quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 8, As Pensões dos Prisioneiros de Guerra

AS PENSÕES DOS PRISIONEIROS DE GUERRA [1]

Em 18 de Dezembro de 1961, a União Indiana invadiu os territórios de Goa, Damão e Diu, pondo fim pela força a 450 anos de presença portuguesa. Posto entre a espada e a parede, entre as suas convicções pacifistas e as pressões do seu partido e da opinião pública para que resolvesse a situação dos enclaves de dominação estrangeira, Nehru dificilmente poderia ter feito outra coisa.

Aliás, Salazar não só não lhe deu qualquer “aberta” nos contactos diplomáticos que a Índia ensaiou durante anos, como tratou com mão de ferro as tentativas de criação de partidos autonomistas em Goa. O cirurgião Pundlika Gaitondé , do Partido do Congresso (Goa), que fora preso em 1954 (mais 1135 pessoas), a partir da sua saída da prisão (do forte de Peniche, para onde veio deportado, depois de preso em Goa), desempenha um papel de destaque na luta contra a ditadura, tendo sido o primeiro secretário geral da CONCP-Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas. Gaitondé defendia a integração dos enclaves portugueses na União Indiana, não considerando viável (nem com qualquer razão de ser) a independência da manta de retalhos que era o chamado Estado da Índia.

A tomada de Goa, Damão e Diu foi o culminar de um ano péssimo para Salazar, que começou com a tomada do Santa Maria por Galvão, continuou com o ataque às prisões de Luanda, a que se seguiu a onda de massacres no norte de Angola, o golpe palaciano de Botelho Moniz (marcado pela total inépcia dos putativos revoltosos e pela sua pouca disposição para correr riscos) e o desvio de um super Constellation da TAP que andou a lançar panfletos sobre Lisboa, antes de levar os sequestradores para (se bem me lembro) Argel.

O ataque a Goa foi precedido por sinais inequívocos do que se preparava, levando Portugal a evacuar as famílias dos militares, a esboçar um movimento a nível nacional para angariar fundos para comprar um porta aviões (!!!) que iria em socorro das tropas que guarneciam a colónia[2]. Entretanto o velho ditador deixou bem claro que, em caso de invasão, os soldados portugueses só poderiam ser heróis (mortos, claro!) ou traidores. Muito sensatamente, o Governador português, General Vassalo e Silva, preferiu evitar uma carnificina perfeitamente inútil (por muito gozo espiritual que desse a Salazar) e rendeu-se aos indianos, após as nossas tropas (NT) terem resistido aos invasores, sofrendo e provocando baixas, mas reconhecendo que a desproporção de meios no terreno e a inexistência de reservas por parte das NT, não deixava quaisquer dúvidas quanto ao desenlace final.

Os nossos militares foram feitos prisioneiros e ficaram, numa primeira fase, totalmente abandonados, pois Salazar não mostrou qualquer disponibilidade para negociar. Salazar evidenciou o mesmo espírito mesquinho em outros casos, como na perseguição que moveu ao Consul Aristides Sousa Mendes, outro que ousou proceder de acordo com a sua consciência, mas contra as ordens do caudilho. Valeu a intervenção da Cruz Vermelha que serviu de medianeira entre os dois Estados, mas não evitou que o repatriamento só chegasse após largos meses de prisão.
Muitos dos oficiais superiores tiveram as suas carreiras terminadas, em particular o General Vassalo e Silva a quem só faltou ter ido a Conselho de Guerra.

A atitude do Poder foi como se os militares portugueses, que se recusaram a morrer por um capricho do velho sacrista, tivessem cometido um acto de cobardia, traição ou tivessem de algum modo desonrado a farda e as forças armadas.

Nada mais injusto! O papel das Forças Armadas de um país não é necessariamente defendê-lo de vizinhos poderosos mas, se isso não fôr possível, marcar uma posição inequívoca de que a soberania nacional foi sobrepujada pela força. Ninguém esperaria que os exércitos da Polónia, da Bélgica (ou mesmo da França...) tivessem capacidade para deter na fronteira os exércitos do 3º Reich. Contudo não ficou qualquer dúvida de que a ocupação daqueles países pela Alemanha não foi feita com o consentimento dos mesmos. E para isso não foi necessário que os exércitos vencidos se deixassem matar até ao último soldado, como o velho sabujo de Santa Comba queria que os nossos militares fizessem em Goa.

A posição Portuguesa quanto a eventuais direitos sobre os territórios perdidos não foi minimamente prejudicada pela rendição, pois esta deu-se após combates sangrentos, que provocaram mortos e feridos, deixando bem claro que a ocupação só foi obtida pela maior (na verdade muito maior) força das armas.

O que Salazar não obteve, e isso por causa da rendição, foi uma dramatização da situação, que, bem explorada junto dos países ocidentais, lhe poderia ter rendido dividendos.

Tivesse Vassalo e Silva cumprido a ordem espúria, e estou mesmo a ver Salazar, com o dedinho mirrado em riste, os óculos encavalitados na ponta do nariz e a voz tremente, verberando o avanço das forças da desordem e do mal, que só se detiveram na sua sanha assassina quando viram o último dos mártires barbaramente chacinado.

Esquecendo as famílias enlutadas por mortes tão desnecessárias, louvaria e condecoraria a título póstumo os heróis (dignos do Gama e de Mouzinho) que teriam preferido morrer a permitir que o solo sagrado da Pátria fosse conspurcado por pés infiéis.

Salazar está morto, mas, pelos vistos, tem herdeiros que não deixam cair o estandarte da hipocrisia e teimam em enxovalhar, tantos anos depois, os militares da guarnição de Goa, Damão e Diu.

Como é possível, por muito mal assessorado que esteja, por muito caro que fique ao Estado o pagamento das pensões em causa, que um ministro tenha a falta de lucidez para dizer que os militares que estiveram meses como prisioneiros de guerra, no seguimento de um acto de guerra, não são (ou nunca foram) prisioneiros de guerra?!

Estiveram na Índia como presos de delito comum, sr ministro?

Estiveram retidos por sua livre vontade para meditarem na contingência da vida, sr ministro?

Estiveram a banhos, sr ministro?

Haja Deus!

. . . . .

NOTAS:

[1] Publicado no jornal APOIAR de Agosto/Outubro 2000 com o título “NEM PRISIONEIROS, NEM DE GUERRA (SALAZAR QUERIA-OS MORTOS!)”

[2] É difícil garantir que fosse esta a intenção de Salazar, de tal modo a ideia é peregrina, mas a verdade é que a ideia foi lançada e dela me ficou a noção de que um porta aviões era uma máquina de guerra absolutamente decisiva para quem a possuísse (pois se ele bastava para ir salvar a nossa querida Índia...)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 7, Tomar partido

TOMAR PARTIDO[1]

Ao fim de décadas de guerra civil pouco ficou por destruir em Angola, de tal modo que do país próspero, com uma agricultura florescente, uma indústria em rápida expansão e uma rede de infraestruturas viárias que cobria todo o território, pouco mais resta que a recordação já um tanto distorcida pelo tempo.

Com a saída dos portugueses, na sequência da descolonização possível[2], a rivalidade entre os movimentos de libertação que desde sempre existiu radicalizou-se e a guerra civil tornou-se uma constante até hoje, muito mais violenta e destruidora que a guerra que Portugal travou durante 14 anos.

Os curtos períodos de paz, na sequência de acordos conseguidos após negociações difíceis e complicadas, apenas serviram para as partes se rearmarem e tomarem fôlego para as batalhas que, fatalmente, se seguiriam às tréguas.

A mediação entre MPLA e UNITA assenta na convicção de que o desejo das partes em alcançar a paz é maior que o desejo de se sobreporem ao partido rival (inimigo, melhor dizendo). A mediação entende que o que separa os beligerantes são divergências (ultrapassáveis com um bocado de conversa...), mal entendidos que se podem desfazer com um diálogo franco e aberto, desejo de tachos e prebendas que se podem satisfazer fazendo um rateio imaginativo dos existentes e criando outros consoante as necessidades.

Só que o tempo passa, as várias “pazes” revelaram-se efémeras, as pessoas continuam a morrer, o país a ser destruído, e parece legítimo duvidar da justeza do caminho seguido. Será que a única esperança de paz é a vitória militar de uma das partes?

Esta ideia tem sido ventilada nos últimos tempos e quem a tanto se atreveu foi severamente criticado na comunicação social, pois criou-se no espírito das pessoas civilizadas (chamemos-lhes assim, à falta de melhor) a ideia de que a paz é sempre possível pelo diálogo ou seja, a paz além de um fim em si é tambem um meio, enquanto que a guerra, podendo ser um fim para quem dela vive, nunca é um meio para atingir a paz.

Almeida Santos, com o à vontade que os anos lhe dão, atreveu-se a defender que, não sendo possível a convivência entre a UNITA e o MPLA (a partilha do poder, entenda-se), nem com décadas de negociações, directas ou com mediação, nem com eleições, a paz só advirá quando um dos contendores derrotar o outro.

