sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 3, Mais palavras para quê? é o Estado Português...

[1] As guerras de África terminaram há mais de duas décadas e os seus ecos só muito esporadicamente se fazem ouvir na comunicação social. Essas referências adquiriram um tom quase litúrgico por ocasião das comemorações do 25 de Abril e do 10 de Junho, a primeira destas datas mais cara à esquerda, a segunda eleita pela direita.

Com a criação do monumento aos combatentes do Ultramar, rodeado de controvérsia desde o início do projecto e com a inauguração marcada por uma monumental vaia ao então presidente Soares, o 10 de Junho ganhou um palco para uma comemoração extra oficial. Tem o seu quê de pitoresco, concentrando velhos guerreiros a passar da meia idade, em que preponderam comandos, páras e fuzos, com as suas boinas, as suas medalhas os seus crachás.

Os discursos são belicosos, eivados de saudade dos tempos em que, segundo eles, a Pátria não fora ainda traída e vendida a retalho. Alguns oradores reafirmam a sua disponibilidade para se baterem pela Pátria, se a Pátria o exigir (“ainda podemos pegar numa canhota, porra!”, dizem).

Depois, bebem-se uns copos, canta-se a Portuguesa e... vai-se para casa. No próximo ano há mais.

Aparentemente, as feridas da guerra estão saradas (ou, pelo menos, cicatrizadas), e há que recordar apenas os momentos bons (a camaradagem, as cervejolas, as lavadeiras-que-lavavam-o-quico), recordar os amigos que por lá ficaram, dar e receber notícias dos ausentes e ... esquecer tudo o mais.

E no entanto, as feridas da guerra permanecem abertas para muitos combatentes a quem deixou marcas subtis, que não só tardam a sarar, como se vêm a agravar à falta de tratamento apropriado. Para além do sofrimento de que padecem, são muitas vezes confrontados com atitudes de incompreensão e repúdio por parte do Estado sob cuja bandeira serviram, por parte do Exército em cujas fileiras foram mobilizados e combateram, por parte de médicos tacanhos, insolentes e ignorantes que não encontram o vírus da PTSD nas análises que prescrevem, nem a sua sombra nas radiografias tiradas aos doentes.

É no mínimo bizarro que numa sociedade responsável que se proclama regida por valores da Solidariedade, da Justiça, da Liberdade e do respeito pelos Direitos Humanos, os cidadãos que serviram o Estado naquilo que o Estado exigiu tenham que lhe provar que o serviram (apresentando testemunhas, até!) e que lhe demonstrar que desse serviço resultou a doença de que padecem.

Essa doença, stress de guerra, para usar uma designação portuguesa e curta, está hoje perfeitamente tipificada, e a sua relação directa e causal com a exposição a situações de guerra foi plenamente assumida pelo governo americano. O Tio Sam foi ao encontro dos seus veteranos traumatizados, estendendo uma rede nacional de Vet Centers para os apoiar.

Em Portugal tínhamos mesmo que fazer diferente. Demasiado importante para ir ao encontro dos cidadãos, o Estado permanece indiferente e limita-se a aguardar que aqueles que o serviram provem que a doença existe, que é consequência da guerra e provem ainda em cada caso particular que o doente esteve na guerra (onde? com quem? quando? quem era o superior imediato?) e que daí resultou o estado de que padece. Brilhante! Kafka não faria melhor!

Resta lembrar, recuando no tempo, que esta atitude iníqua do Estado Português não é de hoje:

- Os deficientes físicos tiveram que travar uma luta feia (a ponto de manifestações de deficientes serem reprimidas pela polícia...) para conseguirem ser tratados com respeito e para que lhes fossem dados tratamento médico e pensões compatíveis com aquilo que perderam ao serviço do Estado. A ADFA teve um papel relevante, e só com muita luta o Estado cedeu.

- Nos primeiros anos da guerra colonial, os militares mortos (em combate, por doença ou por desastre) eram sepultados no teatro onde faleciam. As famílias tinham que pagar do seu bolso (se tivessem disponibilidades para tanto) o repatriamento do corpo! Aparentemente, o Estado equiparava-os a turistas, em relação aos quais não sentia quaisquer responsabilidades.

- Durante as campanhas do sul de Angola, em 1915, o insuspeito Sarmento Pimentel, então Alferes de Cavalaria escrevia “...avistamos os morros de Calveque ... era já teatro de inúmeras tragédias que a Pátria ignorava, os governantes ocultam para que, aos escapados milagrosamente, se possa regatear, mais tarde, o pão dos últimos dias de existência”.[2]

- Já no século XVII o Padre António Vieira escrevia “Se servistes a Pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”.

Mais palavras, para quê? É o Estado Português!
. . . . .

NOTAS:

[1] Este texto foi escrito como colaboração para a APOIAR, Associação para Apoio aos Ex-combatentes Vítimas de Stress de Guerra. Foi integrado na intervenção da Apoiar no Colóquio que a ADFA (Associação dos Deficientes das Forças Armadas) promoveu no Porto em 29 de Novembro de 1996 subordinado ao tema “A realidade do distúrbio pós-traumático do stress de guerra; causas e consequências”.

[2] in “Cobiça de Angola” de Ernesto Moreira dos Santos, 1957

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 2, Os Comandos...






Sr Director (INDEPENDENTE)[1]:

A edição do passado sábado, dia 11, da VIDA trazia um artigo intitulado MATAR SAUDADES, no qual antigos militares contavam histórias da guerra e teciam considerações sobre vários temas ligados a ela. Lendo em diagonal, parecem as histórias habituais: as saudades de África, a camaradagem, o grande amor que os pretos nos dedicavam, condimentadas com a prosápia própria dos Comandos.

Lendo com mais atenção, surpreendo-me com histórias de operações em que as ordens eram para matar toda a gente, em que os intervenientes mataram uma mulher com um filho de colo “porque não havia alternativa”, outra em que mataram as mulheres e crianças que haviam trazido para o quartel, porque a meio da noite “as crianças começaram num berreiro, as mulheres aos gritos”.

Em ambos os casos foram mortes a sangue frio, dificilmente explicáveis à luz de uma lógica de guerra, e absolutamente reprováveis numa guerra subversiva, em que o objectivo é a conquista das populações.

Sem ser um teórico da guerra, Marcelo Caetano, em carta a Kaulza de Arriaga, sintetizou de forma feliz qual deveria ser o comportamento da tropa face à população: “interessa mais conquistar o coração dos vivos do que cortar cabeças aos mortos.”

O que este artigo tem de inovador (e de chocante) é que nos confronta com uma associação legalmente constituída onde se narram crimes de guerra na maior das calmas e cujo presidente, Sr Capitão Gonçalves, parece desconhecer que as guerras têm mesmo regras, que Portugal reconheceu, ao assinar a Convenção de Genebra. Matar turras (ou homens identificados como tal...) é uma coisa; matar civis (e as mulheres e crianças eram-no certamente) é um crime de guerra.

Em África, como na Europa.

Sobre Wiryamu, o Sr Capitão Gonçalves sugere que a matança se processou no cumprimento de ordens correntes de “aniquilar para não ser aniquilado”. Será que as mulheres e crianças estavam armadas e ameaçavam aniquilar os soldados da 6ª companhia de Comandos? Parece pouco provável. Os testemunhos do Capitão D. Francisco Van Uden (na foto à direita, com o primo) e do Coronel Jaime Neves sugerem precisamente que se terá tratado de um incidente fortuito (infelizmente não foi o único) que não devia ter acontecido. Não se enquadrava no padrão de actuação dos Comandos, e muito menos da generalidade da tropa portuguesa em Moçambique.

As ordens que a tropa recebia sobre o modo de tratar a população civil (não só as mulheres e crianças como também os homens) eram muito claras e excluíam quaisquer maus tratos, coacção ou violência. Não pertenci a nenhuma tropa de intervenção (servi no Norte de Angola numa unidade de quadrícula), mas não acredito que os comandos, páras e fuzos, tivessem ordens para matar mulheres e crianças.

Dispenso-me de comentar as considerações que os entrevistados tecem sobre os temas habituais, caros ao Comando. Limito-me a duvidar da pureza de militares, de um lado e do outro, que fazem a guerra nos moldes que os intervenientes relatam, sem moral, sem regras, escudando-se atrás das ordens “dos superiores” ou “dos generais” e atirando as culpas para os políticos.

Limito-me a recordar que puros são os havanos...

. . . . .

NOTA:

[1] Publicado no suplemento VIDA do Independente de 97.01.18

domingo, 25 de Janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Anexo 1

População de Angola
A penetração portuguesa nos matos africanos fez-se até ao início do século XX de forma muito pontual, e teve o seu grande boom na segunda metade do século. Abandonado o critério da descoberta, era a ocupação efectiva das colónias que legitimava a sua posse.

Tornou-se, pois, vital organizar expedições que cirandassem por todo o território reivindicado, fazendo levantamentos topográficos, estudando a fauna e a flora e, se possível, estabelecendo pontos de presença permanentes que actuassem como entrepostos comerciais e núcleos de influência sobre o gentio.

Contudo, estas expedições não acarretaram de imediato a fixação de colonos nos matos, tendo-se esta feito com muita lentidão.

No estudo de Vasco Fortuna inserto num livro publicado em 1963 pelo ISCSPU, vemos que no dealbar do século XX, não existiam em Angola dez mil brancos. A população branca cresceu muito lentamente até à década de 50, tendo, a partir de então, havido um forte crescimento. Veja-se o quadro, no início do post, e o gráfico acima.

Em 1960 a distribuição desta população não era uniforme, concentrando-se nas circuns- crições cujas sedes estavam situadas em portos ou sobre os caminhos de ferro. A figura ao lado mostra como 82% da população branca e mestiça se distribuía, nestas condições.

Se alargarmos a faixa até 100 Km de distância de portos ou de linhas de caminho de ferro, obtemos uma percentagem de 94%.


Se representarmos graficamente o número de habitantes fora da faixa em torno dos portos e ao longo dos caminhos de ferro, e representarmos essa população em função da largura da faixa, obtemos o gráfico que a seguir se apresenta, que nos permite concluir que a população “de civilização europeia” estava fortemente concentrada na vizinhança daquelas infraestruturas, rareando no resto do território.

