sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

ANGOLA Recordações da Tropa - Introdução


Por diversas vezes nestes últimos vinte e tantos anos, tenho ouvido e lido opiniões sobre “os tempos do antigamente” na nossa África.
Sobre a índole cordial e pacífica do colono português abundam as referências pontuais, realçando as diferenças que distinguem a colonização inglesa e francesa da nossa, as quais caracterizariam o nosso modo especial de estar em África.

Sobre a questão do racismo (do “povo português” e do Estado Português) na sociedade multiracial e pluri continental, muito se tem dito e escrito sem que haja consenso sobre o assunto. Que eu saiba, não existe nenhum estudo exaustivo do que foi a colonização portuguesa. Talvez algum instituto (por exemplo o ISCSP, antigo ISCSPU...) ou universidade (a Universidade Aberta parece querer pegar a sério no assunto) tenha em curso investigações que venham fazer luz sobre estas matérias.

Já passou tempo suficiente para termos uma geração que cresceu distanciada dos problemas de África (no tempo e na geografia) e que poderá debruçar-se objectivamente sobre a colonização portuguesa, enquanto ainda estão vivos alguns dos seus últimos protagonistas.

As chagas abertas na última fase da colonização e durante a descolonização ainda estão longe de ter cicatrizado, já que mais não seja porque há ainda larguíssimos milhares de pessoas, vivas e longe da decrepitude, que as sentem na carne. Os retornados que foram espoliados dos seus bens, das suas expectativas de vida e mesmo de entes queridos; os cidadãos das ex colónias que atribuem ao colonizador o subdesenvolvimento dos novos países e ainda as desgraças ocorridas durante o período colonial e/ou pós colonial; os militares que fizeram uma guerra longa e de desfecho mais que duvidoso, e nunca contaram com a compreensão dos colonos (que eram supostos defender), nem da população da Metrópole, nem sequer com o amparo do Estado quando dele precisaram.

Assim, quando entramos no tema movediço da descolonização, a crispação e emotividade com que é tratado dificulta, desde logo, a reflexão séria, o alinhar de factos, a troca serena de opiniões. Cai-se facilmente no confronto de posições radicais, na suspeição sobre os interesses que cada um defende, como “pensa isso, porque não lhe aconteceu aquilo”, “se estivesse no meu lugar pensaria de outro modo” (“como eu”, depreende-se), ou “diz isso, porque conseguiu vender alguma coisa antes de se vir embora”. As acusações podem ser mais politizadas: “vocês, os do MPLA, assim”, “vocês acreditaram que a Unita, assado”, ou ainda “vocês, os do PC, entregaram aquilo tudo aos russos”.

Estas discussões não costumam ter consequências de maior. As relações que tinham que ser cortadas já o foram há tempos largos. Quando muito podem dar origem a amuos temporários, mas nada de grave. As mais das vezes, acabam com uma evocação dos velhos tempos, à volta de uma mesa em que as Carlsberg e as Sagres não conseguem fazer esquecer as Cucas fresquinhas de antanho, beberricadas ao fim da tarde nas esplanadas da Portugália ou do Amazonas...

Estive em Angola[1] mais de vinte anos, nove antes da independência, entre 1958 e 1975, e doze depois da independência, de 1976 a 1988. Presenciei ou participei em muito do que se passou antes do início da guerra, durante a guerra (incluindo uma comissão no norte de Angola) e durante o período pós 25 de Abril.

Este testemunho do que vi e vivi cobre o período até ao meu regresso a Portugal, antes da independência de Angola. Algumas referências à minha última estadia, já como estrangeiro, após a descolonização, serão inseridas sempre que os factos então vividos venham ilustrar o assunto central a tratar: a vida na Angola colonial que eu conheci, em particular as relações entre colonos e colonizados.

. . . . . . .

NOTAS:

[1] único território ultramarino que conheci.