Afinal a ideia nada tem de nova nem de herética, pois ao longo da história houve diversos momentos em que países isolados ou a comunidade internacional souberam reconhecer (nem sempre atempadamente) a necessidade de pôr fim na contemporização e passar à guerra. Em muitos casos, a essas guerras sucederam períodos longos de paz, como se a guerra tivesse aliviado as tensões acumuladas (ou eliminado as suas causas).

Quando a França e a Inglaterra declararam guerra à Alemanha iniciando a 2ª guerra Mundial não o fizeram por terem sido atacadas ou estarem na iminência de tal, mas porque reconheceram que o processo negocial que conduziam não garantiria a paz na Europa, e estava a servir para a Alemanha se rearmar e conquistar países vizinhos sem disparar um tiro. A invasão da Polónia terá sido a gota de água que fez aqueles países dizerem não à paz podre e optarem pela guerra como caminho para a paz. Por outro lado, Hitler tinha explicado muito bem (a quem teve a pachorra de o ler) o que tencionava fazer, pelo que era da mais elementar prudência evitar que a guerra começasse quando ele estivesse plenamente preparado para ela.

A guerra civil angolana arrasta-se há mais de vinte anos, motivada por ódios e divergências que têm muito mais com diferenças culturais e civilizacionais do que com ideologias ou com as tão apregoadas rivalidades tribais. Durante toda a guerra colonial a UNITA, MPLA e FNLA mantiveram entre si, em paralelo com a luta contra Portugal, uma guerra fraticida, marcada por alianças pontuais e efémeras, parecendo hoje claro que quem tinha que se acomodar já se acomodou (parte dos dirigentes da FNLA e alguns da UNITA estão bem instalados na vida, em Luanda, no Governo ou na sociedade dita civil).

A quem só o poder total interessa, a qualquer preço, para além de quaisquer resultados eleitorais, resta continuar a guerra.

Esta é a atitude irredutível de Savimbi que lidera a Unita como um autêntico soba todo poderoso, sem adjuntos e (muito menos!) sem oposição, um verdadeiro Senhor da Guerra.

O Muata não tem sequer que se preocupar com a alimentação dos refugiados, pois desde sempre a população tende a refugiar-se nas áreas controladas pelo Governo (por que será?...) acompanhando os movimentos das frentes de guerra. Acolhem-se às cidades cercadas (Huambo, Kuito, Malange), redutos governamentais, onde a artilharia inimiga as bombardeia indiscriminadamente. Recorde-se a fuga dramática do Huambo de dezenas de milhar de pessoas, rumo a Benguela, numa das últimas vezes que aquela martirizada cidade foi ocupada pela UNITA.

As recentes[3] declarações de Savimbi sobre o problema dos refugiados, menosprezando as preocupações da comunidade internacional sobre a fome, sugerem que o senhor não tem contacto directo com o problema, que se passa “do outro lado” e que, portanto, parece não lhe dizer respeito.

Na entrevista que deu à BBC, Savimbi mostrava grande dificuldade em concluir frases simples, exprimindo-se numa voz entaramelada, distorcida (pelo vinho? pela liamba?) ficando claro que à sua volta ninguém tem coragem para o impedir de pegar no telefone naquele estado, quanto mais para dar opiniões que de algum modo pareçam opostas às suas.

Infelizmente, parte da comunidade internacional continua apegada à lógica da guerra fria, defendendo o indefensável por o MPLA ter sido comunista e no seu campo reinar a corrupção[4].

É tempo de perceber, pelo que ambas as partes nos mostraram ao longo de décadas, qual delas permite que os angolanos vivam e trabalhem na sua terra, estudem, negoceiem, gozem os tempos de lazer (nas praias, na caça, na pesca, nos bares, nos cinemas, nos jardins, etc, etc), contribuam para a reconstrução do país[5], intervenham na vida pública, nas artes, nas letras, na ciência, na política ... e é tempo de tomar partido.

. . . . . .
NOTAS:

[1] Publicado no jornal APOIAR em Dezembro 99

[2] ao que parece Paulo Portas acredita que poderia ter sido significativamente diferente se os malandros dos vermelhos o tivessem permitido...

[3] meados de 1999, entrevista à BBC, por telefone

[4] como seria de esperar, com tanto tempo de guerra civil, com tanto tempo de ascendente dos generais, com tanto tempo de compras com malas de dólares na mão (que as sansões a tanto obrigam...)

[5] destruído pela UNITA, com grande eficiência e criatividade…

sábado, 7 de fevereiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 6, O Último Marechal



Sr Director (PÚBLICO)

Permita-me que, com alguns dias de atraso, diga de minha justiça sobre uma carta publicada no Público do passado dia 22, da autoria do sr General Carlos Azeredo. A carta foi motivada pelo programa da SIC “O último dos Marechais” e nela o sr General, spinolista convicto, zurze forte e feio no Marechal Costa Gomes e tece os habituais panegíricos ao Marechal Spínola, a quem chama “último cabo de guerra português”. Do texto escorre o palavreado forte e adjectivação fácil a que o pitoresco general nos habituou durante a sua passagem pela casa militar do Presidente Soares.

Não me tomando das dores de nenhum dos gerontes (um deles já falecido), e muito menos dos seus irrequietos discípulos, parece-me conveniente notar que alguns dos pontos que a carta refere estão longe de ser consensuais no meio castrense e fora dele:

1. Um bom general não precisa de ter estado em operações (de arma na mão ou de pingalim em punho...) para o ser. Em países que entraram em guerra, depois de décadas de paz, os oficiais (que nunca ouviram disparar fora das carreiras de tiro) revelaram-se bons ou maus, competentes ou incompetentes, cobardes ou valentes independentemente da experiência anterior (que não tinham). A acção de Costa Gomes em Angola, como Comandante em Chefe, foi mais que meritória (em termos de resultados) sem se dar a aparições folclóricas e teatrais. Nos tempos que vão correndo, o Sr General Azeredo devia saber que a informação, essencial ao processo decisório, flui através dos canais mais diversos que não excluem a observação directa in loco, mas, muitas vezes, a dispensam.

2. A operação Mar Verde (ataque a Conakry), para além de libertar os prisioneiros e afundar as lanchas rápidas, foi um fiasco completo: não depôs Sékou Touré; não matou (nem capturou) Amílcar Cabral; não destruiu os MIGs. O apoio internacional ao PAIGC redobrou e quase se obteve o resultado perverso (e talvez não ponderado) de a armada soviética, ávida de protagonismo, fazer um bloqueio aos portos da Guiné. Teria sido a emenda pior que o soneto... A assunção pública da operação teria sido um acto perfeitamente irresponsável e gratuito: o aviso estava feito a quem interessava fazer (à Guiné Conakry e ao PAIGC), ficando a posição de Portugal, na sua pose de país agredido mas respeitador da integridade territorial dos vizinhos, preservada nos fóruns internacionais.

3. A acção do Marechal Spínola nos seus cinco anos de Guiné baseou-se num equívoco, de uma ingenuidade a toda a prova:


- pensar que seria possível convencer uma parte significativa da população da Guiné de que os “terroristas” eram seus inimigos e que o seu futuro estava com Portugal.


Mesmo servindo-se dos fulas, dividindo para reinar, o mais que Spínola conseguiu foi uma pequena “vietnamização” da guerra, com bandos de infelizes que pagam agora com o exílio o engano em que se deixaram induzir, pegando em armas ao lado do exército estrangeiro contra os seus conterrâneos. As confusas negociações em que Spínola se envolveu com o PAIGC não conduziram a nada mais palpável do que a morte de três majores, enviados pelo General para conferenciar não se sabe bem com quem, nem o quê nem com que garantias...

4. A própria evacuação de parte do Sul da Guiné decidida por Spínola por aí não haver população para defender, foi uma decisão de mérito mais que duvidoso: permitiu à guerrilha apresentar zonas libertadas (se bem que sujeitas a operações das nossas tropas de intervenção). Foi aí que, pouco mais tarde, o PAIGC proclamou a República da Guiné Bissau, para o que era essencial “possuir” território sobre o qual exercesse soberania. Portugal passou, desse modo, a combater, não um bando de rebeldes terroristas, mas um exército regular de um Estado independente reconhecido por uma centena de países.

5. Após o 25 de Abril, o General Spínola transferiu as suas teses “ultramarinas” da Guiné para Angola, que pretendeu manter ligada a Portugal num esquema confuso que passaria por um federalismo vago no qual Mobutu, com quem se encontrou em Cabo Verde, desempenharia um papel (qual, nunca disse).