No mesmo trabalho que temos vindo a seguir, o investigador avança, como hipótese de trabalho, a seguinte distinção básica entre os comportamentos da população autóctone e da europeia, que passo a transcrever:

“- A população de civilização africana tradicional procura adaptar-se ela própria às condições naturais que encontra;

- A população de civilização europeia procura adaptar as condições naturais que encontra às suas próprias conveniências”


Assim, a distribuição da população autóctone está estreitamente relacionada com o meio físico, em particular com a pluviosidade, enquanto que a população europeia se distribui pelo território em estreita relação “com os investimentos, e acompanha principalmente duas formas particulares de investimento: portos e caminhos de ferro”.

Não é, pois, de estranhar que em meados do Século XX, a maioria da população autóctone não tivesse contacto estreito com o colono e que a civilização europeia pouco influenciasse o seu modo de viver.

O estudo acima referido esclarece-nos, por outro lado, por que é que a mão de obra nem sempre estava onde o colono precisava, tendo este que recorrer a contratados (pouco mais livres que os antigos escravos) angariados em paragens por vezes muito distantes. O caso dos contratados bailundos, do centro de Angola, para as roças de café centenas de quilómetros ao norte é disto um exemplo paradigmático, como o é o dos contratados bakongos exportados para S. Tomé.

A contratação de mão de obra para roças distantes, donde o regresso era duvidoso (em particular no caso de S. Tomé, com o oceano pelo meio) esteve na origem de pelo menos duas revoltas de grande amplitude. Em 1902 Mutu ya Kevela liderou os Bailundos numa insurreição que se estendeu a todo o planalto central e só foi dominada por uma força expedicionária comandada por Cabral Moncada, no ano seguinte.

Em 1913 coube a vez a Tulante Buta, no Congo (parte angolana), de se revoltar contra o poder colonial, num movimento que só em 1917 foi considerado dominado. A contratação de mão de obra para S. Tomé cessou completamente, e só viria a ser retomada em pleno Estado Novo.


sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 18 Epílogo


Poucas semanas antes da nossa partida de Luanda, a cidade transformara-se num campo de batalha, com os três movimentos a degladiarem-se pelo controlo da Capital. O MPLA saíu vencedor nesta fase, graças às milícias populares que compensaram a debilidade do aparelho militar do movimento.

A Unita e, principalmente, a FNLA não se atreveram a armar a população, com receio de ficarem sem as armas e continuarem sem população a apoiá-las. A luta, que ficou conhecida como o período das “confrontações” durou poucas semanas, com o reduto da FNLA na Avenida Brasil a ser alvo de pesados bombardeamentos.

À noite ficávamos a jogar às cartas ou poker de dados e a ver o espectáculo das tracejantes riscando o céu e ouvindo o tiroteio e as morteiradas ao longe. A tropa portuguesa ainda controlava a cidade do asfalto, de modo que o perigo para nós não era grande.

O que se seguiria meses depois foi outra história: a dupla invasão de Angola com a FNLA e a tropa zairense a avançarem pelo norte rumo a Luanda, e a Unita e FNLA a darem cobertura à entrada da tropa sul africana pelo Sul (isto com o Alto Comissário Português em funções e o Tenente Coronel/Brigadeiro/Páraquedista Heitor de Almendra , à direita, ainda em Luanda, observando impávidos e serenos).

Seguiu-se a saída pela porta do cavalo do Almirante Cardoso, arreada à pressa a bandeira das quinas, a proclamação da República Popular de Angola tendo como ruído de fundo os rebentamentos da artilharia zairense trazida pela FNLA até às portas de Quifangondo.

Mais a sul, a força expedicionária da África do Sul destinada a evitar um governo comunista e não branco em Luanda, depois de um avanço quase sem resistência era finalmente detida às margens do Queve pela tropa cubana (o MPLA também chamou os seus amigos, como seria de esperar…)

Nesse tempo a África do Sul era governada por um poder branco que considerava os pretos uma raça inferior, mantinha-os fora das zonas dos brancos onde só podiam entrar em certas condições, com uma espécie de passaporte interno, que lhes podia ser retirado em qualquer altura. (Na foto ao lado, um dos Bothas, o Roelof "Pik" - não será Pig?...)

O preto sul africano, para além de semi escravo do branco (neste ponto não é prudente atirar pedras aos carcamanos do sul...), tornara-se estrangeiro na sua própria terra com a criação dos famigerados Bantustões.

Os cubanos vieram em auxílio do MPLA e pela primeira vez o exército sul africano foi derrotado. A África do Sul retirou mas manteve, durante anos, um certo controlo sobre parte do sul de Angola (alegando a protecção da barragem de Calueque), fazendo raides com os seus Camberra e Mirage e com o batalhão “Búfalo” quando o achavam conveniente. Alguns desses raids redundaram em grandes matanças, quer de angolanos, quer de malta da Swapo que lutava pela independência do Sudoeste Africano (Namíbia, depois da independência).

O apoio à Unita só foi cortado quando a maioria negra ascendeu ao poder em Pretória modificando, como seria de prever, a sua política externa, nomeadamente no tocante a alianças.

Talvez seja sintomático (pelos menos dá que pensar) que os principais aliados da UNITA e da FNLA tenham sido precisamente regimes dos que mais espezinharam a sua própria população.

O Zaire onde uma legião de chefes e capatazes enriqueceu à custa do trabalho de um povo miserável, mantendo no poder durante décadas um dos déspotas mais corruptos do século XX (não se trata de uma figura de retórica), que soube favorecer as multinacionais e convencer sete presidentes americanos[1] de que sob a sua batuta todos tinham a ganhar. Excepto, claro, os zairenses…

Na República Sul Africana, alaparam três milhões de brancos e, como bons cristãos, trouxeram a civilização e a cruz: a civilização para o preto ver (do outro lado da rede) como o branco lhe era superior, a cruz para imitar Cristo, deixando-se imolar sem um queixume, ganhando o céu sofrendo na Terra.

Era com gente desta que o Estado Novo se dava. Foi com gente desta que os Estados Unidos se deram (e se dão). A UNITA não podia ter estado melhor acompanhada!

Com o 25 de Abril, um aspecto essencial das relações entre pretos e brancos foi alterado: os brancos que quiseram ficar nas ex-colónias não mais beneficiaram do ascendente sobre o preto, que as leis consentiam e em que a administração colonial assentava. Isso não basta, contudo, para as pessoas se sentirem iguais e, eventualmente, solidárias.

Em Portugal como nas ex-colónias, um longo caminho há ainda a percorrer antes que um branco olhe para um preto da mesma forma que olha para outro branco (no primeiro caso, vemos um preto; no segundo vemos uma pessoa loira ou morena, alta ou baixa, gorda ou magra…).

A identificação que se fez durante séculos de branco=civilizado=superior e preto=atrasado=inferior poderá esbater-se nas áreas em que as oportunidades de instrução, acesso à cultura e promoção social possibilitem o desenvolvimento equilibrado e a integração.

E nas outras, como será?

O que se passa actualmente em Portugal, é que grande número de pretos (cidadãos das ex colónias ou portugueses) têm graus de instrução muito baixos, trabalham em actividades mal remuneradas, vivem em ghettos, os seus filhos frequentam a escola com pouco sucesso. Muitos não imigrantes ilegais, pelo que estão ainda mais à mercê do empregador ou do agente.

A assimetria agudiza-se em vez de se atenuar.

Será que não há volta a dar-lhe?

Penso que há e que uma resposta possível é a instrução, mas que só funciona a longo prazo. Infelizmente a instrução é operada por um Mega-ministério, uma máquina quase ingovernável, donde têm saído sucessivas reformas tão inúteis quanto rebuscadas. Daí não devemos esperar soluções.

No entanto, a escola que existe serve, como serviria qualquer outra, uma melhor, outra menos boa, outra pior. O fundamental, o que permitiria quebrar o circulo vicioso da exclusão, é que os estudantes pobres (pretos ou não) compreendessem que

o sucesso escolar é condição indispensável[2] para melhorar de vida.

O estudo é quase a única actividade em que se podem obter resultados razoáveis sem ser rico, sem ter um padrinho, sem pertencer a um grupo influente, sem ter um dom. Não conheço outra actividade em que o filho do milionário e filho do serralheiro se sentam em mesas lado a lado com uma prova igual para cada um resolver, e a nota atribuída tem que ver apenas (normalmente) com o que cada um escreveu.

É claro que o rico pode ir para uma escola melhor, e, terminados os estudos, ter à sua espera um emprego à medida da sua condição. Mas, depois de satisfeitas as cunhas e os boys, as restantes colocações serão distribuídas pelos mais brilhantes, pelos mais capazes. O ghetto vai ficando mais longe para os que quiseram aproveitar.

Como os hábitos de trabalho não abundam, e o culto do estudo não é bem visto pela malta, muita gente aposta precisamente no dom, nas belas artes, na música, no desporto.

Esta atitude é quase o mesmo que sentar-se à sombra da bananeira à espera de ganhar o totoloto ou a lotaria. O tempo passa, as oportunidades também, quando se percebe que se devia ter aproveitado a escola, já é tarde (ou muito complicado) para regressar…

No entanto, a escola está ao dispor de todos, e há até quem aproveite: não é por acaso que muitas vezes os melhores alunos (nos States, mas também em Portugal) são indianos, coreanos, chineses.

A raça não tem nada que ver com o assunto, trata-se apenas de trabalho, entreajuda, e convicção de que o sucesso escolar compensa. Uma certa cultura de emigrante leva esses grupos a desenvolverem em alto grau um verdadeiro culto pelo estudo. Os resultados falam por si.

Voltando atrás, quando os portugueses chegaram ao Congo, Mombaça e à Índia tratavam os chefes locais sem qualquer postura de superioridade. Negociavam e trocavam presentes, tentando obter as suas boas graças para conseguirem informações, guias (ou pilotos) salvo condutos para atravessarem os reinos.

(Na foto, um grupo de indígenas a caminho da civilização: se a montanha não vai a Maomé...)

