Depois de uma curta estadia em Faro, o meu pai foi de novo mobilizado para Angola (não chegou a estar seis meses na Metrópole). Esteve numa companhia instalada num lugarejo chamado Casa da Telha, relativamente perto de Ambrizete.Quando o batalhão rodou para Luanda[1], nós (a minha mãe, a minha irmã e eu), que entretanto ficáramos em Faro, rumámos a Angola reunindo-nos ao meu pai naquela cidade.
Luanda era muito maior que Nova Lisboa e muito mais antiga. Esta antiguidade reflectia-se, para além de prédios de traça colonial, na quantidade de mulatos que indiciava uma interpenetração de raças considerável, e na existência de uma mentalidade “luandense” muito própria, um misto de bairrismo e de consciência de uma cidadania angolana emergente, que só encontrava paralelo em Benguela.
Pela primeira vez tive consciência de que a tropa não era benquista, e que os colonos já não olhavam os soldados como seus salvadores e defensores, como nos tempos do “para Angola rapidamente e em força”.
A chegada das unidades militares deixara de se fazer com a pompa e circunstância iniciais. Acabou o desfile pela Marginal[2] fora ao som das aclamações populares, e a tropa limitava-se a fazer o transbordo do barco para os camiões que a levariam para o quartel do Grafanil, na periferia da cidade. Tudo se passava, pois, sem margem para exaltações patrioteiras, e na mais perfeita normalidade de uma operação logística.
Nesse tempo, Angola entrara num período de desenvolvimento acelerado em quase todas as esferas de actividade. O boom económico era patente na agricultura, nas pescas, nas indústrias extractivas (com destaque para o ferro, diamantes e petróleo), nas indústrias transformadoras. Nas obras públicas estava-se na guerra do asfalto, com a construção de estradas que iriam unir todas as capitais de distrito, e ligar a rede viária da província à do sudoeste africano, permitindo que as idas de carro a Windhoek (destino calisto das viagens de fim de curso) se fizessem com todo o conforto. A educação começou a estender-se (finalmente!) a todo o território, multiplicando-se as escolas e liceus e criando-se os Estudos Gerais Universitários, embrião da futura Universidade de Angola.
Esta vitalidade estendia-se às indústrias do lazer e do prazer, tornando as principais cidades, em particular Luanda e em menor escala o Lobito e Nova Lisboa, em locais muito agradáveis para se viver. As praias, restaurantes, esplanadas, cafés, cinemas, boites, dancings, cabarets[3] garantiam ao cidadão uma razoável variedade de opções, com animação dia e noite, desde que o ânimo (e o dinheiro) não faltassem de todo. Publicavam-se em Luanda quatro jornais diários (a Província de Angola, Comércio, matutinos; o Diário de Luanda e o ABC, vespertinos) e várias revistas, das quais o Notícia (que viria a ter edições em Luanda e em Lisboa) era a de melhor qualidade, com uma equipa de jornalistas aguerridos e com espírito “angolano” em que pontificavam Charulla de Azevedo e João Fernandes (que assinava já então “a chuva e o bom tempo”, coluna com que se transferiu para o Diabo, de Vera Lagoa).
A televisão só em vésperas do 25 de Abril faria a sua aparição, mas a rádio estava nos seus melhores dias, passando uma mensagem do tipo Brasil dos anos 70 “ninguém segura!”. Os programas da série Luanda 64 (e daí por diante até 74), a Grande Roda[4] e outros mantinham o ouvinte informado e interessado sobre temas de interesse local e regional, deixando para segundo plano o que se passava lá longe, no putu.
Havia um programa em kimbundo (ou seria umbundo?) dirigido à população do musseque. O palavreado era, para mim, impenetrável, mas a música era do melhor que os agrupamentos musicais angolanos produziam, à mistura com os merengues que começavam a chegar. O programa era o tondoya ‘muquino kizomba , que lançava o convite aos ouvintes: “vamos dançar a batucada em nossas casas”. Daí para a frente, era tudo em kimbundo, inclusive a publicidade[5].
Não me lembro de concertos[6] nem de teatro, mas por volta de 1965 passou por Luanda uma companhia de Ópera (do Trindade, se bem me lembro) que apresentou o Rigoleto, a Lucia de Lamermoor e a Carmen.
A sociedade luandense estava a mexer em todos os sectores e o desenvolvimento acelerado que se vivia, era quase palpável.
E no entanto…
No entanto, a guerra prosseguia morna no norte, mais violenta no leste (violência atenuada pela distância e pela menor implantação portuguesa naquelas paragens). Nas cidades quase nada se passava, para além de umas rusgas de que nos apercebíamos quase por acaso, e que pouca divulgação mereciam.