6. Com o ascendente que o PC ganhou, quer no MFA quer no aparelho de Estado, Spínola teve finalmente o seu papel meritório: opôs-se frontalmente à ascensão do PC e chamou a atenção do País para a maioria silenciosa que repudiava o comunismo (como as sucessivas eleições demonstraram sem margem para dúvidas). Só que o modo como Spínola procedeu levou o País à beira da guerra civil, pois a diplomacia nunca foi o seu forte (nem da guarda pretoriana que se manteve à sua volta desde os tempos da Guiné). Na minha modesta opinião, mais do que a Mário Soares, foi ao então General Costa Gomes que se ficou a dever, em grande parte, o mérito de ter sido evitada a guerra civil.

Para concluir, diria que há muitos comandantes de Batalhão, competentes, valentes e bons condutores de homens, que chegam ao generalato sem conseguirem ver para além dos limites do quartel.

Sem uma visão global do exército, e muito menos do todo nacional, continuam convencidos de que “quem anda no terreno é que sabe”.

É óbvio que estes “cabos de guerra”, de luvas e pingalim, mas sem cavalo, dão maus generais e péssimos políticos[1].

Afinal, é o princípio de Peter a funcionar.

. . . . .

NOTAS:

[1] Esta carta foi escrita antes do Sr General se envolver em polémica com a comunidade judaica e assumir-se como candidato à Câmara Municipal do Porto. Antes, pois, de o General Azeredo nos ter mostrado em toda a plenitude a sua falta de diplomacia (ou de simples bom senso e bom gosto) ao escrever sobre o “ouro nazi”, ferindo a susceptibilidade dos israelitas (cuja comunidade é uma influente vaca sagrada, como sabe qualquer político aprendiz…) e ao quase centrar a campanha eleitoral no capachinho do Dr Fernando Gomes.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 5, O Prof Herlander...

Ao COMBATENTE - Órgão da Liga dos Combatentes[1]

Sr Director:

O número de Janeiro do Combatente, inclui um artigo do Sr Herlânder Duarte intitulado “Post traumatic stress disorder”. Não sei se o articulista assenta as suas opiniões em conhecimentos científicos para pôr em causa uma doença de foro psiquiátrico, nem se se baseia em experiência própria para escrever de forma tão enfática sobre a política ultramarina e a guerra de África.

Penso, em todo o caso, que se impõe uma resposta, pelo modo impiedoso como se refere a camaradas nossos que estiveram na guerra, numa ou mais comissões por imposição, integrados nas Forças Armadas que deram corpo à política ultramarina definida pelo governo de então.

Não me deterei nas ideias do Sr Herlânder sobre a guerra do Ultramar, sobre a confiança que as populações depositavam em nós, nem sobre os inocentes que defendíamos, para além da Civilização e da Cristandade. Tampouco perderei o meu latim a discutir se a mocidade foi feita para o prazer, para o heroísmo, ou se a Providência lhe reservou outro destino.

O Sr Herlânder tem todo o direito a ter as suas opiniões e a exprimi-las, no seguimento das quais certamente terá lutado em África como voluntário e não terá deixado de resistir de arma na mão ao golpe do 25 de Abril. Com as posições intolerantes, firmes e hiper adjectivadas que manifesta, não seria de admitir menos que isso!

Assim, não vou perder tempo a desmontar a lógica duvidosa do articulista. Não resisto, contudo, a registar que ele acredita em traumas provocados pela exposição ao “rock” que “atordoa e martela, exaspera o sistema nervoso, desequilibra o cérebro, embrutece, provoca perturbações na consciência e na vontade”. Contudo, nega veementemente, que a exposição a um ambiente de perigo iminente como a guerra, com o seu cortejo de bombardeamentos, mortes (por vezes ao nosso lado), flagelações, sofrimento e privações de toda a ordem possa provocar traumas.

Voltando ao assunto que me interessa, penso que se deve deixar à ciência e aos médicos a definição e caracterização das doenças, sejam elas do foro físico ou psíquico, mas em particular estas últimas pois para o seu diagnóstico a evidência nem sempre é critério seguro.

Nas décadas de 60 e 70, as Forças Armadas assumiram sucessivamente a defesa de Angola, Moçambique e Guiné, em consequência da política ultramarina que o País prosseguia. Dos milhares de jovens que foram mobilizados ao longo dos anos, muitos foram feridos ou sofreram acidentes, de que resultaram mortes, mutilações, deficiências, cicatrizes.

Parece razoável que o Estado assuma por inteiro as consequências das suas políticas, e compense adequadamente os cidadãos que lhes deram corpo e, por causa delas, tiveram a sua vida prejudicada, ou terminada. Esta assunção de responsabilidades, nem sempre se fez de forma fácil e cordata. No início dos anos 70, antes e depois do 25 de Abril, os deficientes viram-se na contingência de desenvolver acções à margem das FA[2] e a criar uma associação, a ADFA, para conseguirem do Estado mais do que um abono miserável e aviltante. Infelizmente, o Estado nem sempre se comporta como uma pessoa de bem...

Quanto aos militares que, tendo a felicidade de voltar da guerra fisicamente indemnes, ficaram psiquicamente afectados, encontraram-se perante um Estado (e um Exército...) de mentalidade marcadamente arcaica, para quem as doenças psíquicas são infamantes e insidiosas, anuviam e falseiam a imagem dos combatentes. Há mesmo quem, como o Sr Herlânder Duarte, as relacione com irresponsabilidade, desonra e traição!

É preciso que a mentalidade das FA evolua e se actualize, sem receio de, com isso, alienar valores e princípios que as honram e distinguem. É necessário que os quadros aprendam que o ambiente em teatro de guerra pode afectar os combatentes de formas mais subtis e, por vezes, mais duradouras que os ferimentos e aleijões. Sem essa evolução, não podemos esperar que os mancebos[3] incorporados e mobilizados tenham um tratamento sério que lhes permita voltar da guerra sãos de corpo e espírito.

É inadmissível que o Estado tarde em assumir as suas responsabilidades para com os traumatizados de guerra.

É lamentável que as Forças Armadas não promovam o seu tratamento e neguem apoio à sua reinserção.

Acima de tudo, é desonroso que um Combatente olhe com desdém e desprezo para o seu camarada de armas, só porque não lhe descortina os aleijões.

Urge, pois, que a Liga dos Combatentes tome uma posição clara e informada sobre este assunto, e defina critérios que permitam enquadrar e apoiar estes camaradas. É imperdoável, para além de injusto, que se continue a meter no mesmo saco traumatizados, desertores, objectores de consciência e traidores.

. . . . . .

NOTAS:

No seguimento desta carta fui recebido pelo Presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes, general Altino Pinto de Magalhães, pessoa muito amável que me disse do interesse da Liga pelo tratamento dos ex-combatentes afectados pelo stress de guerra e que a Liga apoiaria os casos concretos que lhe fossem presentes. Na prática, só alguns anos depois, com a extinção de cromos como o Herlander, a Liga passou a assumir como seu o apoio àqueles ex-combatentes.

O processo contra o Herlander foi ganho pelo Dr Afonso Albuquerque que recebeu uma indemnização quase simbólica paga pela Liga (salvo erro). Comemorámos com uma almoçarada à conta do Herlander no Antigo Retiro do Quebra Bilhas, ali ao Campo Grande, entretanto encerrado por obra e graça da Opus Dei, dona do prédio.

[1] Esta carta não foi publicada pelo Combatente; foi-no pela revista da Apoiar, nª 2, de Julho/Setembro de 1996, juntamente com o artigo do Sr Herlander Duarte, e da resposta do Dr Afonso de Albuquerque. No seguimento desta troca de cartas, o Dr Afonso de Albuquerque processou o Sr Herlander Duarte. O processo estava em fase de instrução no início de 1997.

[2] chegaram, inclusive, a fazer manifestações de cadeiras de rodas.

[3] estou a falar dos nossos filhos, e não de seres abstractos e imateriais, putativos filhos da Pátria.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 4, O Stress de Guerra e os equívocos

Ao Notícias Magazine - “Faça-se ouvir”

O número do passado domingo inclui um dossier respeitante a “Atrocidades da Guerra Colonial”, com fotografias que dão uma ideia do clima que se viveu nos primeiros tempos da guerra em Angola, em particular no período que se seguiu às matanças de 15 de Março de 1961. Nessa época eu era miúdo, estava em Nova Lisboa (actual Huambo), e lembro-me bem da onda de medo (e também de indignação, e de sede de vingança) que se propagou a toda a Angola, e que conduziu ao armamento maciço da população branca e à criação de milícias de autodefesa. Anos mais tarde fiz uma comissão no Norte de Angola (Quibaxe e Catete), onde estava quando se deu o 25 de Abril.