Terá sido a dominação e o consequente fosso criado e progressivamente aprofundado entre colonizados e colonizadores que fez nascer e consolidar a ideia de que um era superior ao outro, na civilização e na religião.

Essa superioridade legitimou a dominação (íamos levar ao gentio a fé verdadeira e a civilização) mas tornou-se rapidamente em racismo, dada a diferente coloração da pele dos civilizadores e dos putativos civilizandos. Culminou na “brilhante” teoria do General Kaulza de que a inteligência se concentrava no hemisfério norte e aumentava com a latitude[3], ou seja, os brancos são mais inteligentes do que os pretos.

É habitual ouvirmos as tais pessoas bem formadas que referi afirmarem convictamente que os portugueses (e os restantes colonizadores) levaram a civilização aos povos colonizados que, não obstante terem servido os interesses dos europeus, receberam as sementes e os benefícios da civilização ocidental. Se não tivessem sido colonizados, estariam num estágio civilizacional (o que quer que isso seja) mais atrasado do que estão hoje.

É claro que não se pode demonstrar o que aconteceria hoje, se há dois ou três séculos a história tivesse inflectido por um caminho diferente. Podemos conjecturar, e pouco mais.

No entanto, podemos tentar perceber por que é que o Japão que nunca foi colonizado por europeus, nunca foi, portanto, civilizado por eles, emergiu do século XIX como uma potência industrial ao nível das potências europeias, muito acima da China e da Índia, que beneficiaram do contacto secular com a civilização ocidental. A meio do século XX o Japão iniciou uma guerra com o colosso americano que ameaçava a sua hegemonia como potência regional. Perdeu a guerra, mas vinte anos depois estava mais forte que nunca na ciência, nas tecnologias de ponta, na economia, na indústria, enquanto a Índia e a China lutavam por manter vivos (e cordatos) os seus milhões de esfomeados e liderar o terceiro mundo (que a mais não podiam aspirar).

Parece, pois, que a superioridade branca sobre as raças "inferiores" é um mito que engordou durante os séculos de colonialismo, em que quase tudo o que se fez pelos colonizados foi mantê-los cada vez mais ... inferiores.

Parece que vai sendo tempo de corrigir o mal que se fez, e um bom começo é reconhecer isso mesmo.

Disse.

. . . . .

NOTAS:

[1] Não é muito difícil: os Camones nunca pareceram considerar o hemisfério sul como terra de gente. Sempre preferiram e continuam a preferir ditaduras sanguinárias como a do Marechal Mobutu Sesse Seko Kuku N’Gbendo Vazza Banga (veja-o em Mobutu, King of Zaïre) a regimes de esquerda, mesmo que nada sanguinários, com governos legitimados por eleições e com relações com a maioria dos países ocidentais, e relações comerciais intensas com as grandes empresas americanas

[2] Não quero, naturalmente, menosprezar a herança de um tio no Brasil há muito esquecido e que morreu virgem, nem o empresário de sucesso que não sabe ler de carreirinha mas é um génio com os números, e muito menos um escroque de sucesso que chegou a capo da mafia. Falo de pessoas que querem fazer algo por si próprias sem ficarem à espera da Divina Providência nem da Santa Lotaria.

[3] Esta teoria foi desenvolvida pelo general ainda na meia idade; não estava senil e parecia acreditar no que dizia!!!

quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 17 Catete

O Batalhão sediado em Catete tinha como missão guardar o acesso a Luanda por leste, a chamada estrada de Catete, que conduzia ao Zenza do Itombe, ao Dondo, N’Dalatando e daí para Malange. As companhias estavam distribuidas por povoações ao longo da estrada, na Barraca e Calomboloca, ficando a terceira e a CCS na sede do Batalhão. (Na foto ao lado, o Filipe na Rainha da Estrada)

É claro que com o fim da guerra (da nossa guerra, entenda-se) a nossa missão era qualquer coisa tão vaga como aguentar até regressarmos a Portugal e entretanto “evitar que a pretalhada se pegue à porrada”, como muito bem me explicou um alto graduado do MFA.

Efectivamente a fase das flores e dos comícios pouco durou, as patrulhas conjuntas em Luanda para evitar confrontos nos muceques não tinham grande sucesso e, acima de tudo, era claro que todos os movimentos estavam a armar-se apressadamente não deixando dúvidas de que a supremacia seria resolvida pela lei do mais forte e nunca por eleições.

Em Catete havia um quartel do MPLA (largamente maioritário na zona, ou não fosse o Agostinho Neto daquela região) que devia ser muito importante porque um dos comissários principais, o Bakaloff[1], que eu conhecia de Quibaxe, aparecia por lá muito. Encontrei-o várias vezes, com ar de não estar apenas de visita, mas como se “lá morasse”.

A FNLA assentou arraiais quase em cima da estrada (o quartel do MPLA ficava um pouco mais longe, para lá do nosso) e, como era seu apanágio, tinha uma tropa bem fardada e armada, falando as suas linguas peculiares, o francês e o lingala, e não pescando peva de português.

Os atritos com a população simpatizante do MPLA (portadora de crachás, bandeiras, T-shirts, etc) eram frequentes e por vezes aconteciam com militares daquele movimento que passavam perto do quartel da FNLA ou à mão de semear de uma sua patrulha.

Nesses casos, quando culminavam com a prisão de um elemento do partido oposto (mais tarde o termo inimigo passaria a ser mais apropriado), lá tinhamos nós (quase sempre eu, dadas as funções político militares informais de que estava investido…) que ir falar com ambas as partes e resolver a questão de uma forma que permitisse a ambas salvar a face.

Escuso de dizer que treinei o meu francês como nunca, pois com a FNLA não tinha outro jeito. A fluência no francês[2] era, aliás, a minha “arma” nas negociações com a tropa da FNLA. (Na foto em cima, o Autor sempre em estreita ligação com as massas populares, em particular as mais jovens).

Com o MPLA tinha facilidade de diálogo, porque conhecia uma boa parte dos chefes da região (uns de Luanda, outros de Quibaxe) e alguns militantes. Com a FNLA não tinha nenhum ponto de contacto e eles não tinham um relacionamento fácil com brancos. Assim sendo, ficavam muito bem impressionados quando lhes aparecia um branco a falar fluentemente a língua deles, não num tom coloquial mas num linguajar pontuado de calão e de vícios de linguagem, intencionalmente “adquiridos”.

Uma tarde de sábado ou domingo, cheguei de Luanda[3] e encontrei a messe de oficiais em polvorosa: a FNLA tinha prendido um militante do MPLA que tinha uma pistola, gerou-se a confusão, o MPLA queria ir lá libertar o preso e a FNLA, pelo sim, pelo não, montou um dispositivo de segurança avançado quase à porta do quartel do MPLA.

A situação estava explosiva, de modo que nem tive tempo para me fardar. Passei da mota para um jipe, e avançámos pelo meio do capim para a zona onde estaria a tropa da FNLA. Eu ia de pé ao lado do condutor, agitando um braço (o outro agarrava o pára brisas, se não caía) gritando parvamente qualquer coisa como “Atenção, sou um oficial do MFA, não atirem”.

Para completar o quadro, estava a escurecer e eu estava com um lenço esvoaçante ao pescoço, tal como chegara de Luanda. De repente, levantou-se do meio do capim uma horda que cercou o jipe e me cercou, de armas apontadas, depois de eu ter descido do dito.

Ainda me gritaram aos ouvidos e me encostaram um cano de arma à barriga, mas aí o verbo (em francês) operou maravilhas e pouco depois o tipo do MPLA estava solto (sem arma). Ficou combinado que no dia seguinte iríamos todos a Luanda, ao Quartel General, (eu e representantes da FNLA e do MPLA) para fazermos um relatório à Comissão Conjunta, onde os três movimentos e o exército português estavam representados, para resolverem questões como a que descrevi.

Nunca participei em nenhuma das patrulhas conjuntas[4] que percorriam a cidade e parte dos muceques, mas essa era uma das principais missões que as NT tinham nesse tempo. Um belo dia, uma das patrulhas conjuntas prendeu um perigoso agitador (à direita, já sem o jimmy) que procurava mobilizar as massas no muceque Prenda, contra as armadilhas do neocolonialismo (se não foi este o objectivo da agit prop, terá sido outro equivalente...)

Chamado à casa de reclusão, encontrei o meu amigo Zé Carlos Tiago que tinha ido para Angola em alta missão de solidariedade para com as massas populares, a título (tanto quanto me apercebi) estritamente individual. Abancou por uns tempos em casa dos meus futuros (e actuais…) sogros como eu próprio fazia quando estava em Luanda, e mergulhou na revolução.

Só que as coisas em Angola eram um bocado a sério (ou a guerra não levasse já catorze anos de tiros e mortos de parte a parte) e não se percebia bem que um branco desconhecido, não integrado em nenhum dos movimentos encartados, com um jimmy[5] enorme, sebento e com ar meio amalucado andasse pelo muceque a dar uma de salvador do povão.
O Zé Carlos era o Presidente do PIM - Partido Internacionalista Monárquico (não confundir com o PIM, com uma bomba sobre o I, do renegado João Paulo, figura mítica que nunca cheguei a conhecer).

Convidou-me para o partido, e estive tentado a aceitar, já que as condições eram aliciantes: como único militante teria a primazia para um lugar no governo, caso o PIM ganhasse as eleições (ou conquistasse o poder por outros meios). O partido dissolveu-se, entretanto, pelo que não cheguei a aderir.

Voltando ao incidente, parece que foram os próprios putos a quem se dirigia a arenga que chamaram as Forças Integradas (creio que era este o nome das tais patrulhas conjuntas). O Zé Carlos ficou incomunicável na casa de reclusão (mas consegui vê-lo e falar-lhe ao contrário do que sucedera quando tentei visitar o meu colega Guimarães-qualquer-coisa do MRPP).

Finalmente foi solto (saíu com uma monumental carecada), eu registei convenientemente a ocasião (ou voltámos lá para a fotografia, em cima e à direita, como fazem os profissionais, o que vem a dar no mesmo). Uns tempos depois, ei-lo de regresso à mãe pátria onde a situação estava a tornar-se cada vez mais interessante para um cientista da revolução.