Seguia-se com atenção o que se passava na Rodésia (o Ian Smith, foto a seguir, era uma espécie de herói) e não se duvidava nem por um instante de que a África do Sul permaneceria um firme baluarte do poder branco[7] (afinal os brancos de lá não tinham outra terra, não tinham para onde ir, portanto…), e com ela o Sudoeste Africano no nosso flanco sul. 
E lá iam aparecendo os autocolantes e pinturas nos embondeiros à beira da estrada, proclamando que “ASPRO só faz bem!”. ASPRO era uma marca de comprimidos no género da aspirina. Só que neste caso o significado era outro:
AS África do Sul;
P Portugal;
RO Rodésia.
Ficava, pois, a sugestão de que o reduto da civilização ocidental (ou o reduto branco) devia aumentar a sua coesão, unindo-se contra a barbárie que o ameaçava.
A questão era complicada: os bárbaros eram apoiados pela União Soviética (e pela China) ou pelos Camones (se bem que com as ambiguidades habituais) e a ASPRO não era apoiada pelo Ocidente (cristão e democrata) com grande entusiasmo. Parecia lógico que os bons se deviam unir, e com caracter de urgência.
Desta minha passagem por Luanda, que durou dois anos, não há muito que contar.
O Liceu Salvador Correia não era muito diferente dos outros liceus por onde andei, quer nos edifícios, quer nos professores, quer nos colegas, quase todos brancos. As excepções habituais eram um colega preto (o Saci – a alcunha era fatal como o destino – que voltei a encontrar anos depois como médico militar, em altas pescarias e fins de semana no Mussulo), um ou dois cabritos e um indiano.O irmão mais novo, também muito ligado ao grupo do Nito, regressou a Portugal pouco antes do golpe, o que lhe terá salvo a vida. Exerce por cá advocacia e tem um "consultório" digital no Público.
. . . . .
[1] Os batalhões tinham, em geral, as companhias distribuídas por vários locais, e algumas delas destacavam pelotões para pontos que interessava controlar. Desse modo, a cobertura do terreno era, ou esperava-se que fosse, mais efectiva. Ao fim de certo tempo, mais ou menos a meio da comissão, o batalhão mudava para outro local, donde por sua vez saíra outra unidade e assim sucessivamente. Esta rotação evitava que as unidades fizessem toda a comissão em zonas boas, ou em zonas más; por outro lado, evitava que se estabelecessem hábitos, rotinas, padrões de comportamento de que o IN (sigla que designa o inimigo) se pudesse aproveitar.
[2] Avenida à beira mar que se desenvolve desde o porto marítimo até à ponte que liga a ilha de Luanda à cidade.
[3] o advento das discotecas ainda vinha longe, mas será de toda a justiça incluir no rol as casas de pêgas (finas, menos finas e vagabundas), destacando a da D. Nanda na estrada da Samba, e o nº 28, à Mutamba, com clientela selecta e meninas “de família e estudantes”, mas também serviam mulatas e pretas “limpas” para os clientes amantes do exótico...
[4] A frase chave era “porta aberta, mangas de camisa, Grande Roda, TAC, TAC!”
[5] como por exemplo às máquinas de costura Oliva, oió maquin’ó cutonga, etc, etc (soava mais ou menos assim, e não me lembro do resto).
[6] Se bem que existisse então, há alguns anos, uma Academia de Música onde as meninas prendadas aprendiam piano e solfejo…
[7] Claro que não era habitual ouvir-se defender o apartheid (afinal a colonização portuguesa era diferente), mas toda a gente tinha esperança de que a África do Sul não se deixasse submergir pela bandalheira que grassava no resto do continente.






ando a Nova Lisboa, resta dizer que esta cidade viria a ser quase totalmente destruída após a independência, tendo estado sucessivamente na posse dos Sul Africanos, FNLA, UNITA, MPLA (cercada pela UNITA durante vários anos sem electricidade e com pouca água). Acabou por ser evacuada pelo MPLA, e ocupada pela UNITA, para ser recuperada pelo MPLA, anos depois.



















As unidades militares existentes em Angola eram constituídas por um pequeno número de regimentos, sediados nas principais capitais de Distrito, complementadas por unidades de diversas especialidades. Os efectivos compreendiam um núcleo de graduados e especialistas que enquadravam tropa de recrutamento local que, após a recruta e especialidade, ficava apta (“pronta” é o termo consagrado) a prestar serviço.