Voltando ao dossier do Notícias Magazine, ele inclui um texto sobre o stress de guerra, doença que terá atingido uma boa parte dos soldados que combateram em África, e que ainda hoje “vivem” as experiências que os traumatizaram há mais de 20 anos. Só que este tema permite sempre a mistura de alhos com bugalhos, o que é deveras desagradável. Vejamos dois casos:

1. O Sr J.S. mistura a descrição da sua doença com a alusão a “alguns ex-combatentes e oficiais que estão doentes porque a guerra acabou. (...) que faziam duas e três comissões voluntàriamente. São os que continuam a defender ideias colonialistas e racistas (...) que cometeram massacres (...) mas que não se sentem culpados.” Não me consta que o stress pós traumático só atinja os “bonzinhos”, nem que a ele estejam imunes os racistas e colonialista (actuais e de antanho). Será que o Sr JS os considera responsáveis (culpados!) pelos seus padecimentos?

2. O Dr Albuquerque descreve o caso de um oficial de informações que logo no primeiro interrogatório espancou o prisioneiro (imitando o Pide), estrangulou-o e... teve um orgasmo! Continuou a espancar, a estrangular e a ter orgasmos. Parece-me que este caso está manifestamente “fora do baralho”, e que a pessoa em questão não ficou doente por causa da guerra. Quando muito, a guerra agravou a sua doença, ao retirá-lo da sociedade civil, onde podia ter orgasmos, mas não podia bater nem estrangular ninguém impunemente, mergulhando-o num ambiente onde as suas tendências (para não dizer taras) tiveram plena realização. Por outro lado, parece-me grotesca a referência ao Pide, que terá dado o mau exemplo ao alferes: o que sucedeu foi que a semente encontrou terreno tão fértil, tão bom, que germinou logo à primeira (se me permite a metáfora).

A concluir, diria que há que tentar discernir entre o que a guerra fez a pessoas que eram sãs e equilibradas, e o que aconteceu a pessoas que foram mobilizadas já doentes, vulneráveis e indefesas contra as situações extremas que a guerra proporciona.

O tratamento dos doentes terá mais probabilidades de sucesso se conhecermos a causa da doença de que padecem, em vez de assumirmos a priori que ela surgiu com a guerra e por causa dela.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 3, Mais palavras para quê? é o Estado Português...

[1] As guerras de África terminaram há mais de duas décadas e os seus ecos só muito esporadicamente se fazem ouvir na comunicação social. Essas referências adquiriram um tom quase litúrgico por ocasião das comemorações do 25 de Abril e do 10 de Junho, a primeira destas datas mais cara à esquerda, a segunda eleita pela direita.

Com a criação do monumento aos combatentes do Ultramar, rodeado de controvérsia desde o início do projecto e com a inauguração marcada por uma monumental vaia ao então presidente Soares, o 10 de Junho ganhou um palco para uma comemoração extra oficial. Tem o seu quê de pitoresco, concentrando velhos guerreiros a passar da meia idade, em que preponderam comandos, páras e fuzos, com as suas boinas, as suas medalhas os seus crachás.

Os discursos são belicosos, eivados de saudade dos tempos em que, segundo eles, a Pátria não fora ainda traída e vendida a retalho. Alguns oradores reafirmam a sua disponibilidade para se baterem pela Pátria, se a Pátria o exigir (“ainda podemos pegar numa canhota, porra!”, dizem).

Depois, bebem-se uns copos, canta-se a Portuguesa e... vai-se para casa. No próximo ano há mais.

Aparentemente, as feridas da guerra estão saradas (ou, pelo menos, cicatrizadas), e há que recordar apenas os momentos bons (a camaradagem, as cervejolas, as lavadeiras-que-lavavam-o-quico), recordar os amigos que por lá ficaram, dar e receber notícias dos ausentes e ... esquecer tudo o mais.

E no entanto, as feridas da guerra permanecem abertas para muitos combatentes a quem deixou marcas subtis, que não só tardam a sarar, como se vêm a agravar à falta de tratamento apropriado. Para além do sofrimento de que padecem, são muitas vezes confrontados com atitudes de incompreensão e repúdio por parte do Estado sob cuja bandeira serviram, por parte do Exército em cujas fileiras foram mobilizados e combateram, por parte de médicos tacanhos, insolentes e ignorantes que não encontram o vírus da PTSD nas análises que prescrevem, nem a sua sombra nas radiografias tiradas aos doentes.

É no mínimo bizarro que numa sociedade responsável que se proclama regida por valores da Solidariedade, da Justiça, da Liberdade e do respeito pelos Direitos Humanos, os cidadãos que serviram o Estado naquilo que o Estado exigiu tenham que lhe provar que o serviram (apresentando testemunhas, até!) e que lhe demonstrar que desse serviço resultou a doença de que padecem.

Essa doença, stress de guerra, para usar uma designação portuguesa e curta, está hoje perfeitamente tipificada, e a sua relação directa e causal com a exposição a situações de guerra foi plenamente assumida pelo governo americano. O Tio Sam foi ao encontro dos seus veteranos traumatizados, estendendo uma rede nacional de Vet Centers para os apoiar.

Em Portugal tínhamos mesmo que fazer diferente. Demasiado importante para ir ao encontro dos cidadãos, o Estado permanece indiferente e limita-se a aguardar que aqueles que o serviram provem que a doença existe, que é consequência da guerra e provem ainda em cada caso particular que o doente esteve na guerra (onde? com quem? quando? quem era o superior imediato?) e que daí resultou o estado de que padece. Brilhante! Kafka não faria melhor!

Resta lembrar, recuando no tempo, que esta atitude iníqua do Estado Português não é de hoje:

- Os deficientes físicos tiveram que travar uma luta feia (a ponto de manifestações de deficientes serem reprimidas pela polícia...) para conseguirem ser tratados com respeito e para que lhes fossem dados tratamento médico e pensões compatíveis com aquilo que perderam ao serviço do Estado. A ADFA teve um papel relevante, e só com muita luta o Estado cedeu.

- Nos primeiros anos da guerra colonial, os militares mortos (em combate, por doença ou por desastre) eram sepultados no teatro onde faleciam. As famílias tinham que pagar do seu bolso (se tivessem disponibilidades para tanto) o repatriamento do corpo! Aparentemente, o Estado equiparava-os a turistas, em relação aos quais não sentia quaisquer responsabilidades.

- Durante as campanhas do sul de Angola, em 1915, o insuspeito Sarmento Pimentel, então Alferes de Cavalaria escrevia “...avistamos os morros de Calveque ... era já teatro de inúmeras tragédias que a Pátria ignorava, os governantes ocultam para que, aos escapados milagrosamente, se possa regatear, mais tarde, o pão dos últimos dias de existência”.[2]

- Já no século XVII o Padre António Vieira escrevia “Se servistes a Pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”.

Mais palavras, para quê? É o Estado Português!
. . . . .

NOTAS:

[1] Este texto foi escrito como colaboração para a APOIAR, Associação para Apoio aos Ex-combatentes Vítimas de Stress de Guerra. Foi integrado na intervenção da Apoiar no Colóquio que a ADFA (Associação dos Deficientes das Forças Armadas) promoveu no Porto em 29 de Novembro de 1996 subordinado ao tema “A realidade do distúrbio pós-traumático do stress de guerra; causas e consequências”.

[2] in “Cobiça de Angola” de Ernesto Moreira dos Santos, 1957

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 2, Os Comandos...






Sr Director (INDEPENDENTE)[1]:

A edição do passado sábado, dia 11, da VIDA trazia um artigo intitulado MATAR SAUDADES, no qual antigos militares contavam histórias da guerra e teciam considerações sobre vários temas ligados a ela. Lendo em diagonal, parecem as histórias habituais: as saudades de África, a camaradagem, o grande amor que os pretos nos dedicavam, condimentadas com a prosápia própria dos Comandos.

Lendo com mais atenção, surpreendo-me com histórias de operações em que as ordens eram para matar toda a gente, em que os intervenientes mataram uma mulher com um filho de colo “porque não havia alternativa”, outra em que mataram as mulheres e crianças que haviam trazido para o quartel, porque a meio da noite “as crianças começaram num berreiro, as mulheres aos gritos”.

Em ambos os casos foram mortes a sangue frio, dificilmente explicáveis à luz de uma lógica de guerra, e absolutamente reprováveis numa guerra subversiva, em que o objectivo é a conquista das populações.

Sem ser um teórico da guerra, Marcelo Caetano, em carta a Kaulza de Arriaga, sintetizou de forma feliz qual deveria ser o comportamento da tropa face à população: “interessa mais conquistar o coração dos vivos do que cortar cabeças aos mortos.”

O que este artigo tem de inovador (e de chocante) é que nos confronta com uma associação legalmente constituída onde se narram crimes de guerra na maior das calmas e cujo presidente, Sr Capitão Gonçalves, parece desconhecer que as guerras têm mesmo regras, que Portugal reconheceu, ao assinar a Convenção de Genebra. Matar turras (ou homens identificados como tal...) é uma coisa; matar civis (e as mulheres e crianças eram-no certamente) é um crime de guerra.

Em África, como na Europa.