Por volta de meados de Abril de 1975 o meu Batalhão regressou a Portugal. Acontece que eu me sentia muito bem em Luanda, a situação estava a ficar muito movimentada, com partidos e movimentos cívicos para todos os gostos e feitios, a Universidade fervilhava de reuniões e comícios, nem sempre com o controlo do MPLA.

Como seria de esperar, os estudantes eram de esquerda, pois de esquerda eram os ideais de descolonização, independência, recusa de um qualquer neocolonialismo.

Não estaria longe da verdade dizer que o MPLA, com ideias que faziam sentido, com pessoas (militantes e simpatizantes) capazes de alinhar duas frases com forma e conteudo, a falar ou a escrever, com hábitos de vida de cidade (culturalmente próximos dos portugueses), era, de longe, o partido que mais expressão tinha nas cidades.

É interessante referir que nunca consegui encontar um livro, uma pequena brochura que fosse, um caderno … qualquer coisa com escritos do Savimbi ou de outro dirigente da Unita. Da FNLA também não. Não me pareceu interessante comprar o livro da Dra Fátima Roque, publicado depois de deixar a Unita[6]. Não a vejo como dirigente do Galo Negro, vejo-a mais como uma pessoa que lhe cedeu “sa croupe populaire” numa altura em que a Unita precisava desesperadamente de mostrar gente credível (ia a votos e não a tiros…). A senhora ficou rapidamente deslocada quando as eleições foram perdidas e o Muata não se conformou com a derrota.

Estou, contudo, interessado em ler o livro que saíu há pouco escrito por um antigo ministro de um país da África ocidental, baseado em entrevistas dadas por Savimbi.

Voltando a Luanda, entre a estudantada havia gente que não ia em revisionismos e que se opunha, pela esquerda, à hegemonia do MPLA. Entre os movimentos mais activos estavam os CACs, Comités Amilcar Cabral, e de um incipiente Partido Comunista Angolano.

Depois da independência alguns dos activistas passaram largo tempo[7] na prisão, após o que foram soltos e se integraram facilmente (pelo menos a dúzia que eu conheci) na sociedade, sem chatices de ordem profissional, se bem que se mantivessem à margem do MPLA.

Depois do meu Batalhão regressar a Portugal, eu e o Filipe (que além de ser furriel no meu pelotão era escrivão dos autos[8], e um compincha) resolvemos ficar mais uns tempos em Luanda. Aleguei que os Autos de Corpo Delito que ainda não tinham sido julgados mereciam o nosso empenho, pelo que continuaríamos a fazer diligências para que não ficassem parados (e os arguidos, presos, muito tempo à espera do julgamento). O nosso Comandante (do Batalhão) concordou de pronto, e ficámos em Angola.

A intenção era louvável mas não era (claro!) inocente: tanto eu como o Filipe movimentávamo-nos muito bem na noite luandense (sem falar nas praias e cervejarias, durante o dia), de modo que a nossa permanência em Luanda juntava o útil ao agradável.

Até que um belo dia, durava esta situação uns belos dois meses, sou chamado de urgência à chefia do Serviço de Justiça. Um major tarimbeiro queria saber o que raio faziam em Luanda um alferes e um furriel cujo Batalhão já regressara a Portugal e que, ainda por cima, não estavam enquadrados em qualquer unidade militar (estávamos, pois, por nossa conta e risco e quase sem ter que dar satisfações a ninguém...). Bem lhe cantei o fado dos soldados presos e dos Autos pendentes, que de nada serviu.

Menos de uma semana depois estávamos, sem apelo nem agravo, no avião de regresso a Lisboa.
. . . . .
NOTAS:

[1] envolveu-se até ao pescoço no golpe sangrento do Nito Alves, tendo, por isso, perdido aquele peça da sua anatomia.

[2] o conhecimento de muitas canções de Georges Brassens, o meu cantor preferido desses tempos, ajudou muito neste capítulo; se quiser, recorde-o aqui.

[3] com Catete a dois passos de Luanda, estava todos os dias a chegar ou partir para a capital.

[4] com militares dos três movimentos e das NT

[5] cabeleira à Jimmy Hendrix

[6] A dita senhora seguiu a regra de ouro dos dissidentes da Unita: disside só quando estiveres bem longe do Muata e com a tua família em lugar seguro. É que ele aprecia pouco dissidências, discussões, ou simples divergências…

[7] conheci alguns que estiveram quase três anos dentro…

[8] era um escrivão sui generis: como eu escrevia melhor à máquina (ou ele não apreciava a arte…) era eu que escrevia tudo e assinávamos os dois, eu como oficial averiguante e ele como escrivão…

segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

ENTRECAPÍTULOS, À GUISA DE INTERVALO

Calma, a publicação do worst seller não vai ser interrompida.

OK? Coooool...

Simplesmente vou meter aqui, entre os capítulos 16 e 17, uma curiosidade que encontrei quando procurava um livrinho sobre "direitos da mulher", que não vejo há um monte de tempo.

O que encontrei foi o rasto dos ensaios que fiz antes de me fixar na no título e na capa do livreco que acabou por levar o título que deu o nome a este blog.

Aí vão dois ensaios que chegaram à fase de brochura artesanal:

o primeiro, à esquerda, levava o título "ÁFRICA - Angola e a Tropa da Outra Senhora" e a capa era ocupada pela reprodução de um quadro que pintei pouco depois do 25 de Abril. O título era um bocado rebuscado e comprido, e o quadro (enfim...) era metido um bocado a martelo para publicitar a minha veia artística (?!) daquele tempo. Foi, naturalmente, posto de parte.

O outro, à direita, era uma tentativa de poupar na cor da capa, metendo uma fotografia do edifício do porto de Luanda, tirada de uma publicação dos anos 60 da Direcção Provincial de Portos e Caminhos de Ferro (ou coisa que o valha).

O título continuava a privilegiar ÁFRICA em detrimento de Angola, que figurava no sub título: "gentes de Angola e outras..." e acabou por não vingar.

Já com o livro na tipografia, ali ao lado da Sopa dos Pobres, na Almirante Reis, a capa e o título tiveram que ser definidos à pressão e ficaram como se vê no cabeçalho do blog.

Curiosamente, a contracapa estabilizou quase desde o início dos ensaios, que as fotos escolhidas, quer o parlapió escolhido.

Clique para ampliar e ler:

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 16 A Honra dos Vencidos

Na madrugada de 25 de Abril a coluna de Salgueiro Maia chegou a Lisboa e só no Terreiro do Paço encontrou uma força armada credível que lhe fez frente. Era comandada pelo Brigadeiro Junqueira dos Reis que, à frente de uma tropa de amadores, tentou obstar ao avanço do que parecia ser uma coluna isolada, sem mais apoios no resto do país, pelo menos que se tivessem manifestado até àquela hora.

Numa altura em que ministros choravam pelos cantos (a começar pelo titular do Exército, um General de 4 estrelas...[1]) e generais tentavam, desnorteados, perceber o que se passava, a pequena força da EPC acabou por triunfar devido à total inépcia de quem, não obstante o aviso representado pelo avanço em falso das Caldas, no mês anterior, não soube seleccionar uma tropa de confiança (GNR, PSP, Comandos) para defender o coração do regime, deixando-o entregue a uma tropa de milicianos que se desmoronou (e se passou para o lado dos revoltosos) na iminência de um confronto real, mesmo sendo claro que estavam no lado da força maior no terreno.

Na fragata que se passeava Tejo abaixo, Tejo acima [2], os tripulantes limitaram-se, aparentemente, a esperar o desfecho da situação em terra: não dispararam, é certo, sobre os revoltosos, contrariando as ordens recebidas, mas também só prenderam o Comandante do navio e aderiram à revolta quando esta triunfou em terra. (*)

Por muito que o considere “do lado errado desta história”, por muito que a sua acção seja ridicularizada (e exagerada...) nos filmes recentes sobre o 25 de Abril, a verdade é que o Brigadeiro Junqueira dos Reis foi o único oficial general que honrou as suas estrelas e os compromissos assumidos como oficial e como 2º Cmdt do Governo Militar de Lisboa. Esses compromissos tinham sido reafirmados semanas antes perante Marcelo Caetano, na tristemente célebre cerimónia do beija mão da “Brigada do Reumático”.

Muitos dos que meteram o rabo entre as pernas no 25 de Abril aparecem anos depois a tecer elogios ao anterior regime e em particular à sua política ultramarina, denegrindo o regime pós 25 de Abril. Percebe-se mal onde estavam naquela data e por que não se opuseram de armas na mão ao golpe que privou a Pátria dos territórios ultramarinos que, no seu entender, eram parcelas portuguesíssimas cujas populações mais não queriam que viver e morrer à sombra da bandeira das quinas. O sr General Kaúlza de Arriaga, tão disponível para mobilizar a Força Aérea contra Botelho Moniz, em 1961, deve ter estado muito distraído em 25 de Abril de 1974...

Resta dizer que também Marcelo Caetano se soube portar com honra e dignidade na derrota, não se deixando abandalhar rendendo-se ao primeiro capitão que lhe enviaram, aceitando fazê-lo apenas ao general Spínola, para o “Poder não cair na rua”.

Tal atitude, infelizmente, terá sido interpretada à letra por Spínola que assim se terá sentido legitimado como depositário do Poder, ainda que recebido de um chefe vencido (o que não deixa de ser caricato).

Nunca tendo sido mais do que o lider de um pequeno grupo de oficias (a guarda pretoriana dos tempos da Guiné), o General passou a querer mandar em toda a gente e no próprio MFA e procurou, durante a sua meteórica passagem por Belém, desenvolver uma política pessoal independente da do MFA (e até contrária a ela) em relação muita coisa, com destaque para o futuro de Angola.

Mais uma vez, isso são outros contos que não são para aqui chamados...

. . . . . .

