa em África: havia várias colónias que tinham ascendido à independência, e havia um sentimento quase generalizado nos fóruns internacionais de que as restantes colónias deviam seguir o mesmo caminho, se essa fosse a vontade expressa dos seus habitantes. Havia, pois, que lhes perguntar o que queriam.

Até então, os territórios africanos eram herdados, doados, divididos pelas potências europeias a seu bel prazer, sem qualquer atenção ao facto de esses territórios, na sua quase totalidade, serem habitados à data da chegada dos europeus. Ao traçar e retraçar as fronteiras não eram sequer tidas em conta as características tribais ou afinidades culturais das populações acontecendo muitas vezes uma tribo (ou mesmo uma nação) ficar dividida por duas colónias dos Senhores europeus. (Na foto ao lado, Leopoldo II , "dono" do Congo Belga).

O direito de posse sobre um território tinha que ver com quem lá chegou primeiro (critério da descoberta), depois com a ocupação efectiva, e mais tarde, com a capacidade para desenvolver a colónia (um dos argumentos usados pela Alemanha para contestar a presença de Portugal no Sul de Angola, candidatando-se, claro!, à sucessão...).

Nenhum dos critérios tinha em conta a vontade das populações, tida como selvagem e incapaz de se governar, sem a mão firme do europeu. Esta arrogância era a atitude corrente para com os seres inferiores, não só pretos, mas também pobres, hispânicos (nos States) ou simplesmente mulheres. Nos países mais desenvolvidos da Europa e na terra do Tio Sam, as mulheres, por muito instruídas que fossem, não tiveram até não há muito tempo,
direito de voto. Em quase todos esses países a sociedade estava (e ainda está, se bem que em menor escala) organizada de modo a que apenas uma elite muito restrita (a nata da nata da nata) tivesse efectiva intervenção na gestão da coisa pública.

Não é de espantar, pois, que os participantes da Conferência de Berlim tivessem mais em que pensar do que na opinião de pretos sujos, iletrados[3], primitivos e ainda por cima gentios!

Após a Segunda Guerra Mundial, com as independências da Índia e da Indonésia, e mais tarde com o fim da teimosia francesa na Indochina, a dominação colonial em África entrou em rápida desagregação. Sobrou Portugal.

Durante séculos, os militares portugueses cobriram-se da glória possível e de medalhas mantendo em respeito hordas ululantes de pretos armados de zagaias, mas sempre inconformados com a dominação portuguesa. As campanhas de África gozavam, então, da aprovação geral, desde que as potências coloniais não se imiscuíssem nos assuntos das colónias vizinhas. (Ao lado, foto do Gungunhana)

Nesse tempo, ninguém daria atenção a um eventual relatório sobre matanças de populações mais ou menos indefesas, nem sobre utilização de trabalho mais ou menos escravo. Só em casos excepcionais uma potência colonial permitiria que cidadãos seus fornecessem armas modernas ao gentio[4]. A repressão dos régulos insurrectos estava, pois, facilitada.

No início da década de sessenta, Angola estava já em boa parte rodeada por países independentes, antigas colónias. Uma francesa (Congo Brazza), outra belga (Congo Kinshasa, depois República do Zaire) e uma outra inglesa (Zâmbia, após desmembramento da efémera Federação das Rodésias e Niassalândia). Só a sul havia uma fronteira amiga, o Sudoeste Africano, sob a tutela da África do Sul desde a 2ª Guerra Mundial.

O sentimento de repúdio que o preto nutria pelo ocupante estrangeiro que lhe roubava a terra, cobrava um imposto arbitrário, impunha condições de trabalho desumanas e, ainda por cima, o tratava à porrada, tinha, finalmente, condições para dar origem a uma verdadeira resistência nacional organizada, armada e apoiada do exterior.

A presença portuguesa em África, nos moldes tradicionais, tinha os dias contados.

(foto do Vera Cruz com a devida vénia ao blog Guerra Colonial).

Salazar tentou contrariar os ventos da História (a que se referia com desdém) mandando uma geração inteira para uma guerra iníqua e sem futuro.

Os primeiros movimentos de tropas, prevenindo a tormenta que se aproximava, consistiram no reforço do dispositivo de defesa de Cabinda, à custa dos regimentos da guarnição da província, ainda em 1960.

De Sá da Bandeira seguiu um destacamento que se distribuiu pelo Dinge[5] e Chiaca, esta última terreola em pleno coração do Maiombe[6]. Pretendia-se evitar que a agitação nos Congos, onde a Abako tinha papel de destaque, se propagasse para o interior de Cabinda. Esse objectivo foi, na generalidade, conseguido, não se tendo registado no enclave nem sombra do que viria a acontecer meses mais tarde em Luanda e no norte de Angola.

(Veja os resumos dos episódios sobre a Guerra Colonial; os dois primeiros sobre os massacres da UPA 1º Episódio; 2º Episódio; 3º Episódio; se quiser ver os episódios seguintes que lhe interessarem, seleccione-os directamente do You Tube, a partir de um destes episódios)

. . . . . . .

NOTAS:

[1] Tinha até uma rubrica em que se ensinava o ouvinte a falar francês (par votres oreilles, parlez le français), língua caída em desuso mas muito útil naqueles tempos, em particular em África.

[2] estes personagens entravam em várias canções com versos do tipo “O Lumumba e o Kasavubu andam às turras por causa da ONU” “Quem manda sou eu, quem manda és tu; quem manda é o Kasavubu”, com música do Mustafá. Havia também versões hard core, que me dispenso de pormenorizar.

[3] O próprio PCP, farol da luta pelas liberdades (umas mais, outras só assim assim, outras nem tanto...), se lhes referia em pelo século XX como “aquela pretalhada ignara”.


[4] A primeira grande Guerra foi um desses casos excepcionais; a Alemanha fartou-se de distribuir armas aos Cuanhamas no Sul de Angola, como o fez no Norte de Moçambique e nas colónias inglesas que confinavam com o Tanganica.

[5] O meu pai seguiu na companhia que se instalou no Dinge, e por lá ficou pouco menos de um ano.

[6] O Maiombe era, nesse tempo, praticamente uma floresta virgem, pouco penetrada pelo Homem, sendo ainda frequente a presença de gorilas.