Sobre Wiryamu, o Sr Capitão Gonçalves sugere que a matança se processou no cumprimento de ordens correntes de “aniquilar para não ser aniquilado”. Será que as mulheres e crianças estavam armadas e ameaçavam aniquilar os soldados da 6ª companhia de Comandos? Parece pouco provável. Os testemunhos do Capitão D. Francisco Van Uden (na foto à direita, com o primo) e do Coronel Jaime Neves sugerem precisamente que se terá tratado de um incidente fortuito (infelizmente não foi o único) que não devia ter acontecido. Não se enquadrava no padrão de actuação dos Comandos, e muito menos da generalidade da tropa portuguesa em Moçambique.

As ordens que a tropa recebia sobre o modo de tratar a população civil (não só as mulheres e crianças como também os homens) eram muito claras e excluíam quaisquer maus tratos, coacção ou violência. Não pertenci a nenhuma tropa de intervenção (servi no Norte de Angola numa unidade de quadrícula), mas não acredito que os comandos, páras e fuzos, tivessem ordens para matar mulheres e crianças.

Dispenso-me de comentar as considerações que os entrevistados tecem sobre os temas habituais, caros ao Comando. Limito-me a duvidar da pureza de militares, de um lado e do outro, que fazem a guerra nos moldes que os intervenientes relatam, sem moral, sem regras, escudando-se atrás das ordens “dos superiores” ou “dos generais” e atirando as culpas para os políticos.

Limito-me a recordar que puros são os havanos...

. . . . .

NOTA:

[1] Publicado no suplemento VIDA do Independente de 97.01.18

domingo, 25 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 1

População de Angola
A penetração portuguesa nos matos africanos fez-se até ao início do século XX de forma muito pontual, e teve o seu grande boom na segunda metade do século. Abandonado o critério da descoberta, era a ocupação efectiva das colónias que legitimava a sua posse.

Tornou-se, pois, vital organizar expedições que cirandassem por todo o território reivindicado, fazendo levantamentos topográficos, estudando a fauna e a flora e, se possível, estabelecendo pontos de presença permanentes que actuassem como entrepostos comerciais e núcleos de influência sobre o gentio.

Contudo, estas expedições não acarretaram de imediato a fixação de colonos nos matos, tendo-se esta feito com muita lentidão.

No estudo de Vasco Fortuna inserto num livro publicado em 1963 pelo ISCSPU, vemos que no dealbar do século XX, não existiam em Angola dez mil brancos. A população branca cresceu muito lentamente até à década de 50, tendo, a partir de então, havido um forte crescimento. Veja-se o quadro, no início do post, e o gráfico acima.

Em 1960 a distribuição desta população não era uniforme, concentrando-se nas circuns- crições cujas sedes estavam situadas em portos ou sobre os caminhos de ferro. A figura ao lado mostra como 82% da população branca e mestiça se distribuía, nestas condições.

Se alargarmos a faixa até 100 Km de distância de portos ou de linhas de caminho de ferro, obtemos uma percentagem de 94%.


Se representarmos graficamente o número de habitantes fora da faixa em torno dos portos e ao longo dos caminhos de ferro, e representarmos essa população em função da largura da faixa, obtemos o gráfico que a seguir se apresenta, que nos permite concluir que a população “de civilização europeia” estava fortemente concentrada na vizinhança daquelas infraestruturas, rareando no resto do território.

No mesmo trabalho que temos vindo a seguir, o investigador avança, como hipótese de trabalho, a seguinte distinção básica entre os comportamentos da população autóctone e da europeia, que passo a transcrever:

“- A população de civilização africana tradicional procura adaptar-se ela própria às condições naturais que encontra;

- A população de civilização europeia procura adaptar as condições naturais que encontra às suas próprias conveniências”


Assim, a distribuição da população autóctone está estreitamente relacionada com o meio físico, em particular com a pluviosidade, enquanto que a população europeia se distribui pelo território em estreita relação “com os investimentos, e acompanha principalmente duas formas particulares de investimento: portos e caminhos de ferro”.

Não é, pois, de estranhar que em meados do Século XX, a maioria da população autóctone não tivesse contacto estreito com o colono e que a civilização europeia pouco influenciasse o seu modo de viver.

O estudo acima referido esclarece-nos, por outro lado, por que é que a mão de obra nem sempre estava onde o colono precisava, tendo este que recorrer a contratados (pouco mais livres que os antigos escravos) angariados em paragens por vezes muito distantes. O caso dos contratados bailundos, do centro de Angola, para as roças de café centenas de quilómetros ao norte é disto um exemplo paradigmático, como o é o dos contratados bakongos exportados para S. Tomé.

A contratação de mão de obra para roças distantes, donde o regresso era duvidoso (em particular no caso de S. Tomé, com o oceano pelo meio) esteve na origem de pelo menos duas revoltas de grande amplitude. Em 1902 Mutu ya Kevela liderou os Bailundos numa insurreição que se estendeu a todo o planalto central e só foi dominada por uma força expedicionária comandada por Cabral Moncada, no ano seguinte.

Em 1913 coube a vez a Tulante Buta, no Congo (parte angolana), de se revoltar contra o poder colonial, num movimento que só em 1917 foi considerado dominado. A contratação de mão de obra para S. Tomé cessou completamente, e só viria a ser retomada em pleno Estado Novo.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 18 Epílogo


Poucas semanas antes da nossa partida de Luanda, a cidade transformara-se num campo de batalha, com os três movimentos a degladiarem-se pelo controlo da Capital. O MPLA saíu vencedor nesta fase, graças às milícias populares que compensaram a debilidade do aparelho militar do movimento.

A Unita e, principalmente, a FNLA não se atreveram a armar a população, com receio de ficarem sem as armas e continuarem sem população a apoiá-las. A luta, que ficou conhecida como o período das “confrontações” durou poucas semanas, com o reduto da FNLA na Avenida Brasil a ser alvo de pesados bombardeamentos.

À noite ficávamos a jogar às cartas ou poker de dados e a ver o espectáculo das tracejantes riscando o céu e ouvindo o tiroteio e as morteiradas ao longe. A tropa portuguesa ainda controlava a cidade do asfalto, de modo que o perigo para nós não era grande.

O que se seguiria meses depois foi outra história: a dupla invasão de Angola com a FNLA e a tropa zairense a avançarem pelo norte rumo a Luanda, e a Unita e FNLA a darem cobertura à entrada da tropa sul africana pelo Sul (isto com o Alto Comissário Português em funções e o Tenente Coronel/Brigadeiro/Páraquedista Heitor de Almendra , à direita, ainda em Luanda, observando impávidos e serenos).

Seguiu-se a saída pela porta do cavalo do Almirante Cardoso, arreada à pressa a bandeira das quinas, a proclamação da República Popular de Angola tendo como ruído de fundo os rebentamentos da artilharia zairense trazida pela FNLA até às portas de Quifangondo.

Mais a sul, a força expedicionária da África do Sul destinada a evitar um governo comunista e não branco em Luanda, depois de um avanço quase sem resistência era finalmente detida às margens do Queve pela tropa cubana (o MPLA também chamou os seus amigos, como seria de esperar…)

Nesse tempo a África do Sul era governada por um poder branco que considerava os pretos uma raça inferior, mantinha-os fora das zonas dos brancos onde só podiam entrar em certas condições, com uma espécie de passaporte interno, que lhes podia ser retirado em qualquer altura. (Na foto ao lado, um dos Bothas, o Roelof "Pik" - não será Pig?...)

O preto sul africano, para além de semi escravo do branco (neste ponto não é prudente atirar pedras aos carcamanos do sul...), tornara-se estrangeiro na sua própria terra com a criação dos famigerados Bantustões.

Os cubanos vieram em auxílio do MPLA e pela primeira vez o exército sul africano foi derrotado. A África do Sul retirou mas manteve, durante anos, um certo controlo sobre parte do sul de Angola (alegando a protecção da barragem de Calueque), fazendo raides com os seus Camberra e Mirage e com o batalhão “Búfalo” quando o achavam conveniente. Alguns desses raids redundaram em grandes matanças, quer de angolanos, quer de malta da Swapo que lutava pela independência do Sudoeste Africano (Namíbia, depois da independência).

O apoio à Unita só foi cortado quando a maioria negra ascendeu ao poder em Pretória modificando, como seria de prever, a sua política externa, nomeadamente no tocante a alianças.

Talvez seja sintomático (pelos menos dá que pensar) que os principais aliados da UNITA e da FNLA tenham sido precisamente regimes dos que mais espezinharam a sua própria população.

O Zaire onde uma legião de chefes e capatazes enriqueceu à custa do trabalho de um povo miserável, mantendo no poder durante décadas um dos déspotas mais corruptos do século XX (não se trata de uma figura de retórica), que soube favorecer as multinacionais e convencer sete presidentes americanos[1] de que sob a sua batuta todos tinham a ganhar. Excepto, claro, os zairenses…

Na República Sul Africana, alaparam três milhões de brancos e, como bons cristãos, trouxeram a civilização e a cruz: a civilização para o preto ver (do outro lado da rede) como o branco lhe era superior, a cruz para imitar Cristo, deixando-se imolar sem um queixume, ganhando o céu sofrendo na Terra.