NOTAS:

[1] Andrade e Silva. Na foto ao lado, era ele vice CEME - Chefe do Estado Maior do Exército, (passaria a CEME pouco depois) tendo sido antes comandante da Academia Militar. Na foto estou eu, de óculos de aros pretos, à direita da excelência, e o famoso oficial dos comandos, Chung su Sing, à esquerda. (Clique na imagem para ampliar e ver melhor)
[2] O papel desempenhado pela fragata Gago Coutinho tem sido motivo de muita controvérsia: por que não disparou a fragata sobre os revoltosos, dando-se como certo que o Comandante era da velha guarda, eventualmente conotado com o regime? Qual a acção (se alguma) do Imediato, com metade da idade do Comandante, eventualmente ligado ao MFA? Houve insubordinação? ...?
A seguir ao 25 de Abril houve um inquérito que, tanto quanto apurei, não deu em nada. Mas os autos de declarações existem e podem ser consultados.
Em 2000 o Imediato de antanho, Caldeira Santos, produziu um depoimento que está depositado no Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, e que foi contestado de forma veemente e muito bem documentada pelo comandante Louçã, que tentou demonstrar (nas suas palavras) que Caldeira Santos mentiu, inventou, fantasiou, etc, contradizendo no depoimento de 2000 afirmações feitas no inquérito de 1974.
Onde estará a verdade?
Tendo em conta o rol extenso de depoimentos em que se apoia o comandante, contra a falta de referências no texto do seu imediato, parece mais provável que ela esteja com o depoimento do Comandante Louçã .
De qualquer modo, leiam e formem opinião. Leiam também sobre o assunto no blog da Ana Marta .
(*) O comandante não foi preso, esta ideia, de que aqui fiz eco, não está correta. Muito do que se disse e se ouviu sobre o assunto naqueles tempos de muito boaro e pouca investigação continua hoje a ter os seus seguidores (houve ou não houve insubordinação a bordo? o imediatou foi ou não demitido? o imediato informou ou não o comandante sobre o papel que o MFA reservou à fragata? etc, etc). Parece, contudo, ter ficado claro que o comandante não foi preso pela tripulação e saíu pelo seu pé quando a fragata acostou ao Alfeite.

sábado, 17 de Janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 15 O Pós 25 de Abril


Um belo dia, o Helder Gaspar, funcionário dos correios, cujas instalações ficavam ao lado do quartel, veio informar-nos, todo excitado, que se tinha passado qualquer coisa em Portugal, não se sabia ainda ao certo o quê, mas parecia um golpe de Estado. Especulámos imenso sobre se seria do Spinola (eu tinha recebido o “Portugal e o Futuro” poucos dias depois de ter saído em Lisboa), se teria sido dos Ultras, receosos estes últimos com os progressos do reviralho e a inoperância de Marcelo Caetano.

Quando a Junta de Salvação foi anunciada, pareceu claro que o Spinola estaria por detrás do golpe, mas afinal não foi bem assim. Em Angola, tudo se manteve na mesma por uns tempos (até o Santos e Castro, Governador Geral e antigo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa se manteve em funções por uns dias) e, com a nomeação de Silvino Silvério Marques para Governador Geral, cargo que já desempenhara nos anos 60, ficou claríssimo que a conversa da autodeterminação e da descolonização não era para aplicar a Angola.

A ideia de Spinola de que a descolonização em Angola era um assunto seu terá atrasado a definição da situação no território, parecendo que nada se teria passado na Metrópole que afectasse Angola.

Isso mesmo disse-o eu numa carta publicada no jornal A Província de Angola (tive a lata de assinar com “Alferes Miliciano” antes do nome), o que me valeu ser recambiado para Quibaxe em dois tempos. (O Autor, na foto ao lado, em que se nota a preocupação com a imagem, na personalização do uniforme)

Estava então no Hospital Militar em Luanda com um problema neurológico complicado que consistia em descair para a esquerda[1] quando fechava os olhos e caminhava ao longo de uma linha recta. Por isso, estava internado na neurologia, donde me era muito fácil sair ao entardecer e voltar ao Hospital às tantas da noite. Era uma situação óptima para acompanhar (e participar, na medida do possível) o ambiente fervilhante que se seguiu ao 25 de Abril na sociedade luandense e, em particular, na Universidade.

O ambiente no Batalhão começou a degradar-se depois do 25 de Abril, com problemas constantes com a tropa de recompletamento local (pretos, como referi atrás) cada vez mais inquietos com a sua situação e ansiosos por irem para casa.

Os brancos não estavam menos desejosos de regressarem à santa terrinha e não percebiam muito bem a discrepância cada vez mais palpável entre o que liam no Expresso (para só citar o jornal de Portugal que maior audiência tinha entre nós) e o facto de continuarmos “no terreno”, tecnicamente em guerra, a fazer não se sabia bem o quê.

Entretanto fez-se o cessar fogo com os Movimentos de Libertação e, quase de imediato, começaram os comícios. O MPLA, como era de esperar (do que atrás ficou dito) sugiu com grande implantação na região (e em toda a Angola, em especial nas cidades), mas a conversa esquerdista do Nito Alves (figura de maior destaque na 1ª Região Político Militar; não era nem o Comandante, nem o Comisário Político, mas era, de longe, o que melhor falava...) inquietou desde logo os comerciantes e fazendeiros.

Nesses tempos a posição dominante no MPLA (e entre a malta de esquerda em Portugal…) era de que os comerciantes eram uma espécie de ladrões (não por roubarem propriamente, mas por comprarem por x e venderem por y com y>x) e os fazendeiros não o eram menos porque exploravam o campesinato e, ao que parece, também uns tantos proletas que por lá andariam metidos[2].

É claro que perante estas posições primárias, os brancos abraçaram a Unita e a FNLA que fizeram a sua aparição pouco depois do cessar fogo. A FNLA chegou em camiões com o pessoal fardado, com vistosos capacetes, a falar francês e lingala. Instalou-se numa casa-quartel e passou a vender a sua banha da cobra em reuniões pouco frequentadas pela população.

O Administrador passou a apresentar-se como Comissário Político da FNLA, dando-se uns ares de importância que só visto. Encontrei-o um ano depois em Lisboa, um retornado como os outros. Se bem que detestasse o personagem, fez-me pena pelo abismo que existia entre o retornado de olhar perdido e o ar arrogante e impante do administrador-comissário-político de outros tempos, Homem Grande de uma vilória perdida no cu do mundo.

A UNITA chegou discretamente, instalou-se também numa casa-quartel donde os seus militares saíam de madrugada, em tronco nú, fazendo exercícios ao longo da rua principal da vilória, com grande cagarim de ordens gritadas e respostas em côro.

Os comícios da UNITA eram interessantes e com muita gente, graças ao Engº António N’Dembo, um dirigente filho da região, que falava tão bem como o Nito, mas numa linguagem muito mais livre de chavões políticos, muito mais terra a terra.

A minha coroa de glória no tempo que estive em Quibaxe foi conseguir um comício conjunto realizado no Piri em que falou o Nito (na foto ao lado, de gorro branco, a arengar às massas) e o Engº António N’Dembo (mais à esquerda na foto, a olhar para baixo).

A coisa começou como um comício da UNITA ao qual o meu pelotão montou segurança a fim de evitar confrontos. Estes eram previsíveis pois a sede do MPLA na região era a sanzala do Gulumane, a dois passos do Piri, e o comício podia ser considerado como uma provocação (termo mítico para a malta de esquerda e que exige uma tomada de posição firme, principalmente por quem diz não responder a provocações).

Pouco depois do início do comício, fomos cercados em silêncio por tropa do MPLA, de arma em riste (cano paralelo ao chão, apontado para nós). Não fizeram mais nada, limitaram-se a ficar com as armas apontadas, prontas para o que desse e viesse.

A minha malta começou a dar sinais de inquietação e nervosismo (“oh meu alferes, que merda é esta?!” dizia o Bairro Alto olhando de esguelha as Kalash apontadas às nossas costas), e o clima ficou de repente pouco menos que eléctrico. O meu pelotão era constituído por malta porreira (no sentido mais lato do termo), mas havia alguns mais instáveis que convinha não sujeitar por muito tempo àquela situação[3]. Havia, pois, que actuar depressa.

Felizmente, à frente da tropa do MPLA estava o próprio Comandante da Região, o Comandante de Coluna Kiluanji, que eu conhecia de várias reuniões em que tinhamos participado[4].
Falámos sobre a delicadeza da situação, ele mandou que os guerrilheiros que comandava segurassem as armas de maneira menos agressiva (cano apontado para cima). Quando o Nito chegou, sugeri que, como ambos os movimentos queriam esclarecer a população (pelo menos era o que diziam nas reuniões connosco e nos comunicados que publicavam), o ideal seria ambos os lideres falarem, em vez de se confrontarem.

O Nito, certo da sua eloquência e de estar “em casa”, acedeu de pronto, de modo que falei com o Engº N’Dembo (não o conhecia, nem voltei a falar com ele) que tambem aceitou a sugestão.

E assim, acabámos por ter uma confraternização entre todos (a tropa do MPLA e a nossa foram discretamente colocadas na periferia do recinto), para além dos lideres outros oradores disseram de sua justiça, eu tirei fotografias q.b. e fomos todos à vida que, entretanto, fizera-se tarde.

Por esta altura já se tinham passado alguns meses sobre o golpe militar[5] e a tropa angolana continuava paulatinamente ao serviço, se bem que se registassem algumas deserções um pouco por todo o território. Em Luanda os poucos oficiais angolanos faziam lobby junto das estruturas do MFA, com destaque para o alferes Carvalho (que viria a morrer num desastre de mota pouco tempo depois), para que os angolanos saíssem imediatamente do exército português.

Contudo, não havia qualquer decisão sobre o assunto. A situação de Angola era, aliás, de total indecisão, com o Spinola a reunir em Cabo Verde com o Mobuto (dizia-se que para tratar do problema angolano) e a defender soluções federativas e devaneios quejandos. Em Angola proliferavam movimentos e partidos os mais díspares, desde federalistas a outros de cariz tribal ou religioso. E o Silvino Sivério Marques pairava acima de tudo isto como no tempo do Angola é nossa [6], como se nada se tivesse passado em Portugal…

Desta confusão toda, a UNITA emergia como o partido dos brancos, o MPLA como o partido dos mulatos e dos comunistas e a FNLA como o partido dos pretos do norte (o que nunca deixou de ser até perder quase toda a influência, nos anos 90).