ANGOLA Recordações da Tropa - Abertura

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Dedicatória:


Dedico este livro:

- A todos os jovens que pelos mais diversos motivos se deixaram arrebanhar para a guerra de África, esperando cumprir a comissão sem chatices de maior, sem nada de especial terem contra “o inimigo”.

- A todos os que consideraram sua missão regressar sãos e salvos (vivos e inteiros) à Santa Terrinha, mesmo que para isso tenham tido que matar.

- Aos que regressaram da guerra com deficiências físicas ou psíquicas (em particular às vítimas do stress de guerra que tardam a ser reconhecidos e apoiados) a quem o Estado e a Sociedade regateiam o pão e o conforto, furtando-se a assumir as suas responsabilidades.

E também:
- Aos jovens que encararam a guerra como uma missão sagrada e nela combateram, convictos de que defendiam a Pátria, a quem deixo aqui a minha homenagem, mesmo não concordando com eles.

Porém,
- Aos que defenderam a política ultramarina do Estado Novo e pregaram a defesa do Ultramar até à última gota do sangue alheio, já que nela não combateram, aqui lhes deixo o meu imenso desprezo.


Com esta dedicatória começava o livro que há muito tempo queria escrever para dizer de minha justiça sobre a "nossa África" que eu conheci.

Depois de publicar, por volta de 1994, uma colectânea de textos enviados para os jornais, uns publicados, outros não, resolvi, aí pelo virar do século, escrever o livro que trazia meio atravessado e que acabou por ser publicado em 2001.

Acabou por se chamar ANGOLA Recordações da Tropa, e começo agora a transcrevê-lo para este blog, um capítulo por post, pelo que se anuncia desde já o encerramento do blog ao fim de 27 posts, dezanove capítulos e oito anexos, para além deste post de apresentação.

A abertura do blog ocorrerá no dia 19, sexta feira, e assinalará os quatro anos do blog com que comecei a minha vida de blogonauta: o pensarnaodoiaiai.

Antes da introdução, apresentava-se uma gravura que tirei de um livro de autor angolano, José da Silva Maia Ferreira, com a nota explicativa que abaixo se transcreve .

A gravura da página anterior (no livro) representa o edifício da Alfândega de Benguela. Desconhece-se o seu autor. Foi inicialmente impressa no livro Across África, de Verney Cameron, editado em Londres em 1885 (2ª edição) pela G. Philip & Son. Foi utilizada como capa do livro editado pela União dos Escritores Angolanos “Espontaneidades da Minha Alma (às senhoras africanas)”, de José da Silva Maia Ferreira, que trabalhou neste edifício na primeira metade do século XIX.
A fotografia de capa, reproduzida nesta página, mostra uma estatueta de um seculu com um dos quicos do uniforme nº 3 que usei em Angola. Foi comprada em Luanda muito depois da guerra (a “nossa”) ter acabado, durante o tempo que lá trabalhei como cooperante.
As fotos da contra capa e as que aparecem disseminadas por entre o texto são minhas. As da fase bélica foram tiradas quase todas na região dos Dembos, nos arredores de Quibaxe.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

NOTA DE ABERTURA

Conforme anunciado, comecei hoje a publicar os posts com os capítulos do livro ANGOLA Recordações da Tropa, comemorando (?!) os quatro anos do blog aiaiai, como lhe chama um dos queridos leitorzinhos .

Se gostarem do livro (e do blog) recomendem aos amigos; se não gostarem, recomendem aos inimigos...

Em qualquer dos casos, não se inibam de comentar como quiserem, assinando ou não, com a garantia de que os comentários não serão moderados, muito menos excluídos (enfim, poderá haver um caso muito, muito especial para que isso aconteça; mas terá que ser mesmo, mesmo muito especial).

Claro que quem comenta expõe-se sempre à minha resposta ou aos comentários dos outros. Mas sem réplicas e tréplicas, isto seria uma chatice completa.

Enjoy!