Era com gente desta que o Estado Novo se dava. Foi com gente desta que os Estados Unidos se deram (e se dão). A UNITA não podia ter estado melhor acompanhada!

Com o 25 de Abril, um aspecto essencial das relações entre pretos e brancos foi alterado: os brancos que quiseram ficar nas ex-colónias não mais beneficiaram do ascendente sobre o preto, que as leis consentiam e em que a administração colonial assentava. Isso não basta, contudo, para as pessoas se sentirem iguais e, eventualmente, solidárias.

Em Portugal como nas ex-colónias, um longo caminho há ainda a percorrer antes que um branco olhe para um preto da mesma forma que olha para outro branco (no primeiro caso, vemos um preto; no segundo vemos uma pessoa loira ou morena, alta ou baixa, gorda ou magra…).

A identificação que se fez durante séculos de branco=civilizado=superior e preto=atrasado=inferior poderá esbater-se nas áreas em que as oportunidades de instrução, acesso à cultura e promoção social possibilitem o desenvolvimento equilibrado e a integração.

E nas outras, como será?

O que se passa actualmente em Portugal, é que grande número de pretos (cidadãos das ex colónias ou portugueses) têm graus de instrução muito baixos, trabalham em actividades mal remuneradas, vivem em ghettos, os seus filhos frequentam a escola com pouco sucesso. Muitos não imigrantes ilegais, pelo que estão ainda mais à mercê do empregador ou do agente.

A assimetria agudiza-se em vez de se atenuar.

Será que não há volta a dar-lhe?

Penso que há e que uma resposta possível é a instrução, mas que só funciona a longo prazo. Infelizmente a instrução é operada por um Mega-ministério, uma máquina quase ingovernável, donde têm saído sucessivas reformas tão inúteis quanto rebuscadas. Daí não devemos esperar soluções.

No entanto, a escola que existe serve, como serviria qualquer outra, uma melhor, outra menos boa, outra pior. O fundamental, o que permitiria quebrar o circulo vicioso da exclusão, é que os estudantes pobres (pretos ou não) compreendessem que

o sucesso escolar é condição indispensável[2] para melhorar de vida.

O estudo é quase a única actividade em que se podem obter resultados razoáveis sem ser rico, sem ter um padrinho, sem pertencer a um grupo influente, sem ter um dom. Não conheço outra actividade em que o filho do milionário e filho do serralheiro se sentam em mesas lado a lado com uma prova igual para cada um resolver, e a nota atribuída tem que ver apenas (normalmente) com o que cada um escreveu.

É claro que o rico pode ir para uma escola melhor, e, terminados os estudos, ter à sua espera um emprego à medida da sua condição. Mas, depois de satisfeitas as cunhas e os boys, as restantes colocações serão distribuídas pelos mais brilhantes, pelos mais capazes. O ghetto vai ficando mais longe para os que quiseram aproveitar.

Como os hábitos de trabalho não abundam, e o culto do estudo não é bem visto pela malta, muita gente aposta precisamente no dom, nas belas artes, na música, no desporto.

Esta atitude é quase o mesmo que sentar-se à sombra da bananeira à espera de ganhar o totoloto ou a lotaria. O tempo passa, as oportunidades também, quando se percebe que se devia ter aproveitado a escola, já é tarde (ou muito complicado) para regressar…

No entanto, a escola está ao dispor de todos, e há até quem aproveite: não é por acaso que muitas vezes os melhores alunos (nos States, mas também em Portugal) são indianos, coreanos, chineses.

A raça não tem nada que ver com o assunto, trata-se apenas de trabalho, entreajuda, e convicção de que o sucesso escolar compensa. Uma certa cultura de emigrante leva esses grupos a desenvolverem em alto grau um verdadeiro culto pelo estudo. Os resultados falam por si.

Voltando atrás, quando os portugueses chegaram ao Congo, Mombaça e à Índia tratavam os chefes locais sem qualquer postura de superioridade. Negociavam e trocavam presentes, tentando obter as suas boas graças para conseguirem informações, guias (ou pilotos) salvo condutos para atravessarem os reinos.

(Na foto, um grupo de indígenas a caminho da civilização: se a montanha não vai a Maomé...)

Terá sido a dominação e o consequente fosso criado e progressivamente aprofundado entre colonizados e colonizadores que fez nascer e consolidar a ideia de que um era superior ao outro, na civilização e na religião.

Essa superioridade legitimou a dominação (íamos levar ao gentio a fé verdadeira e a civilização) mas tornou-se rapidamente em racismo, dada a diferente coloração da pele dos civilizadores e dos putativos civilizandos. Culminou na “brilhante” teoria do General Kaulza de que a inteligência se concentrava no hemisfério norte e aumentava com a latitude[3], ou seja, os brancos são mais inteligentes do que os pretos.

É habitual ouvirmos as tais pessoas bem formadas que referi afirmarem convictamente que os portugueses (e os restantes colonizadores) levaram a civilização aos povos colonizados que, não obstante terem servido os interesses dos europeus, receberam as sementes e os benefícios da civilização ocidental. Se não tivessem sido colonizados, estariam num estágio civilizacional (o que quer que isso seja) mais atrasado do que estão hoje.

É claro que não se pode demonstrar o que aconteceria hoje, se há dois ou três séculos a história tivesse inflectido por um caminho diferente. Podemos conjecturar, e pouco mais.

No entanto, podemos tentar perceber por que é que o Japão que nunca foi colonizado por europeus, nunca foi, portanto, civilizado por eles, emergiu do século XIX como uma potência industrial ao nível das potências europeias, muito acima da China e da Índia, que beneficiaram do contacto secular com a civilização ocidental. A meio do século XX o Japão iniciou uma guerra com o colosso americano que ameaçava a sua hegemonia como potência regional. Perdeu a guerra, mas vinte anos depois estava mais forte que nunca na ciência, nas tecnologias de ponta, na economia, na indústria, enquanto a Índia e a China lutavam por manter vivos (e cordatos) os seus milhões de esfomeados e liderar o terceiro mundo (que a mais não podiam aspirar).

Parece, pois, que a superioridade branca sobre as raças "inferiores" é um mito que engordou durante os séculos de colonialismo, em que quase tudo o que se fez pelos colonizados foi mantê-los cada vez mais ... inferiores.

Parece que vai sendo tempo de corrigir o mal que se fez, e um bom começo é reconhecer isso mesmo.

Disse.

. . . . .

NOTAS:

[1] Não é muito difícil: os Camones nunca pareceram considerar o hemisfério sul como terra de gente. Sempre preferiram e continuam a preferir ditaduras sanguinárias como a do Marechal Mobutu Sesse Seko Kuku N’Gbendo Vazza Banga (veja-o em Mobutu, King of Zaïre) a regimes de esquerda, mesmo que nada sanguinários, com governos legitimados por eleições e com relações com a maioria dos países ocidentais, e relações comerciais intensas com as grandes empresas americanas

[2] Não quero, naturalmente, menosprezar a herança de um tio no Brasil há muito esquecido e que morreu virgem, nem o empresário de sucesso que não sabe ler de carreirinha mas é um génio com os números, e muito menos um escroque de sucesso que chegou a capo da mafia. Falo de pessoas que querem fazer algo por si próprias sem ficarem à espera da Divina Providência nem da Santa Lotaria.

[3] Esta teoria foi desenvolvida pelo general ainda na meia idade; não estava senil e parecia acreditar no que dizia!!!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 17 Catete

O Batalhão sediado em Catete tinha como missão guardar o acesso a Luanda por leste, a chamada estrada de Catete, que conduzia ao Zenza do Itombe, ao Dondo, N’Dalatando e daí para Malange. As companhias estavam distribuidas por povoações ao longo da estrada, na Barraca e Calomboloca, ficando a terceira e a CCS na sede do Batalhão. (Na foto ao lado, o Filipe na Rainha da Estrada)

É claro que com o fim da guerra (da nossa guerra, entenda-se) a nossa missão era qualquer coisa tão vaga como aguentar até regressarmos a Portugal e entretanto “evitar que a pretalhada se pegue à porrada”, como muito bem me explicou um alto graduado do MFA.

Efectivamente a fase das flores e dos comícios pouco durou, as patrulhas conjuntas em Luanda para evitar confrontos nos muceques não tinham grande sucesso e, acima de tudo, era claro que todos os movimentos estavam a armar-se apressadamente não deixando dúvidas de que a supremacia seria resolvida pela lei do mais forte e nunca por eleições.