Um belo dia, ao chegar de Luanda[7], e fui confrontado com um problema danado: um soldado branco tinha morto a tiro um soldado preto, os colegas deste último tinham pegado em armas e só a muito custo o Filipe, furriel do meu pelotão, albicastrense de quatro costados, tinha conseguido mantê-los com o dedo longe do gatilho. Contudo, queriam a pele do matador e... ir para casa.

A história conta-se em duas palavras: o Júnior (era um preto fulo[8] alto e forte) andava na passa[9] e terá respondido torto ao comandante. O outro, que era básico[10] e também bem abonado de corpo, não gostou que o Júnior falasse assim com o seu querido comandante, que o tratava paternalmente, e a quem correspondia com uma dedicação canina. Travaram-se de razões, o básico foi buscar a canhota e matou o outro.

O Júnior antes de cair ainda gritou qualquer coisa como “Irmãos, a eles!”. Os irmãos barricaram-se na caserna e ainda fizeram uns tiritos que não magoaram ninguém, até que o Filipe foi falar com eles (como diria o Alberto João, tinha-os no sítio!). Deixou-os falar, desabafar e depois deu-lhes a volta: fez-lhes ver que a coisa fora entre um semi atrasado mental e um semi drogado, e nada tivera que ver com a raça de cada um, que íamos tentar resolver o problema deles, etc, etc.

Diga-se que o Filipe era uma pessoa que lhes inspirava confiança, pois não só não era racista como seria dos poucos graduados com consciência cívica (para não dizer política). Tratava os soldados com respeito e estava sempre disponível para falar com eles e transmitir-nos as suas queixas sobre condições de vida (habitabilidade da caserna, qualidade da alimentação, etc) como se fossem suas.

Em resumo quando eu cheguei a Quibaxe já o trabalho principal estava feito e limitei-me a aconselhar o Comandante a passar os soldados angolanos à peluda, que era a sua verdadeira reivindicação. Pelo sim, pelo não, o básico já tinha sido posto em lugar seguro. Estava refugiado, às escondidas, na casa do sr Antunes, chefe local da PIDE[11], donde foi mais tarde transferido para Luanda.

Resolvido o problema, segui para N’Dalatando e daí para Luanda, acompanhado do meu colega Graça Martins (delegado do MFA no comando de Sector, uma espécie de meu superior nesta hierarquia paralela), para explicarmos os motivos que nos levaram a passar os nossos soldados angolanos à disponibilidade, antecipando a decisão que Luanda tardava a tomar.

Voltando à Excelência que habitava a Administração do Concelho, o tipo ficou um tanto passado com as novas funções que acumulava. Pretendeu mesmo fazer uma espécie de julgamento popular a um soldado nosso (como lhe cortámos cerce as vazas nunca percebi o que ele, ou quem eventualmente o “picava”, pretendia).

Tratava-se de um condutor que ao manobrar a Berliet para acostar aos armazéns do já referido PINT, foi rodeado pela população que tentava “desenrascar” umas latas, uma garrafas, umas caixas do que quer que fosse. Como os tempos eram de bandalheira, a operação decorreu no meio de gritos, correrias e buzinadelas. No meio da confusão, ficou um infeliz esmagado entre o camião e o cais.

O procedimento normal era um processo crime (auto de corpo delito, para ser mais preciso) que correria dentro dos tribunais militares. Só que o nosso amigo Administrador-comissário resolveu, como autoridade máxima em Quibaxe[12], que o assassino de um elemento do povo tinha que ser julgado em Quibaxe, para o que tinha até aberto o competente processo.

Não vou entrar em detalhes, mas uma conversinha na Administração, em português muito claro e vernáculo, foi suficiente para resolver o problema que não voltou sequer a ser aflorado.

O nosso tempo em Quibaxe estava a acabar, pois devíamos rodar para Catete, a dois passos de Luanda, sendo rendidos por um Batalhão de açoreanos. Estivemos quase um mês em sobreposição, mas não me lembro dos comandantes do Batalhão nem das companhias.

Só me lembro que era uma malta totalmente indisciplinada, que constituiu a primeira amostra do que viria encontar em Portugal, com unidades em autogestão, assembleias de unidade para decidir tudo e nada, assembleias para votar os célebres “documentos” dos 9, do Copcon etc, etc.

Do batalhão de açoreanos lembro-me de um alferes, Guimarães qualquer coisa, do MRPP (meu colega, portanto…) que acabou preso na casa de reclusão em Luanda. Não o consegui visitar, não obstante conhecer meio mundo em Luanda. Os PCs, que já então estavam em ascenção no seio do MFA, consideravam os MRs pessoas perigosíssimas, com as quais não se podia afrouxar a vigilância!

Resta acrescentar que saí de Quibaxe cavalgando uma mota, uma Jawa 175 que comprei a um colega de fados e guitarradas (sargento do PAD). A ideia era simples: como Catete fica a escassos 70 quilómetros de Luanda, a que me prendiam amizades e actividades várias, precisava de um meio de transporte que me levasse à capital ao fim da tarde (depois da guerra fechar) e de lá me trouxesse às tantas da matina.

A mota, que recebeu o nome foleiro de “Rainha da estrada”, cumpriu sempre bem a sua missão até falecer por falta de peças, já depois da independência, nas mãos de um afilhado da minha sogra a quem dei de presente quando regressei a Portugal.
. . . . .


NOTAS:

[1] Estou ainda na dúvida se não teria sido mais conveniente descair para a direita...


[2] o leitor não deverá imputar estas tiradas ideológicas às posições políticas de quem as escreve, mas apenas à necessidade de ilustrar melhor o que se ouvia aos revolucionários emergentes naqueles tempos

[3] o Bairro Alto, um cabo gingão e desenrascado, era um deles...

[4] faltou-me dizer que, durante uma das minhas estadas em Luanda, fora eleito à revelia representante da tropa, uma espécie de delegado do Batalhão junto das estruturas do MFA. Nessa condição tomava parte nas reuniões com os movimentos, ia a Carmona (sede da Zona Militar Norte) e a Luanda a algumas reuniões do MFA. Tive oportunidade de participar na reunião da CCPA (Comissão Coordenadora do Programa em Angola) em que foi decidida a atitude de “neutralidade activa” face aos movimentos (entenda-se apoio às forças progressistas, leia-se ao MPLA...)

[5] de 25 de Abril de 1974, qual havia de ser?

[6] Silvério Marques, então tenente Coronel, fora Governador Geral nos anos 60;

[7] a partir de certa altura eu estava sempre a chegar de ou a partir para Luanda (ou N’Dalatando, ou, menos vezes, Carmona), com as baldas do MFA a que se juntavam o “desvio para a esquerda” (que continuava a baralhar os neurologistas) e os estágios do serviço de Justiça (de que eu era, como já disse atrás, o guardião máximo no batalhão).

[8] claro, quase mulato. No início até pensava que ele era cabo verdiano.

[9] fumava liamba, puxava o boi, entendem?

[10] soldado com uma pequena deficiência de cabeça, que em tempos mais pacíficos ficaria livre da tropa mas que, em tempo de guerra, era incorporado para trabalhos auxiliares. Se os básicos fossem dispensados de ir à guerra, imaginem a quantidade de malucos em maior ou menor grau que surgiriam...
[11] as coisas pouco tinham mudado por estes lados, e essa instituição continuava a funcionar em Angola contra ventos e marés...

[12] na verdade, ele era apenas a autoridade máxima da administração civil, nada “riscando” no foro militar. Mas como comissário, voltou à carga até à conversinha referida no parágrafo seguinte…

quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

ANGOLA Recordações da Tropa - Cap 14 Quibaxe



Faço agora um salto de vários anos, durante os quais vivi em Lisboa, acabei o Liceu, entrei para a Academia Militar (foto ao lado, no 1º dia, com 17 aninhos...) e saí dela no penúltimo ano.

Fui rapidamente mobilizado e quase não tive tempo para acabar o Técnico[1] (fiz as últimas cadeiras já em Mafra[2]).

Seguiram-se passagens, nem sempre rápidas, por quartéis em Penafiel, Bragança, Vila Nova de Gaia e Santa Margarida, até que embarquei para Angola integrado num Batalhão de Artilharia, o 6222/73, em missão de soberania[3].

O Batalhão sofreu a primeira baixa em Santa Margarida: o nosso capitão (comandante da minha companhia) foi apanhado a sair do quartel com uma mala atulhada de bacalhau e latas de azeite, de modo que foi discretamente afastado. Encontrei-o, meses depois, em Luanda, mas não tive lata de lhe perguntar como é que se safara do imbróglio...

Fomos de avião, a Força Aérea tinha nesse tempo dois Boeing 707 que se revelavam muito mais adequados ao transporte da tropa (e mais económicos) do que os navios (em particular o Vera Cruz, que durante muitos anos transportou militares de e para África). A rapidez do transporte era muito importante, pois evitava que os militares permanecessem sem fazer nada durante os dez ou quinze dias que o “cruzeiro” durava (caso se destinassem respectivamente a Angola ou a Moçambique).

Como a grande maioria ia de má vontade, e a popularidade da missão não era grande, essas viagens demoradas davam azo a todo o tipo de chatices, actos de indisciplina (até levantamentos de rancho, o grande papão dos militares do quadro) e, acima de tudo, à mais desenfreada boataria sobre a situação militar e as perspectivas (negras) da guerra na “província” de destino. O que não era nada bom para o moral das tropas…

De avião, era outra limpeza: o pessoal cantava umas cantigas, bebia uns copos, passava pelas brasas e … estava em Luanda.

Seguia-se um curto estágio no Grafanil (campo militar às portas de Luanda) para todo o batalhão se reunir, ser armado e equipado, acabando por seguir para a localidade de destino.

A minha unidade destinava-se a Quibaxe, em plena zona do café, nos Dembos, que não me era estranha (de nome…), pois o meu pai tinha lá estado cerca de um ano, precisamente no batalhão que íamos render.

A distância a Luanda era relativamente pequena, cerca de 200 Km sempre por estrada asfaltada, de modo que viagem foi relativamente rápida. Fomos integrados na coluna militar que diariamente ligava o Caxito (50 km a norte de Luanda) a Quibaxe (eventualmente teria ligação com outra coluna proveniente de localidades mais distantes), passando pelo Úcua e Piri.

Pelo caminho tivemos um sobressalto, quando se fez ouvir o estrondo de um rebentamento, mesmo junto à estrada. Todo o mundo saltou dos camiões, jipes, unimogs, etc, e, por estranho que pareça, não começámos aos tiros para os ramos com aspecto mais suspeito: portámo-nos na linhaça, deitados de ambos os lados da estrada, tensos e atentos. Quando alguém informou que se tratara do rebentamento de um pneu foi a descontracção total, e foi uma chatice para se conseguir que, pelo menos parte do pessoal, se mantivesse alerta, montando segurança enquanto se mudava a roda.

De resto, a viagem prosseguiu sem incidentes, com paragens no Úcua (nome ligado às chacinas de 61) e no Piri (onde ficaria uma das companhias do Batalhão). Desta última povoação partia um desvio da estrada principal (a estrada do café) que nos levava até Quibaxe.
Quibaxe era em 1973 uma vilória em franca expansão, com várias ruas asfaltadas, mantendo ainda a configuração habitual de uma rua principal com pequenas transversais interligadas já por paralelas à rua principal. Tinha cinema, uma igreja com padre permanente, um hospital também com um médico permanente (o Dr Abrantes que residia há muito tempo na região, desde que se metera em políticas na Metrópole), muitas casas comerciais, estação de correios, uma agência bancária e (luxo supremo!) electricidade 24 horas por dia.

Era sede de concelho, pelo que tinha um Administrador (um furo acima do chefe de posto, figura fundamental na administração colonial) e uma pequena delegação da PIDE (então já na sua versão DGS) com o sr Antunes à cabeça, apoiado num grupo de Flechas (uma secção ou um pelotão, não me lembro já).

A vilória ficava numa zona relativamente plana, e num dos extremos subia pela encosta de um morro, no cimo do qual ficava uma capelinha. A meia encosta ficava o forte a que já me referi, onde a população branca se refugiou aquando dos massacres de Março de 61.

À volta da zona do asfalto ficavam algumas sanzalas, com população local, em construção tradicional (paredes de pau a pique ou adobe, com cobertura de capim ou chapas de zinco). Estava em construção um bairro que seria a futura sanzala da Paz, onde seriam alojadas as “populações recuperadas da mata”. Este bairro não chegou a ser ocupado até eu sair de Quibaxe, se bem que, na sua grande maioria, as casas estivessem concluídas. Entretanto deu-se o 25 de Abril, interrompendo a política de concentração da população em aldeamentos deste tipo, onde (teoricamente...) não teriam contacto com a guerrilha.

Esta política nunca foi levada muito a sério em Angola, mas pontualmente houve algumas tentativas de a implementar. Na zona dos Dembos havia a ideia (realista) de que, por um lado, não era viável meter tanta gente em sanzalas “da paz” e prover as suas necessidades; por outro lado, havia a convicção (que também me parece realista) de que ter um “bando de turras” a controlar o que se passa no quartel e a comunicar ao pessoal da mata, era tudo menos desejável[4]. No leste, onde a população era escassa e a vegetação menos luxuriante que no norte, poderia ser mais fácil concentrar a população e evitar contactos com o IN.

De qualquer modo, no Vietname, em Moçambique ou na Guiné (onde esta medida era um dos pontos essenciais da receita para derrotar a guerrilha) os resultados não foram brilhantes...

O dispositivo militar contava, para além do comando de Batalhão, com uma das companhias, um PAD (Pelotão de Apoio Directo, unidade independente) onde se reparavam armas e viaturas (principalmente viaturas) e um PINT (Pelotão de Intendência). As outras duas companhias do Batalhão ficaram no Piri (na estrada do café, como já referi) e no Bom Jesus, um buraco infecto onde se chegava depois de horas e horas em picada poeirenta.

Para quem não esteja familiarizado com estas guerras, o comando de batalhão era constituído por um núcleo de comando (comandante, 2º comandante, oficial de operações e secretaria) e uma CCS (companhia de comando e serviços) com pelotões de transmissões, material (armamento, munições e viaturas), operações (chefiado por um alferes com o curso de Operacões Especiais, nos Rangers em Lamego) e sapadores (de que eu era o mui ilustre comandante). Havia ainda pessoal de intendência (vagomestre[5], cozinheiros e ajudantes), serviços de saúde (médico, enfermeiro e ajudantes) e serviços religiosos (padre e sacristão).

O sacristão tinha a designação pomposa de Auxiliar de Serviços Religiosos e o cargo era um tacho muito cobiçado, pois, para além das missas dominicais na sede do Batalhão e de algumas deslocações às companhias destacadas, nada de perigoso constava das suas funções. Ficava com imenso tempo livre, que podia dedicar a outras funções úteis. O nosso Auxiliar de Serviços Religiosos, o Martins[6], acumulava as funções de barman na messe de oficiais, e desempenhava-as com primor e savoir faire. No fim da comissão fiz uma proposta para lhe ser atribuído um louvor, e redigi-a nos termos habitualmente reservados aos oficiais (“militar educado e de fino trato” etc e tal). O comandante percebeu (ou, pelo menos, desconfiou) que era gozo e não lhe deu seguimento.


Aliás, o BART 6222/73 deve ter sido das poucas unidades sem louvores no fim da comissão. Não porque fosse pior que as outras, mas por ter apanhado um período pouco dado a feitos guerreiros (chegámos a Angola em Novembro de 1973, passámos o 25 de Abril menos de seis meses depois, e daí para a frente pouco mais se fez do que passar tempo para voltar a Portugal).

Pelo meio houve pequenas chatices, tricas e mal entendidos (não vale a pena entrar em detalhes nesta matéria chata) de modo que dos louvores que habitualmente pontuam a folha de serviços dos militares de carreira, quando terminam uma comissão de serviço ou mudam de unidade[7], não houve nada para ninguém.

O médico e o padre eram de rendição individual (não vinham com o batalhão), de modo que os herdámos da unidade que rendemos. O médico era um familiar da poetisa Sofia de Melo Breyner Andresen, estava já um tanto cacimbado e não tive tempo para o conhecer[8]. Foi rendido pelo Dr Defensor de Moura (foto actual, ao lado), um tipo estável e bem disposto que contribuiu ao longo da comissão para desanuviar o ambiente[9]. Voltei a ouvir notícias dele há poucos anos, estava no Hospital de Viana do Castelo. Nas últimas autárquicas (1993 e 97) viria a ser eleito e reeleito Presidente da Câmara Municipal dessa cidade. Em 2009 continua firme e hirto no posto, tentando derrubar o edifício Coutinho, até agora em vão...

As amenidades de Quibaxe e a relativa paz que reinava na região fizeram com que rapidamente parte dos oficiais mandassem vir as caras metade, e alguns (o 2º Comandante) até os filhos e a sogra…

A esposa do Comandante tornou-se directora da escola e as restantes levavam a vida possível de domésticas, pois a vilória era grandinha mas não tinha empregos para todas elas.

A actividade militar do IN[10] era escassa, de modo que a nossa não ia muito além de operações um pouco por toda a área que nos estava atribuida[11]. Mantinhamos uma presença constante que dava confiança (pensávamos nós) aos fazendeiros e às populações, em cujo coração (era garantido!) o amor a Portugal só vacilava ante a ameaça de terríveis sevícias por parte dos terroristas que do exterior moviam contra nós uma guerra inspirada, municiada e comandada por Moscovo!(catecismo, vulgata lusitana).

Escuso de dizer que a seguir ao 25 de Abril descobri rapidamente que o MPLA estava activo na região, abstendo-se de acções militares, mas mantendo uma intensa acção de mobilização junto da população que lhe permitiu surgir com uma implantação muito forte (inclusive em Quibaxe) logo após a queda do antigo regime.

Quanto aos fazendeiros, se bem que não fossem à bola com o MPLA, mantinham com ele um modus vivendi que permitia que vivessemos todos em boa harmonia (ou pelo menos, evitando chatices onde elas não existiam...)

As operações eram realizadas pelos pelotões das companhias de atiradores e pelo pelotão de operações da CCS. Ao meu pelotão, sapadores, competia erigir fortificações (felizmente estavam todas erectas), reparar picadas, fazer pequenas construções, proceder a demolições com explosivos e (claro!) desactivar minas e armadilhas.

Esta coisa das minas, felizmente, nunca foi biscate que nos tocasse, e estou muito satisfeito por não ter tido oportunidade de adquirir experiência nesse ramo.

A nossa actividade principal, quando não estávamos destacados a reparar picadas ou a fazer paióis (lá iremos) consistia em pequenas missões de recolha de GEs, que participariam nas operações dos pelotões de atiradores.

Os GEs, Grupos Especiais, eram uma espécie de milícias constituídas pela população local, mantendo-se nas suas sanzalas e levando uma vida normalíssima, até que as NT os fossem recolher para participarem em operações. Como bons conhecedores da região serviam de guia levando-nos onde nós queríamos (e evitando os locais que não convinha[12] muito que visitássemos).

Essas deslocações eram, a bem dizer, verdadeiras passeatas, com paisagens muito belas, alternando matas com zonas de vegetação rasteira, com muitos riachos, cuja travessia nem sempre era um mar de rosas. Por vezes tivemos que usar o guincho de um Unimog para libertar outro com uma (ou mais) roda num buraco, no meio do riacho. É claro que íamos sempre inquietos ante a possibilidade de emboscadas, pois a paz e o modus vivendi atrás referidos foram ciência adquirida apenas depois do 25 de Abril...

Um aspecto que me impressionou então foi a quase omnipresença do pequeno comércio (quase sempre representado por um branco já entradote a falar achim, casado com uma preta e tendo, muitos deles, um capataz cabo verdiano).