Em Catete havia um quartel do MPLA (largamente maioritário na zona, ou não fosse o Agostinho Neto daquela região) que devia ser muito importante porque um dos comissários principais, o Bakaloff[1], que eu conhecia de Quibaxe, aparecia por lá muito. Encontrei-o várias vezes, com ar de não estar apenas de visita, mas como se “lá morasse”.

A FNLA assentou arraiais quase em cima da estrada (o quartel do MPLA ficava um pouco mais longe, para lá do nosso) e, como era seu apanágio, tinha uma tropa bem fardada e armada, falando as suas linguas peculiares, o francês e o lingala, e não pescando peva de português.

Os atritos com a população simpatizante do MPLA (portadora de crachás, bandeiras, T-shirts, etc) eram frequentes e por vezes aconteciam com militares daquele movimento que passavam perto do quartel da FNLA ou à mão de semear de uma sua patrulha.

Nesses casos, quando culminavam com a prisão de um elemento do partido oposto (mais tarde o termo inimigo passaria a ser mais apropriado), lá tinhamos nós (quase sempre eu, dadas as funções político militares informais de que estava investido…) que ir falar com ambas as partes e resolver a questão de uma forma que permitisse a ambas salvar a face.

Escuso de dizer que treinei o meu francês como nunca, pois com a FNLA não tinha outro jeito. A fluência no francês[2] era, aliás, a minha “arma” nas negociações com a tropa da FNLA. (Na foto em cima, o Autor sempre em estreita ligação com as massas populares, em particular as mais jovens).

Com o MPLA tinha facilidade de diálogo, porque conhecia uma boa parte dos chefes da região (uns de Luanda, outros de Quibaxe) e alguns militantes. Com a FNLA não tinha nenhum ponto de contacto e eles não tinham um relacionamento fácil com brancos. Assim sendo, ficavam muito bem impressionados quando lhes aparecia um branco a falar fluentemente a língua deles, não num tom coloquial mas num linguajar pontuado de calão e de vícios de linguagem, intencionalmente “adquiridos”.

Uma tarde de sábado ou domingo, cheguei de Luanda[3] e encontrei a messe de oficiais em polvorosa: a FNLA tinha prendido um militante do MPLA que tinha uma pistola, gerou-se a confusão, o MPLA queria ir lá libertar o preso e a FNLA, pelo sim, pelo não, montou um dispositivo de segurança avançado quase à porta do quartel do MPLA.

A situação estava explosiva, de modo que nem tive tempo para me fardar. Passei da mota para um jipe, e avançámos pelo meio do capim para a zona onde estaria a tropa da FNLA. Eu ia de pé ao lado do condutor, agitando um braço (o outro agarrava o pára brisas, se não caía) gritando parvamente qualquer coisa como “Atenção, sou um oficial do MFA, não atirem”.

Para completar o quadro, estava a escurecer e eu estava com um lenço esvoaçante ao pescoço, tal como chegara de Luanda. De repente, levantou-se do meio do capim uma horda que cercou o jipe e me cercou, de armas apontadas, depois de eu ter descido do dito.

Ainda me gritaram aos ouvidos e me encostaram um cano de arma à barriga, mas aí o verbo (em francês) operou maravilhas e pouco depois o tipo do MPLA estava solto (sem arma). Ficou combinado que no dia seguinte iríamos todos a Luanda, ao Quartel General, (eu e representantes da FNLA e do MPLA) para fazermos um relatório à Comissão Conjunta, onde os três movimentos e o exército português estavam representados, para resolverem questões como a que descrevi.

Nunca participei em nenhuma das patrulhas conjuntas[4] que percorriam a cidade e parte dos muceques, mas essa era uma das principais missões que as NT tinham nesse tempo. Um belo dia, uma das patrulhas conjuntas prendeu um perigoso agitador (à direita, já sem o jimmy) que procurava mobilizar as massas no muceque Prenda, contra as armadilhas do neocolonialismo (se não foi este o objectivo da agit prop, terá sido outro equivalente...)

Chamado à casa de reclusão, encontrei o meu amigo Zé Carlos Tiago que tinha ido para Angola em alta missão de solidariedade para com as massas populares, a título (tanto quanto me apercebi) estritamente individual. Abancou por uns tempos em casa dos meus futuros (e actuais…) sogros como eu próprio fazia quando estava em Luanda, e mergulhou na revolução.

Só que as coisas em Angola eram um bocado a sério (ou a guerra não levasse já catorze anos de tiros e mortos de parte a parte) e não se percebia bem que um branco desconhecido, não integrado em nenhum dos movimentos encartados, com um jimmy[5] enorme, sebento e com ar meio amalucado andasse pelo muceque a dar uma de salvador do povão.
O Zé Carlos era o Presidente do PIM - Partido Internacionalista Monárquico (não confundir com o PIM, com uma bomba sobre o I, do renegado João Paulo, figura mítica que nunca cheguei a conhecer).

Convidou-me para o partido, e estive tentado a aceitar, já que as condições eram aliciantes: como único militante teria a primazia para um lugar no governo, caso o PIM ganhasse as eleições (ou conquistasse o poder por outros meios). O partido dissolveu-se, entretanto, pelo que não cheguei a aderir.

Voltando ao incidente, parece que foram os próprios putos a quem se dirigia a arenga que chamaram as Forças Integradas (creio que era este o nome das tais patrulhas conjuntas). O Zé Carlos ficou incomunicável na casa de reclusão (mas consegui vê-lo e falar-lhe ao contrário do que sucedera quando tentei visitar o meu colega Guimarães-qualquer-coisa do MRPP).

Finalmente foi solto (saíu com uma monumental carecada), eu registei convenientemente a ocasião (ou voltámos lá para a fotografia, em cima e à direita, como fazem os profissionais, o que vem a dar no mesmo). Uns tempos depois, ei-lo de regresso à mãe pátria onde a situação estava a tornar-se cada vez mais interessante para um cientista da revolução.

Por volta de meados de Abril de 1975 o meu Batalhão regressou a Portugal. Acontece que eu me sentia muito bem em Luanda, a situação estava a ficar muito movimentada, com partidos e movimentos cívicos para todos os gostos e feitios, a Universidade fervilhava de reuniões e comícios, nem sempre com o controlo do MPLA.

Como seria de esperar, os estudantes eram de esquerda, pois de esquerda eram os ideais de descolonização, independência, recusa de um qualquer neocolonialismo.

Não estaria longe da verdade dizer que o MPLA, com ideias que faziam sentido, com pessoas (militantes e simpatizantes) capazes de alinhar duas frases com forma e conteudo, a falar ou a escrever, com hábitos de vida de cidade (culturalmente próximos dos portugueses), era, de longe, o partido que mais expressão tinha nas cidades.

É interessante referir que nunca consegui encontar um livro, uma pequena brochura que fosse, um caderno … qualquer coisa com escritos do Savimbi ou de outro dirigente da Unita. Da FNLA também não. Não me pareceu interessante comprar o livro da Dra Fátima Roque, publicado depois de deixar a Unita[6]. Não a vejo como dirigente do Galo Negro, vejo-a mais como uma pessoa que lhe cedeu “sa croupe populaire” numa altura em que a Unita precisava desesperadamente de mostrar gente credível (ia a votos e não a tiros…). A senhora ficou rapidamente deslocada quando as eleições foram perdidas e o Muata não se conformou com a derrota.

Estou, contudo, interessado em ler o livro que saíu há pouco escrito por um antigo ministro de um país da África ocidental, baseado em entrevistas dadas por Savimbi.

Voltando a Luanda, entre a estudantada havia gente que não ia em revisionismos e que se opunha, pela esquerda, à hegemonia do MPLA. Entre os movimentos mais activos estavam os CACs, Comités Amilcar Cabral, e de um incipiente Partido Comunista Angolano.

Depois da independência alguns dos activistas passaram largo tempo[7] na prisão, após o que foram soltos e se integraram facilmente (pelo menos a dúzia que eu conheci) na sociedade, sem chatices de ordem profissional, se bem que se mantivessem à margem do MPLA.

Depois do meu Batalhão regressar a Portugal, eu e o Filipe (que além de ser furriel no meu pelotão era escrivão dos autos[8], e um compincha) resolvemos ficar mais uns tempos em Luanda. Aleguei que os Autos de Corpo Delito que ainda não tinham sido julgados mereciam o nosso empenho, pelo que continuaríamos a fazer diligências para que não ficassem parados (e os arguidos, presos, muito tempo à espera do julgamento). O nosso Comandante (do Batalhão) concordou de pronto, e ficámos em Angola.

A intenção era louvável mas não era (claro!) inocente: tanto eu como o Filipe movimentávamo-nos muito bem na noite luandense (sem falar nas praias e cervejarias, durante o dia), de modo que a nossa permanência em Luanda juntava o útil ao agradável.