Depois de uma horitas de bate-cú no Unimog (a estrada até Luanda era asfaltada, havia umas estradas decentes até Bula Atumba e Pango Aluquem, mas o resto eram picadas execráveis e poeirentas), era muito agradável parar numa dessas lojecas de comércio geral, beber umas Cucas ou Fantas fresquinhas, comer uma boa bifana entalada num papo seco e espairecer um bocado antes de retomar a marcha. Nalgumas, até uma mesa de matrecos havia!

O meu pelotão esteve destacado numa fazenda não muito distante do fortim do Dange, a reparar a picada que conduzia àquele fortim. Tratava-se de uma construção isolada destinada a proteger uma pequena ponte que atravessava o rio Dange, numa zona crítica nos tempos heróicos de 61-62.

No tempo em que lá estive a região não era particularmente perigosa, mas o fortim dava ideia do que terá sido a guerra nesta região quando a FNLA (nesses tempos ainda UPA) dominava o espaço fora das estradas e povoações, e a actividade económica não tinha ainda sido restabelecida. As emboscadas aconteciam em quase todas as deslocações e as flagelações a aquartelamentos isolados não deixavam ninguém dormir em sossego.

Com o tempo tudo voltou ao normal, as roças voltaram a produzir em grande, as estradas asfaltadas progrediam a ritmo vivo e a guerrilha foi progressivamente empurrada para as regiões fronteiriças, próximas dos santuários nos países vizinhos.

O MPLA acossado pela FNLA e pelo exército português e tendo perdido os santuários no Zaire, abriu as hostilidades na frente leste. Nos Dembos remeteu-se a acções de mobilização das populações, evitando contactos com as NT.

Com a reactivação das actividades económicas, recomeçou a contratação de bailundos, arrebanhados do planalto central para servirem no norte, cujas populações manifestamente não davam garantias nenhumas de produtividade nem de docilidade.

A Fazenda Maria Manuela era um bom exemplo do que se passava com a mão de obra semi escrava: o dono era um senhor já nos seus sessentas, boa pessoa, a quem nunca vi atitudes ou palavras que revelassem índole violenta ou desrespeito pelo pessoal. O capataz, um tipo mais novo, referia-se aos pretos de forma mais desabrida, mas também não seria por aí que vinha mal ao mundo.

O que efectivamente estava errado era a cultura subjacente a esta sociedade que permitia que os contratados trabalhassem de sol a sol, vivendo em instalações absolutamente indignas (a ideia era que nas sanzalas não viviam melhor, portanto, tudo bem…), ganhando o estritamente necessário para pagar na loja da fazenda o que consumiam durante o mês. O Chefe de Posto e os seus sipaios zelavam para que tudo corresse bem e para que o contrato fosse cumprido até ao fim.

Havia casos em que, findo o contrato, a conta na loja da fazenda estava por pagar. A coisa resolvia-se na hora: o contrato era prorrogado por mais um ano para saldar a dívida. O contratado tinha que ter muito cuidado, consumindo o indispensável e evitando multas (por danos provocados na propriedade do patrão), para que não se desse o caso de a dívida, findo o período adicional, ser maior que no seu início.

O dono da roça podia temperar este regime com bondade, boas palavras e tentando levar os recalcitrantes às boas, mas não podia mudar o sistema. É que o sucesso de uma exploração agrícola era (e não o será ainda hoje?) baseada precisamente na existência de mão de obra disponível a custos quase nulos.

Nesta óptica, era fatal que a continuação da generalidade dos portugueses nos novos países independentes era perfeitamente inviável, qualquer que fosse o partido a mandar.

Em Portugal triunfou a ideia de que as nacionalizações eram desejáveis e que as cooperativas agrícolas e as unidades colectivas de produção (as famigeradas UCP) eram viáveis. Mais ainda, que o caminho certo era o que conduzia ao socialismo. Esta ideia foi defendida não só pelo PCP e PS, mas também pelo PPD que votou favoravelmente leis e uma Constituição que previam tudo aquilo.

Parece-me muito natural (e saudável!) que os pretos, ao fim de séculos de humilhações constantes (sentidas principalmente pelos que adquiriram alguma instrução e cultura) desejassem a saída dos portugueses, mandar em si próprios e que quisessem operar todo o aparelho económico em proveito próprio.

A coisa não está a correr bem, mas o princípio parece-me sólido e continua perfeitamente válido:

- nada justifica que um país se instale num território onde a sua presença não é desejada e o organize segundo os seus interesses, secundarizando completamente as pessoas que já lá viviam e os seus descendentes.

Custa-me imenso ouvir pessoas de bem defenderem a presença portuguesa em África sem estranharem que ao fim de 500 anos a alfabetização mal tivesse começado, a burguesia urbana e rural fosse quase inexistente, as amenidades básicas da civilização (mesmo nas cidades) apenas fossem extensivas à população branca e o acesso à justiça fosse pouco mais que uma figura de retórica. Pior que tudo, a Igreja abençoava este estado de coisas, como já o fazia no tempo da escravatura.

Aliás é bom que nos habituemos à ideia de que não é possível esconder por muito mais tempo (e o 25 de Abril já foi há mais de 20 anos) que os escravos foram a principal riqueza que os portugueses “extraíram” das terras que colonizaram em África. Para nossa vergonha, até em Macau nos primeiros 20 anos de domínio, já na segunda metade do século XIX, foi precisamente o tráfico de escravos para Cuba e Peru a principal actividade económica do território (1845 a 1874).

Na Angola por onde andei o preto era um acessório indispensável ao progresso e ao desenvolvimento económico, do qual beneficiava apenas o estritamente necessário para que o desenvolvimento se mantivesse. De certo modo, os regimes coloniais foram os criadores do conceito de desenvolvimento sustentável:

- o preto era espremido de modo a prover as necessidades presentes, mas com conta peso e medida para não comprometer a capacidade das futuras gerações de colonos disporem desse recurso para proverem as suas necessidades.

Não notei que em Angola fosse diferente.

Da Fazenda Maria Manuela fomos, após curta passagem por Quibaxe, mandados para o Quiage, que não era mais que meia dúzia de casas, paredes meias com o quartel onde uma companhia independente estava instalada.

Na região teria havido alguma actividade do IN até pouco tempo antes da nossa chegada, mas enquanto lá estivemos, nunca houve ataques nem emboscadas a viaturas ou tropa em operações.

De resto, alguns dos furriéis tinham lá as mulheres o que era sintoma de relativa segurança.

A nossa missão era construir um paiol. De dia, depois do trabalho, jogávamos futebol; à noite fumávamos (tabaco "local"...), bebíamos, e observávamos as osgas a paparem moscas (à luz de velas, depois do gerador ser desligado), e conversava-se até o sono começar a apertar. Num dos jogos de futebol lesionei-me (a sério, não foi como o “desvio para a esquerda” de que falarei mais à frente…), dei cabo de ligamentos e de um menisco, e abalei para Quibaxe, com o joelho num trambolho.

Não voltei ao Quiage. Aleluia!

. . . . . .

NOTAS:

[1] Instituto Superior Técnico.

[2] Escola Prática de Infantaria, uma espécie de linha de montagem (sem malícia...) de oficiais milicianos instalada no convento de Mafra.

[3] Esta expressão já não era muito usada, no tempo do Marcelo as coisas mudavam de nome, mas na essência continuavam a ser as mesmas. Na expressão de um soldado a quem dei instrução, nós íamos para Angola “defender o que era nosso”. A malta desse grupo tinha ideias estranhas: um respondeu-me com toda a convicção que o nosso Presidente era o Salazar (que já fazia tijolo há uns anitos); outro, que quando os pretos chegaram “à nossa África já nós tinhamos lá chegado primeiro”.

[4]O tal bairro, serviu, contudo, um fim muito louvável: era um bom local para se mandar umas quecas (só para quem tinha acesso às chaves...), até porque algumas pequenas acreditavam estar a contribuir, com o seu piedoso acto, para que lhes fosse atribuída uma daquelas casas. Malandrice!

[5] Vá ao dicionário, vá lá, que não lhe posso dizer tudo...

[6] Comecei a tratá-lo por “Irmão” (tratamento que ele retribuia) alcunha que me pareceu adequada às funções espirituais que ele desempenhava. A alcunha pegou.

[7] Bastando para tal não terem sido castigados, não terem tido um desempenho abaixo do normal, nem arranjado atritos com quem propõe os louvores ou lhes dá seguimento...

[8] até porque não parei muito por Quibaxe: fui destacado, em rápida sequência para uma roça de café e para uma unidade vizinha, no Quiage (não vem no mapa), com os sapadores para reparar picadas, construir um paiol, etc...

[9] repito que não vou entrar em detalhes sobre as questiúnculas que, nestes meios pequenos e fechados, se geram entre pessoas obrigadas a viver (e fatalmente conviver) durante um período relativamente longo.

[10] IN, recordo, designa o Inimigo; a nossa malta, a Nossa Tropa, era designada por NT.

[11] a cada batalhão, normalmente reforçado por algumas pequenas unidades como as que referi (PAD e PINT) e eventualmente com companhias independentes, estava atribuída na quadrícula um espaço designado sub-sector que por sua vez estava na dependência do comando de sector, à frente do qual estava um coronel tirocinado (a estagiar para o generalato, para os leigos na matéria). O nosso sector tinha sede em Salazar (actual N’Dalatando) e era comandado por um irmão do Prof Moniz Pereira (treinador de atletismo do Sporting) e depois por um conterrâneo meu, o Coronel Renato Xavier. Este último a seguir ao 25 de Abril andava chateadíssimo por ninguem o ter posto ao corrente do que se preparava, ficando, assim, fora do barco. Acabou por não atingir o generalato.

[12] Naturalmente, só posso falar pelo que se passava na “minha zona”. Após o 25 de Abril vi alguns dos GEs tranquilamente misturados com o MPLA alguns dos quais, segundo me deixaram entender, já estavam com o movimento desde há muito. Esta promiscuidade era possível com o tipo de paz em que vivíamos; já os Flechas (uma espécie de PIDE preta) tinham pouca margem para ambiguidades e faziam mesmo serviço “à séria”, como os comandos africanos na Guiné. Mas isso são outras histórias...