Até que um belo dia, durava esta situação uns belos dois meses, sou chamado de urgência à chefia do Serviço de Justiça. Um major tarimbeiro queria saber o que raio faziam em Luanda um alferes e um furriel cujo Batalhão já regressara a Portugal e que, ainda por cima, não estavam enquadrados em qualquer unidade militar (estávamos, pois, por nossa conta e risco e quase sem ter que dar satisfações a ninguém...). Bem lhe cantei o fado dos soldados presos e dos Autos pendentes, que de nada serviu.

Menos de uma semana depois estávamos, sem apelo nem agravo, no avião de regresso a Lisboa.
. . . . .
NOTAS:

[1] envolveu-se até ao pescoço no golpe sangrento do Nito Alves, tendo, por isso, perdido aquele peça da sua anatomia.

[2] o conhecimento de muitas canções de Georges Brassens, o meu cantor preferido desses tempos, ajudou muito neste capítulo; se quiser, recorde-o aqui.

[3] com Catete a dois passos de Luanda, estava todos os dias a chegar ou partir para a capital.

[4] com militares dos três movimentos e das NT

[5] cabeleira à Jimmy Hendrix

[6] A dita senhora seguiu a regra de ouro dos dissidentes da Unita: disside só quando estiveres bem longe do Muata e com a tua família em lugar seguro. É que ele aprecia pouco dissidências, discussões, ou simples divergências…

[7] conheci alguns que estiveram quase três anos dentro…

[8] era um escrivão sui generis: como eu escrevia melhor à máquina (ou ele não apreciava a arte…) era eu que escrevia tudo e assinávamos os dois, eu como oficial averiguante e ele como escrivão…

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

ENTRECAPÍTULOS, À GUISA DE INTERVALO

Calma, a publicação do worst seller não vai ser interrompida.

OK? Coooool...

Simplesmente vou meter aqui, entre os capítulos 16 e 17, uma curiosidade que encontrei quando procurava um livrinho sobre "direitos da mulher", que não vejo há um monte de tempo.

O que encontrei foi o rasto dos ensaios que fiz antes de me fixar na no título e na capa do livreco que acabou por levar o título que deu o nome a este blog.

Aí vão dois ensaios que chegaram à fase de brochura artesanal:

o primeiro, à esquerda, levava o título "ÁFRICA - Angola e a Tropa da Outra Senhora" e a capa era ocupada pela reprodução de um quadro que pintei pouco depois do 25 de Abril. O título era um bocado rebuscado e comprido, e o quadro (enfim...) era metido um bocado a martelo para publicitar a minha veia artística (?!) daquele tempo. Foi, naturalmente, posto de parte.

O outro, à direita, era uma tentativa de poupar na cor da capa, metendo uma fotografia do edifício do porto de Luanda, tirada de uma publicação dos anos 60 da Direcção Provincial de Portos e Caminhos de Ferro (ou coisa que o valha).

O título continuava a privilegiar ÁFRICA em detrimento de Angola, que figurava no sub título: "gentes de Angola e outras..." e acabou por não vingar.

Já com o livro na tipografia, ali ao lado da Sopa dos Pobres, na Almirante Reis, a capa e o título tiveram que ser definidos à pressão e ficaram como se vê no cabeçalho do blog.

Curiosamente, a contracapa estabilizou quase desde o início dos ensaios, que as fotos escolhidas, quer o parlapió escolhido.

Clique para ampliar e ler:

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 16 A Honra dos Vencidos

Na madrugada de 25 de Abril a coluna de Salgueiro Maia chegou a Lisboa e só no Terreiro do Paço encontrou uma força armada credível que lhe fez frente. Era comandada pelo Brigadeiro Junqueira dos Reis que, à frente de uma tropa de amadores, tentou obstar ao avanço do que parecia ser uma coluna isolada, sem mais apoios no resto do país, pelo menos que se tivessem manifestado até àquela hora.

Numa altura em que ministros choravam pelos cantos (a começar pelo titular do Exército, um General de 4 estrelas...[1]) e generais tentavam, desnorteados, perceber o que se passava, a pequena força da EPC acabou por triunfar devido à total inépcia de quem, não obstante o aviso representado pelo avanço em falso das Caldas, no mês anterior, não soube seleccionar uma tropa de confiança (GNR, PSP, Comandos) para defender o coração do regime, deixando-o entregue a uma tropa de milicianos que se desmoronou (e se passou para o lado dos revoltosos) na iminência de um confronto real, mesmo sendo claro que estavam no lado da força maior no terreno.

Na fragata que se passeava Tejo abaixo, Tejo acima [2], os tripulantes limitaram-se, aparentemente, a esperar o desfecho da situação em terra: não dispararam, é certo, sobre os revoltosos, contrariando as ordens recebidas, mas também só prenderam o Comandante do navio e aderiram à revolta quando esta triunfou em terra. (*)

Por muito que o considere “do lado errado desta história”, por muito que a sua acção seja ridicularizada (e exagerada...) nos filmes recentes sobre o 25 de Abril, a verdade é que o Brigadeiro Junqueira dos Reis foi o único oficial general que honrou as suas estrelas e os compromissos assumidos como oficial e como 2º Cmdt do Governo Militar de Lisboa. Esses compromissos tinham sido reafirmados semanas antes perante Marcelo Caetano, na tristemente célebre cerimónia do beija mão da “Brigada do Reumático”.

Muitos dos que meteram o rabo entre as pernas no 25 de Abril aparecem anos depois a tecer elogios ao anterior regime e em particular à sua política ultramarina, denegrindo o regime pós 25 de Abril. Percebe-se mal onde estavam naquela data e por que não se opuseram de armas na mão ao golpe que privou a Pátria dos territórios ultramarinos que, no seu entender, eram parcelas portuguesíssimas cujas populações mais não queriam que viver e morrer à sombra da bandeira das quinas. O sr General Kaúlza de Arriaga, tão disponível para mobilizar a Força Aérea contra Botelho Moniz, em 1961, deve ter estado muito distraído em 25 de Abril de 1974...

Resta dizer que também Marcelo Caetano se soube portar com honra e dignidade na derrota, não se deixando abandalhar rendendo-se ao primeiro capitão que lhe enviaram, aceitando fazê-lo apenas ao general Spínola, para o “Poder não cair na rua”.

Tal atitude, infelizmente, terá sido interpretada à letra por Spínola que assim se terá sentido legitimado como depositário do Poder, ainda que recebido de um chefe vencido (o que não deixa de ser caricato).

Nunca tendo sido mais do que o lider de um pequeno grupo de oficias (a guarda pretoriana dos tempos da Guiné), o General passou a querer mandar em toda a gente e no próprio MFA e procurou, durante a sua meteórica passagem por Belém, desenvolver uma política pessoal independente da do MFA (e até contrária a ela) em relação muita coisa, com destaque para o futuro de Angola.

Mais uma vez, isso são outros contos que não são para aqui chamados...

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NOTAS:

[1] Andrade e Silva. Na foto ao lado, era ele vice CEME - Chefe do Estado Maior do Exército, (passaria a CEME pouco depois) tendo sido antes comandante da Academia Militar. Na foto estou eu, de óculos de aros pretos, à direita da excelência, e o famoso oficial dos comandos, Chung su Sing, à esquerda. (Clique na imagem para ampliar e ver melhor)
[2] O papel desempenhado pela fragata Gago Coutinho tem sido motivo de muita controvérsia: por que não disparou a fragata sobre os revoltosos, dando-se como certo que o Comandante era da velha guarda, eventualmente conotado com o regime? Qual a acção (se alguma) do Imediato, com metade da idade do Comandante, eventualmente ligado ao MFA? Houve insubordinação? ...?
A seguir ao 25 de Abril houve um inquérito que, tanto quanto apurei, não deu em nada. Mas os autos de declarações existem e podem ser consultados.
Em 2000 o Imediato de antanho, Caldeira Santos, produziu um depoimento que está depositado no Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, e que foi contestado de forma veemente e muito bem documentada pelo comandante Louçã, que tentou demonstrar (nas suas palavras) que Caldeira Santos mentiu, inventou, fantasiou, etc, contradizendo no depoimento de 2000 afirmações feitas no inquérito de 1974.
Onde estará a verdade?
Tendo em conta o rol extenso de depoimentos em que se apoia o comandante, contra a falta de referências no texto do seu imediato, parece mais provável que ela esteja com o depoimento do Comandante Louçã .
De qualquer modo, leiam e formem opinião. Leiam também sobre o assunto no blog da Ana Marta .
(*) O comandante não foi preso, esta ideia, de que aqui fiz eco, não está correta. Muito do que se disse e se ouviu sobre o assunto naqueles tempos de muito boaro e pouca investigação continua hoje a ter os seus seguidores (houve ou não houve insubordinação a bordo? o imediatou foi ou não demitido? o imediato informou ou não o comandante sobre o papel que o MFA reservou à fragata? etc, etc). Parece, contudo, ter ficado claro que o comandante não foi preso pela tripulação e saíu pelo seu pé quando a fragata acostou ao Alfeite.